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Capítulo 172: Um velho amigo, talvez

Ascension Day·Capítulo 172 de 187·~6 min de leitura

Atualizado: 2026-08-01 08:59

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O jovem se virou. Seus olhos eram claros — demais, pensou Jiang Qi. Olhos humanos carregavam a turbidez do sentimento, dos anos, da perda. Aqueles não tinham nada disso.

—Grão-Preceptor Jiang. —Xu Fu sorriu e fechou seu pergaminho dourado—. Viajar com o senhor seria uma honra.

Jiang Qi carregou Su Yan até a montanha imortal e o depositou com cuidado. Xu Fu examinou o rapaz imediatamente, seus dedos leves sobre o pulso de Su Yan.

—Suas feridas são graves, mas seu espírito verdadeiro é profundo. A base permanece intacta.

O olhar de Jiang Qi pousou no pergaminho dourado.

—O Imortal Indecível foi selado. Essas escrituras podem romper o selo?

Xu Fu riu.

—O senhor acha que eu o controlo?

—Acho que o senhor brinca com fogo. —A voz de Jiang Qi era plana—. O senhor o des-selou parcialmente para matar Long Yuan. Depois o selou novamente. Um dia perderá o controle.

Xu Fu não disse nada. Terminou de cuidar de Su Yan e se sentou.

—O curso do rio Nai foi mudado. O submundo invadiu. As terras seladas retornaram. O Dragão Ancestral foi revivido. —Jiang Qi enumerou cada calamidade como uma lâmina caindo—. O Pântano Yunmeng reapareceu. O senhor planejou tudo isso?

—O Caminho Celestial se reabriu graças ao senhor, Grão-Preceptor. —Xu Fu olhou para cima, suave como água em calma—. O senhor entrou no Menor Xuantian na etapa do Refinamento Dual e emergiu como um grande mestre à beira da Ascensão. Subjugou a Espada do Castigo Celestial e restaurou a raiz espiritual do céu e da terra. Tal sabedoria... como eu, um humilde buscador, poderia ter calculado algo disso?

A mão de Jiang Qi se apertou na espada.

—Dois anos atrás —disse lentamente—, alguém espalhou rumores de doze homens de ouro na montanha Li. As famílias nuo correram como lobos. Eles limparam os perigos. Alimentaram sua própria cultivação ao Dragão Ancestral. O arquiteto sentou-se e observou.

Xu Fu sorriu.

—A sabedoria dele era maior que a sua?

—Ele me fez sua peça. —Jiang Qi verificou o pulso de Su Yan, a outra mão ainda na espada—. Mas golpeou quando eu não estava alerta. Se eu soubesse que o tabuleiro existia, o jogo poderia ter terminado de outra forma.

—Se pudesse fazer de novo —perguntou Xu Fu—, o senhor ainda entraria naquele campo de batalha?

Jiang Qi apertou a espada até que seus nós dos dedos ficassem brancos.

—Sim.

Ele não queria admitir. Mas era verdade. Ele precisava da Essência do Dao Primordial. Sem ela, o imperador Zhou e sua corte cairiam diante dos Demônios Celestiais.

—Então, por que se preocupar em ser usado? —Xu Fu abriu as mãos—. Aquelas famílias nuo sabiam que o rumor da tumba vinha de mim. Elas ficariam afastadas?

Jiang Qi riu, um som curto e afiado.

—Não. Teriam ido. Assim como eu.

—Essa é a beleza de um bom esquema.

Os dois homens se estudaram mutuamente. Jiang Qi viu sua própria astúcia refletida no olhar calmo de Xu Fu, e não gostou do espelho.

—Espero enfrentá-lo abertamente um dia.

—Nunca lhe darei essa oportunidade. —O sorriso de Xu Fu não vacilou—. Por exemplo, agora mesmo o senhor não pode me tocar.

Ambos riram. O som ressoou através do campo de estrelas.

A montanha Fangzhang desviou-se em direção à árvore Fusang. Jiang Qi reuniu Su Yan em seus braços e saltou de volta à árvore divina. Quando olhou para trás, a montanha imortal e seu mestre haviam desaparecido.

—Um inimigo digno —murmurou Jiang Qi.

Ele queria testar-se contra aquela mente. Mas a batalha com Long Yuan lhe custara demais. Deixou o pensamento ir.

Adiante, o mundo de Yuan Shou esperava.

* * *

Su Yan acordou com calor. A árvore Fusang tinha enraizado no fundo do Pântano Yunmeng, e os refugiados do reino do ventre de peixe já estavam construindo seus novos lares.

O pântano abundava em bestas. Sobreviver ali exigia força.

Su Yan sentou-se, a cabeça ainda nublada. Jiang Qi estava cercado de gente, ensinando-lhes métodos básicos de cultivação.

