Logo que Han Li ouviu isto, um arrepio lhe cruzou o coração; mas a cena que se seguiu lançou sobre o seu espírito um golpe imenso, e lhe ensinou que ainda houvesse aí um tropel de coisas neste mundo das quais nada sabia.
Com o grande grito do Doutor Mo, as sete lâminas estranhas cravadas no seu corpo começaram a tremer todas ao mesmo tempo, e das cabeças de fantasma chegou um zumbido, cada vez mais forte e cada vez mais agudo, como se estivessem a ponto de cobrar vida e de se arrancar do seu corpo.
Vendo as lâminas estranhas desatentas ao seu mandato, o Doutor Mo se pôs algo alarmado e colérico; murmurou uma frase baixa — mas a voz era demasiado suave e a pressa demasiado veloz, de sorte que Han Li não pôde compreender o dito, embora calculasse que não seria nada bom de ouvir.
O Doutor Mo se pôs de pé, deu uma volta pelo aposento, e ao fim bateu o pé no chão, despeitado; depois, sem melhor recurso, esticou um só dedo indicador e o meteu na boca aberta de uma cabeça de fantasma.
Sobrevierve uma coisa além de toda a crença: a cabeça de fantasma, que houvera sido uma mera coisa morta, fechou por si mesma as suas mandíbulas, e com os seus grandes colmilhos bastos se aferrou do fino bocado que assim se lhe enviara, e se pôs a chupar suavemente.
O corpo do Doutor Mo tremeu fracamente, como se padecesse uma grande dor; e posto que a névoa negra lhe velava a cara, Han Li não pôde ver a sua expressão naquele momento, mas não duvidou de que o seu semblante havia de estar passando de feio.
Assim, pelo espaço de uma só chávena de chá, a cabeça de fantasma bebeu até se saciar, e ao fim, satisfeita, soltou as suas grandes mandíbulas, e com isso desapareceu o zumbido.
Em seguida, o Doutor Mo fez da mesma maneira com cada cabeça de fantasma, dando-lhes de comer a uma e a todas, antes de apartar, ao fim, com ar renitente, o seu dedo.
Feitas estas coisas, o Doutor Mo voltou a tecer o mesmo gesto de mãos de antes, murmurou de novo em voz baixa, e uma vez mais deu voz ao grito de "O Arte do Roubo de Almas dos Sete Fantasmas!"
Esta vez as sete lâminas estranhas não tremeram, nem levantam som estranho algum, mas todas a uma abriram os olhos, mostrando globos de um vermelho de sangue, e as suas bocas igualmente se abriram mais largas, e enfunaram as bochechas, sorvendo com avidez, bocado a bocado, do ar vazio.
A névoa de fantasmas na cara do Doutor Mo pareceu saber que a calamidade se avizinhava; inchou-se e rebentou em ondas como os vagalhões de uma tempestade, os seus tentáculos estendidos fustigando cada vez mais selvagemente um que o passado — mas de nada serviu.
Mesmo assim, sete delgados fios negros foram arrebatados da névoa de fantasmas, traçando uns quantos arcos galantes pelo meio do ar, e logo caíram com perfeita pontaria nas sete bocas de fantasma abertas que há já tempo esperavam, para serem tragados pelas cabeças de fantasma bocado a bocado.
Han Li ficou como um homem sem juízo. Porque o Doutor Mo se sentava de pernas cruzadas diretamente diante dele, de sorte que tudo quanto acontecia diante dele caía por inteiro sob o seu olhar, e até cada um dos dentes das caras de fantasma podia distinguir com a máxima clareza.
Han Li, que por primeira vez tocava o outro mundo, ficou inteiramente enraizado por este poder portentoso — as estranhas lâminas de prata, as agoureiras cabeças de fantasma, e a maléfica névoa negra que flutuava sobre a cara do Doutor Mo, estes fenómenos, dos quais nenhum se podia explicar pela razão comum, a um e a todos volviam a ordem que conhecera. Pois nos dias de antanho Han Li sempre tivera senão uma fé a meias nos assuntos de deuses e fantasmas; para ele, tudo quanto não houvera visto com os seus próprios olhos jamais poderia trazê-lo a crer.
Agora, estes espetáculos de fantasmas que só apareciam em contos e lendas se representavam na carne diante da sua mesma cara — como poderiam deixar de estremecer o coração de Han Li?
Por um rato, a mente de Han Li se arrojou a um caos absoluto; diante de semelhante poder inumano, não sendo senão um preso, não sabia deveras como lhe fazer frente.
