# Capítulo 155: O Caminho é Longo e Difícil
Jiang Wang acreditara que Yin Guan viria matá-lo—afinal, ele arruinara o plano do homem. Mas aconteceu que Yin Guan fora enfrentar Zheng Chaoyang. E o que jamais imaginara é que Yin Guan pudesse combater contra Zheng Chaoyang em tamanha altura. !Gênios havia neste mundo aos centos!
Para então, Jiang Wang já deduzira o propósito de Yin Guan. Ele devia ter preparado este dia durante muita, muita coisa. Não só penetrara a fraqueza da Besta Sagrada Guardiã, como também a grande formação da Cidade Alta. E armara sua rede com esmero na Cidade Vigésima Sétima; quando a Besta Sagrada Guardiã levasse a Cidade Alta de patrulha até aquele mesmo sítio, quando todos os informados esperassem que ele fosse devorado, que a besta sagrada ficasse satisfeita... ele se arremessou com selvagem brusquidão!
A Besta Sagrada Guardiã, por certo, não podia ser submetida ao seu comando—mas bastava acender a sua sede de sangue. A Maldição das Mil Absolutas podia levar a tarefa até o fim. No melhor dos casos, a força de combate de elite do Reino de You e a besta sagrada se feririam mutuamente até a ruína, e então ele desvelaria o verdadeiro poder de combate que mantivera oculto durante anos, arrasaria a Cidade Alta num só golpe, e estilhaçaria a ordem política do reino.
De entre as ruínas, reconstruiria o Reino de You.
Mas, por um giro fortuito da sorte, Jiang Wang o tirara do esconderijo antes do tempo, e os ases ocultos das altas hierarquias do Reino de You excediam quanto ele conhecia—afinal, sempre habitara a Cidade Baixa, sem oportunidade de se inteirar de muito. Não só Zheng Chaoyang, sozinho, conseguira conter a besta sagrada por um tempo, como a própria besta tampouco chegara a enlouquecer de todo. E de começo a fim, Zhao Cang ainda não movera um dedo, pronto a qualquer momento para aparar qualquer percalço.
Yin Guan reconheceu que o plano fracassara, e se retirou com decisão. Mas, então, por que reaparecera fora dos muros e travara uma grande batalha com Zheng Chaoyang antes de partir?
Na aparência, era o combate de um perdedor que resiste, um intento de provar se podia derrubar Zheng Chaoyang. Mas, a juízo de Jiang Wang, podia haver apenas uma razão: Su Muqing.
Nem o boneco de papel amaldiçoado nem a maldição lançada sobre a ama de leite de Su Muqing tinham jamais ameaçado de verdade a vida de Su Muqing. Mas haveriam de cortar o laço que a unia a ele, para que ela não sofresse mais por sua causa. E sua grande batalha com Zheng Chaoyang se travava para mostrar sua força. Assim, mesmo depois de partir, aqueles que ainda guardassem pensamentos em Su Muqing pesariam com cuidado se podiam resistir à sua fúria. Depois de ter combatido em pé de igualdade com Zheng Chaoyang, ninguém em todo o Reino de You ousaria tatear de novo seus limites.
Talvez ainda ligasse a Su Muqing, talvez não—já não importava. O que importava era que ele ainda era tão jovem e, ainda assim, podia combater com Zheng Chaoyang até o ponto morto. E daqui a cinco anos, a dez, a vinte? Ainda mais temível do que a força que mostrara era o seu gênio. E ainda mais temível do que o presente era o seu futuro.
Aquilo explicava também por que, sendo ele um dos que arruinaram seu plano, não o matara. Porque Jiang Wang salvara Su Muqing.
Como viagem, a deste Reino de You podia se chamar precipitada; e, ainda assim, deixara em Jiang Wang uma impressão profundíssima. Sobretudo, que Yin Guan—tão dotado, tão poderoso, tão longo nos preparativos—fracassara de qualquer modo. A Cidade Alta saiu quase ilesa. Durante séculos, o Reino de You marchara assim, e assim continuaria a marchar. Como se nada tivesse mudado em absoluto.
E quanto a Jiang Wang mesmo, o que ele enfrentava por sua parte era uma senda tão longa, tão árdua.
Jiang Wang ergueu um dedo diante de si, e a Flor de Chama se abriu. Acostumara-se a isso—a soltar a Flor de Chama em qualquer lugar e momento, e a deixá-la se extinguir de novo. Ao longo de todo o caminho repetira isso dezenas de milhares de vezes. Queria dominar até o último detalhe desta arte-dao, pois só assim cabia esperar entrever panoramas mais belos.
As flores caem e as flores florescem, cada uma a seu tempo.
Lançou sua figura no ar e, com a mão na espada, já ultrapassara as cristas das montanhas. Através do vento e da geada de sua senda, seu espírito combativo não se embotara nem um átimo. Um caminho de dez mil li começa sob os próprios pés. O caminho é longo; mas hei de buscá-lo no alto e no baixo.