Um grito se elevou. Su Yan olhou para o céu e viu um segundo sol ardendo em sua direção. Não, não um sol. Um corvo dourado de três patas, com as asas estendidas por centenas de metros, chamas envolvendo seu corpo.

O corvo pousou na árvore Fusang. O fogo dourado percorreu os galhos, e a árvore ardeu com poder. Os refugiados caíram de joelhos, chorando, rezando.

O corvo esticou o pescoço e abaixou a cabeça até que seu bico ficasse à altura do rosto de Su Yan. Girou a cabeça para um lado e para o outro, estudando-o com olhos antigos e nublados.

Uma voz como pedra moendo falou de sua garganta.

—Estranho. Sinto como se tivesse visto você antes.

Su Yan encontrou seu olhar.

—Não me lembro de você.

—Deveria me lembrar. Mas sou velho demais. Minha memória se desvanece. —O corvo endireitou-se, cada movimento pesado de velhice—. Você não deveria ter vivido tanto.

Jiang Qi se aproximou.

—O corvo dourado protegerá este lugar. Essas pessoas sobreviverão.

Su Yan sorriu.

—Como se sente, Grão-Preceptor? Salvando vidas em vez de terminá-las?

—Esta era não precisa de humanidade. —Jiang Qi ajustou suas vestes—. A humanidade mata as pessoas. Carrego o destino de toda a Arca da Outra Margem em meus ombros. O sentimento é um luxo que não posso me permitir. —Inclinou a cabeça a Su Yan—. Mas respeito aqueles que podem se permitir. Se algum dia precisar de sua ajuda, Imortal Indecível, espero que responda.

Ele se elevou ao céu e desapareceu.

Su Yan o observou ir.

—Sem humanidade. Apenas divindade.

Pensou em Xu Fu. Era exatamente o que Xu Fu queria que ele se tornasse.

Yuan Qi se deslizou até ele, encantado.

—A-Ying! Você acordou! Vovô Sino, ande logo! Mostre a ele as palavras em seu traseiro!

O sino flutuou para a frente, coberto com tecido que os refugiados haviam costurado para ele. Movia-se com uma timidez pouco característica.

—O que há de errado com você? —perguntou Su Yan.

Yuan Qi arrancou o tecido de um puxão. Gravados na superfície de bronze do sino havia oito caracteres em escrita selo de pássaro: marcas deixadas pelo outro eu de Su Yan enquanto dormia.

Su Yan os estudou. Compreendeu seu significado imediatamente, mas quando tentou fixar suas formas em sua mente, uma névoa se ergueu dentro de seu crânio e apagou a memória.

Vez após vez ele tentou. Vez após vez a névoa engoliu sua lembrança.

Tonto, parou.

—Por que preciso memorizá-los inteiros? Posso decompô-los, derivar artes diferentes de cada pedaço. A névoa ainda apagará isso?

O sino se contorceu.

—Terminou de olhar? Quero minha roupa de volta.

—Vovô Sino, esses caracteres contêm um poder imenso. Selaram até seu outro eu. Esta pode ser sua chance de superar aquele Sino da Liberdade.

—Não sou um peixe! —O sino tremeu de fúria e lançou-se contra Yuan Qi.

Um badalo profundo ressoou. O caractere de "prisão" ardeu na superfície do sino. O espaço se dobrava ao redor de Yuan Qi, prendendo-o em camadas de runas vinculantes: corpo, Reino Interior, núcleo dourado, forno, alma, e finalmente seu espírito verdadeiro, comprimido em uma jaula menor que um grão de areia.

Yuan Qi não podia se mover, ouvir ou sentir. O terror o devorou por completo.

O sino ressoou com risada.

—Não preciso mais de roupa! Com isso não temo nada! Nem mesmo Li Xiaoke me olhará de cima!

—Vovô Sino —disse Su Yan com paciência—, você pode soltá-lo?

O sino havia ativado o selo por acidente. Não tinha ideia de como desfazê-lo. Depois de meio dia de esforço frenético, apenas piorou as coisas, sobrepondo uma segunda runa de selamento à primeira.

Su Yan passou os dias seguintes estudando os oito caracteres, escrevendo qualquer insight que pudesse antes que a névoa o levasse. Fez pouco progresso.

Na Cidadela de Pedra, Beichenzi olhou para o altar, seu rosto acinzentado. O incenso ardia tão grosso quanto um braço. As runas de supressão ainda brilhavam em seu santuário. Mas os caracteres piscavam e mudavam.

Alguém estava rompendo o selo.

—Inconsciente —murmurou Beichenzi. Voltou-se para o Deus da Terra da Terra Divina—. O criminoso está forçando o selo. Certamente seus superiores deveriam lidar com isso?

O pequeno deus bateu um papel amassado sobre o altar.

—Lidar com nada! Há dois anos e meio pedi um Artefato do Dao Celestial para suprimir o Dragão Ancestral. O pedido ainda está em processamento! Esta nova petição não será respondida até a próxima era!

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