O símbolo negro se retorceu, se condensou e se remodelou em um livro — grosso, pesado, esculpido de sombra solidificada. Dois caracteres estavam estampados na capa em tinta tão escura que parecia sugar a luz ao redor: «Livro de Pena».
Zhang Yu mal teve tempo de processar o nome antes de o livro se abrir sozinho. Páginas viraram numa brisa que não existia.
A primeira página era um índice. Só a linha do topo — «Prólogo» — era legível. Tudo abaixo era uma mancha de texto borrado, como palavras atrás de vidro fosco.
*Só o prólogo está desbloqueado.*
Ele virou para ele. A página esquerda tinha um retrato: o próprio Zhang Yu, sentado de pernas cruzadas em meditação. A pintura era perturbadoramente viva. Dava para ver o sutil subir e descer do peito. Rastros tênues de luz percorriam o corpo pintado — seu mana, supôs, fluindo pelos meridianos.
A página direita eram dados:
**Zhang Yu** **Determinação: Nível 1** **Mana: 7.7** **Força Física: Nível 0.83** **Artes Marciais: 36 Formas de Forja Corporal Nv. 1, Combate Livre Nv. 1** **Artes Daoístas: Respiração Básica Nv. 1, Refinamento Mental Básico Nv. 1**
*Minhas estatísticas*, percebeu. *A determinação coincide com as medições da escola — eles não conseguem nada mais preciso que níveis inteiros. Mana, força física... estes são meus números reais.*
As quatro habilidades eram os fundamentos que todo aluno do primeiro ano aprendia: 36 Formas de Forja Corporal para condicionamento físico, Combate Livre para treinamento de combate, Respiração Básica para cultivação de mana, Refinamento Mental Básico para construir determinação. Todas de nível inicial. Todas o mínimo absoluto.
*Então o deus maligno despertou meu potencial num livro que mostra minhas estatísticas. É só isso? Eu consigo isso dos escâneres da escola todo dia.*
*Tem que ter mais.*
Concentrou-se nos números. «Livro de Pena! Adiciona pontos!»
Nada. Os dados permaneceram teimosamente estáticos. Virou para a próxima página. Só duas palavras: «Continua».
*As entradas bloqueadas. O índice congelado. Essa habilidade se atualiza de algum modo? Desbloqueia novas funções quando eu fico mais forte?*
Continuou experimentando, empurrando a atenção para diferentes entradas, procurando algum gatilho oculto. Então seu foco caiu sobre «36 Formas de Forja Corporal Nv. 1».
O texto se moveu.
Ele podia *arrastá-lo*. A entrada da habilidade deslizou pela página sob sua força mental, de um lado para o outro, como um arquivo numa área de trabalho. Não tinha ideia do que fazer com ela — até que, por acidente, ela roçou o retrato em meditação.
O retrato a absorveu.
Clareza gelada derramou pelo topo do crânio. O Zhang Yu pintado se levantou da pose de meditação, ergueu os braços e começou a executar as 36 Formas de Forja Corporal — um movimento após outro, fluindo com precisão perfeita. Cada ângulo articular, cada contração muscular, cada ritmo de respiração — impecável.
Acima do retrato, novo texto apareceu: **36 Formas de Forja Corporal Nv. 1 +**
O coração de Zhang Yu martelou. *Aí está. Meu potencial. Realmente despertado.*
Focou no sinal de mais e o pressionou mentalmente.
Borrou. Depois se resolveu em: **(0/10)**
Compreensão o inundou, profunda e certa: praticar as 36 Formas de Forja Corporal dez vezes, e a habilidade avançaria.
*Dez repetições. Só dez repetições para subir de nível.* Ele tinha praticado esta forma centenas de vezes desde o início do semestre, sem nenhuma sensação de melhora. A ideia de que dez sessões focadas pudessem empurrá-la para o próximo nível era absurda. Também era, aparentemente, verdade.
«Esta noite», murmurou, «chego a dez.»
---
Tomou a primeira postura. O corpo se retorceu, músculos se enrolando e se liberando, poder surgindo pela sua estrutura em ondas sequenciadas. As tábuas do piso gemeram.
«EI!» Um punho bateu na parede vizinha. «Tentando demoler o prédio?! É meia-noite!»
Congelou. Certo. O apartamento tinha paredes de papelão e rancor. Nada de treino noturno aqui.
Mas o Livro de Pena queimava um buraco na sua palma. Dez repetições. Precisava saber.
*Aquela obra abandonada perto do ponto de ônibus...*
---
Escuridão. Pilares de concreto. O eco oco de seus passos por um lance de escadas vazio.
Zhang Yu trabalhou as 36 Formas de Forja Corporal no esqueleto estripado do prédio inacabado. O neon distante da rua abaixo piscava por buracos com forma de janela nas paredes, pintando sua silhueta em rajadas de cor. O ar era frio e parado.
O corpo já estava destruído pela aula de educação física da manhã. Sem injeções. Sem suplementos. Sem refeições aprimoradas para acelerar a recuperação. Cada movimento arrastava como se seus músculos se rasgassem nas costuras. Cada articulação enviava sinais de protesto que seu cérebro tinha aprendido a suprimir.
Terminou uma sequência completa.
Chamou o Livro de Pena, ofegante: **36 Formas de Forja Corporal Nv. 1 (1/10)**
*Funciona. Realmente funciona.*
«Só mais nove», respirou. «Consigo fazer mais nove.»
Começou a segunda repetição. No meio do caminho, as pernas cederam. Desabou no concreto, peito ofegante, braços se recusando a responder. Os membros pareciam ter sido desenroscados das juntas e recolocados com ferrugem.
*Acabei. Limite absoluto. Terminho amanhã.*
Pavor frio o percorreu — frio e profundo e errado. Uma voz falou diretamente em sua mente, tonal e inevitável.
«Por favor observe o contrato ritual. Trabalhe diligentemente para cumprir os desejos. Não folgue intencionalmente nem se atrase. 10.»
A contagem regressiva trouxe mais que palavras. Trouxe uma sensação física — algo se enroscando dentro dele, uma pressão se acumulando atrás das costelas, pronta para explodir para fora e despedaçá-lo.
«9.»
«8.»
«7.»
A voz da boneca ecoou na memória: *Se você folgar em cumprir meus desejos, você morre por reação ritual. Carne explodida. Alma dispersa.*
*Então qualquer folga no caminho dos desejos — estudo, treino, universidade, trabalho, ganhar dinheiro — conta como violação?*
«4.»
«3.»
Zhang Yu se arrastou para ficar de pé com um grito rouco, forçando o corpo arruinado de volta à primeira postura. No momento em que seus músculos se engajaram, a contagem parou. A pressão no peito se dissolveu.
Ficou ali, ofegante, suor pingando no concreto rachado.
*O ritual não se importa se estou cansado. Não se importa se estou ferido. Não se importa se tenho aula amanhã. Só se importa que eu empurre. Sempre. Sem exceção.*
Começou a segunda repetição.
O deus maligno não tinha apenas despertado seu potencial.
O tinha acorrentado a ele.