Pouco a pouco, a névoa de fantasmas na cara do Doutor Mo se foi afilando de espessa a ténue, de densa a rala, tragada quase de todo pelas cabeças de fantasma, até que não ficou senão a última hebra sóbria, velando fracamente os seus traços.
Para então, a cara do Doutor Mo se havia tornado vagamente visível; mas logo que Han Li viu os verdadeiros traços que ficavam a descoberto, a sua boca se abriu de par em par com puro assombro, e por um longo rato não pôde voltar a fechá-la.
Muitas haviam sido as coisas que assombraram Han Li naquele dia; mas nenhuma feriu tanto a sua mente, nenhuma o fez esquecer-se tanto de si mesmo, como o que agora via.
Pois a cara que agora se revelava desde a névoa negra era a de um homem robusto de uns trinta e tantos anos, na própria flor da sua força; e pelo familiar giro das sobrancelhas e dos olhos, era às claras o próprio Doutor Mo, sem dúvida — só que mais jovem por ao menos um par de décadas.
Aquela cara firme, bem cinzelada, aqueles olhos que guardavam uma majestade natural sem ira alguma, aquele canto de boca levemente curvado num sorriso desdenhoso — por qualquer conta era o semblante de um jovem bonito sem comparação. Uma cara de tão madura masculinidade assestava um golpe mortífero às mulheres; fosse uma donzela na flor da sua mocidade, ou uma esposa desamparada encerrada no pátio fundo detrás das altas muralhas, por regra geral não podiam resistir ao embate deste homem — um só gesto e a maior parte se arrojava por sua própria vontade aos seus braços, e se afundava fundo neles, sem se poder sair.
Ao contemplar aquele semblante, até Han Li sentiu dentro dele um súbito impulso de o desfazer a golpes com um só punho — pois não era a sua imagem de bom varão toda demasiado apta a despertar a inveja dos demais homens?
Enquanto via como o último fio embaciado de névoa negra da cara era igualmente atraído para as bocas de fantasma, Han Li se lembrou de como o Doutor Mo lhe contara uma vez que ele era em verdade senão um homem de uns trinta e tantos anos, e só, por um infortúnio ao sarar as suas feridas, deixara que certo malévolo mal lhe drenasse o seu yuan essencial por longo tempo, e assim envelhecera e ficara quebrantado.
Por esta sinal, pois, o outro não parecia tê-lo enganado neste ponto. A cara presente devia de ser, afinal de contas, os verdadeiros traços do Doutor Mo; só que o meio pelo qual se restaurara assim estava além de todo o sondar.
Para então, Han Li se deu conta de que o Doutor Mo não era mais jovem só no traço, mas também no mesmo corpo e no cabelo — os negros fios direitos como o azebre, a figura alta e ereta, tudo contava que se achava na dourada flor da vida do homem, o seu brio e a sua força na própria cumeada do vigor de um corpo.
"Contudo," se perguntou Han Li, "já que o Doutor Mo tem um meio de recobrar os seus verdadeiros traços, por que haveria ele de se haver posto em tão grandes afãs por mim?"
Uma dúvida se meteu no coração de Han Li; sacudiu-se acordado do seu assombro, e se lembrou de que ainda se achava em perigo. E assim a sua mente começou a dar voltas com presteza, volvendo uma e outra vez tudo isto, buscando por algum meio achar, no meio do trance presente, uma via para escapar livre.
Han Li viu que o Doutor Mo mais jovem parecia algo atordoado nos seus sentidos; ficou preso no seu lugar, sem dizer uma palavra.
Após um longo espaço, ergueu a palma de uma mão, e com o ar de um homem que contemplava um tesouro que há muito criera perdido, examinou de perto a pele lisa do dorso da sua mão; e logo fechou os olhos, apertou a palma contra a sua face, e a friccionou com brandura, de cá para lá, como saboreando de novo o brio da juven-tude.
Este ar de se querer a si mesmo do Doutor Mo foi mais do que Han Li, de pé ao seu lado, pôde engolir; jamais poderia compartilhar todo o mexido de sentimentos que agora se erguiam ao outro, por haver recobrado o que perdera.
"Mestre Mo, parece que recobraste a tua verdadeira forma. Posto que já não tens mais necessidade do teu discípulo, poderias acaso deixá-lo ir? Pois, nos dias por vir, o teu discípulo poderia ainda servir-te com pés e mãos, até à última das suas forças."
Ao fim Han Li não pôde mais conter o seu silêncio; até a esta mesma hora não sabia como o outro pretendia tratá-lo. Portanto, embora soubesse de sobra que o homem não o podia deixar escapar tão facilmente, fez contudo o tolo e lançou uma palavra tentadora, esperando tão só saber quanto antes que sorte o aguardava, para poder fazer provisão de outro modo.