"O Estilo de Espada do Piscar de Olhos?" Han Li repetiu para si o nome daquela arte de espada, como se não pudesse de todo crer no que seus ouvidos tinham escutado.
"Sim, isso mesmo. Dize-me, o que tem a ver uma arte de espada com o piscar de um olho? Não te parece um nome de rir?" Li Feiyu sorriu, meneando a cabeça ante o absurdo da coisa.
"Nunca praticaste esta arte de espada?" perguntou Han Li, com um cuidado quase solícito.
"Praticá-la? Eu não. Quem iria jamais praticar uma arte marcial que não precisa da verdadeira energia? Não seria isso um mero enfeite floral de pura aparência? E não creias que sou eu somente quem a despreza—desde o próprio dia em que se ideou, jamais homem algum logrou dominá-la."
Han Li, ao ouvi-lo, sentiu crescer sua curiosidade. "E como veio a repousar uma arte tão inútil dentro do Salão dos Sete Extremos?"
"Ah, e essa é a história mais estranha de todas," disse Li Feiyu, acendendo-se com seu tema. "Conta-se que, não fora pelo ancião que primeiro a ideou—um homem que, em seus dias, salvou a Seita dos Sete Mistérios de crise não uma, mas várias vezes—e não tivesse ele, em seu leito de morte, deixado escrito como último desejo solene que esta arte de espada se colocasse na coleção do Salão dos Sete Extremos, pois bem, o Estilo de Espada do Piscar de Olhos jamais neste mundo teria logrado um posto entre as artes sem par de dito salão."
Li Feiyu era homem de condição contrária: seu rosto levava um aspecto frio e impiedoso, mas sua língua era tão solta. Mal Han Li tinha chegado a formular uma pergunta, quando Li Feiyu tinha já derramado todo segredo de tão rara arte, raiz e ramo. É claro, essa natureza sua de tagarela apenas se mostrava um ápice, e só na presença de Han Li. Uma vez fora, entre os demais discípulos, voltava a ser aquele ídolo frio e inacessível deles, o severo "Irmão Mais Velho Li" a quem todos olhavam com respeito de longe.
Quando Han Li houve ouvido todo o relato de Li Feiyu até o fim, um certo sentimento se agitou dentro de seu peito—uma suspeita, vaga e sem forma, que se erguia dos próprios abismos de seu ser—que lhe disse que isso era, enfim, a mesmíssima coisa que andara buscando desde sempre.
"Irmão Mais Velho Li," disse por fim, e um tremor de esperança vibrava sob suas palavras repousadas, "poderias copiar esta arte de espada, e sacá-la para fora do Salão dos Sete Extremos para mim?"
"Ah! Pois claro," respondeu Li Feiyu, com um aceno de mão como se o assunto fosse a menor das bagatelas. "Se me tivesses pedido qualquer outra arte marcial, mal poderia transcrevê-la para ti, pois todos os dias vêm homens diligentes a inspecionar a biblioteca, e qualquer coisa que faltasse se notaria na hora. Mas este Estilo de Espada do Piscar de Olhos—pois bem, jaz num canto longínquo e esquecido, onde alma vivente jamais pousa um olhar que se demore. O melhor caminho, de longe," e aqui os olhos lhe brilharam com uma luz temerária, "é que eu tire para ti, às escondidas, o manual original mesmo. Quando o tiveres confiado à memória, ou o tiveres copiado a teu gosto, voltarei a deslizá-lo a seu lugar, e nem uma só alma chegará a sabê-lo."
Han Li sopesou o assunto por um espaço. Não podia negar que havia perigo em tal plano, mas o pensamento dos dias implacáveis que lhe vinham em cima mal lhe deixava lugar para a cautela—e além disso havia aqui uma razão de maior peso que o movia. Tinha meia esperança de que lhe dessem uma cópia lavrada por mão alheia, e até abrigara um temor secreto de que Li Feiyu, com esse seu hábito tão descuidado e esquecido, pudesse pular um traço aqui e outro acolá na cópia; então todas as suas fadigas viriam a menos, e ele não haveria de sabê-lo jamais. Mas ter o mesmíssimo original ante os olhos—isso era melhor, de longe, que cópia alguma. E vendo quão cheio de confiança estava seu amigo, disse: "Bem, então que assim seja. Que se faça tal como dizes."
"Pois o assunto fica resolvido," disse Li Feiyu, muito satisfeito. "Vem, que a hora se faz tarde, e hei de voltar a meus treinos. Se não, o mestre do Salão dos Sete Extremos descobrirá que me escapei de novo."
Enxugou o corpo, vestiu a camisa de cima, e se dispôs a partir. Han Li não disse mais em matéria de conversa, senão que apenas lhe encomendou com gravidade: "Quando tomares o manual, vai com toda a guarda. Olha que não tropeces e caias nesta empresa, pois caro seria o preço de uma queda."
Li Feiyu, tão descuidado como sempre, lhe virou as costas e agitou uma mão no ar com o revés do pulso, como se todo o perigo fosse coisa de rir; e assim, arrastando-se devagar pela covinha ao lado, desapareceu do poço, tragado pelo túnel escondido.
Han Li olhou as costas minguantes de seu amigo até que se houvessem perdido de todo pela boca da cova. Então, pouco a pouco, o sorriso lhe desvaneceu do rosto, e em seu lugar lhe caiu sobre a fronte um amontoamento de nuvens escuras e sombrias.