A Besta Sagrada Guardiã veio retumbando e se afastou retumbando. Essa enorme tartaruga de sangue Bixia seguiria levando sua carga sempre em frente. Também se habituara a este território do Reino de You, acostumada a esse parentesco de simbiose. Alimentada a intervalos regulares com manjares ricos em essência, sua força não podia senão seguir se elevando. Que hoje tivesse dado um pequeno acesso de fúria não significava nada: numa vida tão longa, não merecia ser mencionado.
Para a maioria do povo da Cidade Vigésima Sétima, o de hoje fora um dia de espetáculo estrondoso e de súbito pavor. Um exame rotineiro do governo revolvera céu e terra. Continuariam a tratar de muitos temas: sobre Yin Guan. Por que traíra, por que era tão forte, em que heresia entrara, que males cometera... e, evidentemente, aqui e ali se ergueria alguma voz duvidando de que Yin Guan tivesse sido arrastado a isso sem alternativa.
Alguns falavam até daquele letrado de testa proeminente que não cessava de recitar versinhos de feira, e daquele jovem do cabelo branco. Falavam de Zhao Che e de seus modos de malandro bêbado. Mas, por muito que o povo debatesse, logo haveria de esquecer.
Na Cidade Alta.
Embora a grande tartaruga estivesse em marcha, nem um estremecimento percorria a Cidade Alta—de uma estabilidade absoluta. O senhor da Cidade Alta era o soberano do Reino de You. Mas todos sabiam que o soberano atual não tinha nem porte de cultivo nem juízo para o governo. Nas artes do vinho e do canto, isso sim, era um dotado sem igual—com Zhao Che, o filho do Mentor, bem podiam se chamar o par de malandros prodigiosos.
Às audiências de corte jamais viria, do governo não tomaria parte. No máximo, nos sacrifícios, sairia para dar uma volta e servir de adorno. Não havia remédio: era o único sangue do soberano anterior. Nobre por nascimento. Os cortesãos leais só podiam aferrar suas esperanças à próxima geração. Graças ao céu, o soberano atual se mostrara muito mais prolífico do que o falecido imperador—já contava três filhos e sete filhas, sem escassez de candidatos dignos de cultivo.
Quanto aos desleais... só lhes restava morder a língua. Pois tanto o Mentor Zhao Cang quanto o comandante Zheng Chaoyang do Exército Portador de Estelas, ambos eram realistas acérrimos. Leais de corpo e alma ao imperador falecido, haviam transferido essa lealdade ao soberano atual.
Como o soberano atual não atendia aos assuntos de Estado, o governo descansava agora no Mentor.
No grande salão.
Zhao Cang se sentava sozinho em seu estrado. Além do próprio soberano, em todo o Reino de Zhuang só ele e Zheng Chaoyang dispunham de assento nesse grande salão, colocados diante da assembleia de ministros. Mas Zheng Chaoyang jamais se sentava, alegando que não podia se acostumar.
Agora não havia senão dois na sala, Zhao Cang e Zheng Chaoyang, e nenhum terceiro. Carapaças de tartaruga se achavam espalhadas sobre a mesa. Mas Zhao Cang não leu a adivinhação; com os olhos fechados, disse: "!Marechal Zheng, por que deixaste partir hoje esse Yin Guan?"
Como a imensa maioria das escolas de cultivo sob o céu, o caminho marcial nascera da escola taoísta. As mais antigas vias taoístas tinham sido, em seus começos, a confluência de todas as artes mediante as quais a raça humana explorou a senda do cultivo. Só ao longo das dilatadas eras se foram abrindo direções diversas, e assim nasceram escolas distintas. Os cultivos de quase toda escola passavam igualmente por tal escada de reinos como a Veia Errante, a Circulação Celestial Zhou, o Acesso ao Céu, o Ascenso do Dragão, a Prefeitura Interior, a Torre Exterior, a Presença Divina, a Gruta Verdadeira... Só que seus pensamentos regentes diferiam, suas inclinações variavam, o que por sua vez moldava as maneiras do combate.
A escola marcial punha seu acento no poder do sangue vital, a mais hábil de todas no manejo da aura sinistra, e se atribuía o primeiro posto em força de matar entre todas as escolas. No combate de hoje entre Zheng Chaoyang e Yin Guan, embora se tivesse desatado um poder de combate tremendo, a força de matar que o elevava acima dos cultivos de seu mesmo grau não se mostrara por inteiro.
Dito de outro modo—ele não empregara toda a sua força.
Zheng Chaoyang permaneceu de pé como uma torre de ferro, e só após um longo silêncio disse: "Em todo o nosso Reino de You jamais vi um cultivo tão dotado."
"Eu pensava," disse ele, "que um gênio como este—se lhe fosse dada a oportunidade de crescer, não se poderia tornar o pilar do Reino de You? Não bastaria para o proteger?"
Zhao Cang ergueu apenas as pálpebras, e com calma serena disse: "Os houve mais dotados do que ele. Mas nenhum teve a oportunidade de crescer—todos morreram em batalha."
E acrescentou: "Antes de a Besta Sagrada Guardiã aparecer."
No grande salão houve, daí em diante, um longo silêncio.