Não muito depois de partir Li Feiyu, Han Li também voltou ao Vale das Mãos Espirituais. Mal pôs o pé nele, divisou de longe aquele homem alto e misterioso que se erguia como sempre no mesmo posto. Quieto estava, sem a porta da morada do Doutor Mo, colado ao próprio umbral, com o capuz de sua capa bem baixado; e não parecia ter mais cuidado do feroz resplendor do sol de verão do que tem uma pedra da água que a açoita ano após ano.
Han Li se deteve em sua própria porta, e, voltando-se, ficou ali olhando longo tempo aquele homem que jamais dizia uma palavra. Desde que o Doutor Mo o submetera com ameaças, Han Li fora arrastado por uma curiosidade estranha por esse homem de semblante oculto. Parecia nascido mudo; desde que chegara ao vale, nem uma sílaba saíra jamais de seus lábios.
E o que era ainda mais estranho era a portentosa força de seu corpo. Estar-se assim, cravado e sem mudança de postura, era para ele nada mais que um momento de descanso; podia manter tal posição por um dia inteiro de uma assentada, e no entanto Han Li jamais vira assentar-se o cansaço em seus membros. Em seus pensamentos mais secretos, Han Li há muito o havia batizado com o nome de "o Monstro." Até tentara, uma vez ou duas, entabular fala com o homem; mas o sujeito era como um tronco de madeira, insensível a tudo.
Ao fim Han Li ficou de todo convencido de sua derrota às mãos do Doutor Mo; pois aqui havia um homem, de carne e osso vivas e respiração, mas treinado pelo bom doutor até se tornar como um títere de pau, sem fraqueza alguma. Este sujeito, bem sabia Han Li, poderia com facilidade tornar-se outra das armas ocultas do Doutor Mo; mas estava por completo indefeso contra ele, pois não achava fenda nem tara alguma no homem que explorar. A única coisa que mais desassossegava Han Li era isto: que às vezes, quando lhe acontecia olhar as costas do homem por detrás, um relâmpago de algo familiar lhe passava por cima, como se tivesse visto em algum lugar a mesmíssima feitura daqueles ombros. Mas sempre que forçava sua memória a alcançá-la, não lograva trazer à mente de quem eram as costas às quais seu reconhecimento se assemelhava de longe.
Depois de olhar um pouco, Han Li deu um suspiro, fechou a porta atrás de si, e voltou para dentro; e, com a mente um pouco turbada, deu um só salto veloz que o trouxe de sopetão a sua cama, deixou-se cair a todo o comprimento, e, cruzando as mãos atrás da nuca, fechou os olhos.
Ali, no silêncio, repassou uma vez mais em seus pensamentos os movimentos que aprendera naquele dia de Li Feiyu, simulando-os no ar vazio de sua imaginação, decompondo cada postura em partes miúdas e repassando cada uma uma e outra vez até tê-la de todo fija.
Este era o novo poder que a Arte da Juventude Eterna, levada até seu quinto nível, conferira a Han Li: uma memória que não esquecia nada do que uma vez havia contemplado. Por força dessa vantagem, podia confiar qualquer arte marcial inteira a sua mente, puramente através de sua imaginação, sem ademão algum de mão ou de pé; e logo podia fazê-la soar de novo dentro de seus pensamentos cem vezes sobre, refinando-a e destilando-a até que se tornasse mais aguda a cada repasso. Essa era também a razão pela qual Li Feiyu o tivera por gênio prodigioso.
Foi há dois meses que Han Li, ajudado a duras penas pelo poder de suas duas medicinas sagradas, rompera através do quarto nível da Arte da Juventude Eterna para alcançar o quinto. A potência da Pílula do Dragão Amarelo e da Pílula da Medula Dourada resultara muito maior do que jamais teria calculado; sempre fizera um cálculo demasiado mesquinho do poder encerrado naquelas poucas fórmulas suas, e as pílulas que produziam eram, na verdade, tesouro sem preço. Com tudo isso, essas duas drogas que lavam a medula se tinham gasto também em não pequena medida; pouco mais da metade restava delas. O que sobrava apenas devia bastar para vê-lo passar ao sexto nível—e essa perspectiva lhe enchia de não pequena saudade pelo dom inesperado que em seu turno pudesse trazer-lhe.
Não restavam senão meio ano e menos antes de que o ultimato final do Doutor Mo chegasse a seu vencimento. Era certo que aprendera de Li Feiyu certo número de movimentos e posturas; mas, como não tinha qi interno verdadeiro que lhes emprestasse força, eram, ao fim e ao cabo, nada mais que o retoque superficial de uma exibição floral, bons tão somente para o brilho. Contra um homem de conhecimento passageiro das artes marciais, tal perícia bem poderia servir; mas voltá-la contra o próprio Doutor Mo—isso seria como atirar uma almôndega ante um cão: ir-se-ia, e jamais se a veria de novo. Ante esse pensamento Han Li sentiu ao mesmo tempo uma ansiedade premente e um despeito que o roía, pois esta Arte da Juventude Eterna sua—não havia nada errado nela, salvo unicamente isto: que jamais poderia pôr-se em uso no combate aberto, no sangrento toma e dá de uma briga de verdade.
Não lhe restava agora senão uma única esperança, e essa era o Estilo de Espada do Piscar de Olhos. Quem sabe, consolou-se, lhe traria enfim a surpresa que com tanto desespero buscava.