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Chapter 88: Nua em Nosso Primeiro Encontro

Roaming the Heavens·Capítulo 88 de 94·~7 min de leitura

Atualizado: 2026-08-04 03:49

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Jiang Chen relatou ao decano Dong o pedido de Song Qifang pelo Códice da Espada do Amanhecer Violeta.

Não para apresentar queixa, mas porque desobedecera à vontade do vice-decano, e isso o decano Dong precisava saber. Caso contrário, se Song Qifang tramasse algo às suas costas, seria mais do que Jiang Chen poderia suportar.

É claro, era possível que Song Qifang não fizesse tal coisa. Estava há muitos anos na Academia Dao de Maple City e sua reputação sempre fora excelente. Até seu pedido pelo códice de espada podia ser visto como pensar pelo bem da academia.

Mas a desproporção entre sua força e sua posição era enorme, e Jiang Chen não podia senão preparar-se contra cada reviravolta possível, evitar o mal antes que chegasse.

O decano Dong o ouviu e apenas ergueu uma sobrancelha: "Um velho decrépito. Ignore-o."

Jiang Chen admirou em silêncio. O decano era, de fato, direto...

Mas não era lugar seu acrescentar nada.

O decano Dong prosseguiu: "E como anda sua cultivação ultimamente?"

"—Antes de meados do mês que vem, terei completado a construção do meu segundo vórtice do Dao."

"—Nada mal. Quanto mais vórtices do Dao constrói, mais rápido vai. Antes da Porta do Céu e da Terra, a cultivação é sobretudo trabalho de moer entre água e pedra. Do reino do Meridiano Errante ao reino do Ciclo, a única barreira de verdade é a construção do Ciclo Menor. Para você, isso não é difícil. E assim, quando chegar ao reino do Ciclo, as artes do Dao gravadas dentro do Palácio Celestial hão de começar a ser ponderadas agora. Você precisa entender: a primeira arte do Dao de invocação instantânea gravada no reino do Ciclo é de suma importância para todo cultivador. Não se trata de quanto maior o poder, melhor; você deve encontrar a arte do Dao que melhor lhe assenta."

"—Este discípulo entende."

O decano Dong refletiu um momento e acrescentou: "Se algo como o da Cidade Vista do Rio voltar a acontecer, pode me informar com antecedência. Contanto que você tenha razão e fundamento, a Academia Dao de Maple City jamais abandonará seu próprio discípulo. Lembre-se — seu irmão mais velho Zhu nem sempre poderá protegê-lo. Mas esta academia pode."

Um calor se espalhou pelo coração de Jiang Chen. Com o decano Dong ele conhecera, de verdade, um sentimento que era ao mesmo tempo de mestre e de pai.

Mas o decano Dong não lhe deu ocasião de expressar sua gratidão. Dito aquilo, apenas acenou com a mão: "Pode ir."

—...

Em plena madrugada, Jiang Chen acordou com um sobressalto.

Vestiu-se, pegou a espada e saiu ao pátio.

A mulher do véu preto o olhava com um sorriso; no frio do inverno ia ainda vestida fina e delgada, como se com um descuido do vento pudesse levar-se embora inteira.

"Você lembra das três coisas que me deve?" perguntou.

Sua voz se derramava leve pela noite, também de pluma.

Sobressaltado, Jiang Chen perguntou: "Agora? Hoje?"

Naquela altura já passara a hora da meia-noite; era já o décimo primeiro dia do mês de inverno. Era o dia da Grande Seleção das Academias do Condado.

As três academias do condado eram a reserva mais direta de cultivadores da Academia Dao Estatal.

Alguém como Lin Zhengren, que conquistara vaga na Academia Dao Estatal mediante o Julgamento das Três Cidades, tinha o posto garantido. Alguém como Zhu Weiwo, a quem a Academia Dao Estatal convocara por carta direta, era uma admissão especial. Ambos eram minoria.

O exame conjunto que as três academias do condado celebravam a cada cinco anos era o caminho mais largo para a Academia Dao Estatal, admitindo cem cultivadores por ciclo.

Todos os discípulos da Academia Dao de Maple City que cultivavam havia cinco anos ou mais se inscreveram nesta Grande Seleção — e desde logo Li Yun entre eles. Após a viagem à Cidade das Três Montanhas, o vínculo deles se estreitara, e hoje Jiang Chen pensara em se despedir dele.

A mulher do véu preto disse, queda: "A primeira dessas coisas — hoje."

Jiang Chen pensou um pouco e voltou para dentro de casa. "Espere um momento."

Deixou um bilhete para An'an, dizendo que saíra por um assunto repentino, e que se naquele dia não pudesse voltar para buscá-la, fosse procurar Ling Chuan.

Na verdade, An'an já não era preocupação como antes. Sempre que Jiang Chen não podia se ocupar dela, Tang Dun havia muitas vezes assumido a tarefa de levar e trazer An'an da escola — em suas palavras, precisava fazer algo pelo mestre para ficar tranquilo. E como os dois recebiam instrução marcial de Jiang Chen, contavam, a grosso modo, como discípulos de um mesmo mestre, e o trato deles era fácil.

Jiang Chen fechou a porta de novo e saiu; a mulher do véu preto já flutuara para cima do telhado, afastando-se à distância sob o luar.

Jiang Chen a seguiu. A silhueta à frente oscilava e serpeava, parecia ao alcance da mão, e no entanto guardava sempre um espaço entre eles.

"—Moça, como devo chamá-la?" perguntou Jiang Chen, avançando às pressas a cerca de quatro passos de distância.

"—Não te disse? Chame-me de Irmã." A voz flutuou de volta, tão doce que quase não se distinguia.

"—'Irmã' é vago demais, afinal; não pode nomear alguém tão particular e concreto como a senhora." Jiang Chen respondeu com toda a seriedade, e toda a segurança além disso.

Já fazia tempo que fora a Zhao Yan com essa mesma pergunta, e Zhao Yan lhe ensinara a responder assim.

"—Oh?" A mulher do véu preto parou de propósito, esperou Jiang Chen alcançar seu lado e então se voltou, com um olhar meio aborrecido meio satisfeito, para lhe lançar uma olhada: "Quem lhe ensinou a dizer isso?"

"—Não, eu—" Jiang Chen desviou os olhos para o lado. "Invenção minha."

"—Quando um homem mente, o olhar costuma vacilar, sem se atrever a encontrar os meus."

Com medo de olhar para você? Pensou Jiang Chen, e se voltou de propósito para olhá-la, o olhar firme.

"—E para encobrir a consciência culpada, às vezes ele acaba por se tornar mais resoluto ainda."

Melhor eu me calar. Pensou Jiang Chen.

"—Hehe." A mulher torceu a conversa: "Já que em nosso primeiro encontro vi seu corpo nu..."

Em meio ao rosto de Jiang Chen, que corou sem querer, ela se voltou: "O lótus que você carrega nas costas — então me chame de Lótus Branco."

"—Muito bem, senhorita Lótus Branco." Jiang Chen pareceu muito aliviado, e resolveu que, se pudesse evitar conversa, evitaria.

Mas logo perguntou: "Então, o que é que vamos fazer?"

"—Você saberá quando chegarmos." disse Lótus Branco, que arrancara um nome ao acaso.

"—Então, para onde estamos indo?"

"—Você saberá quando chegarmos."

"—..."

E assim passaram o caminho sem palavras.

Lótus Branco parecia disposta a sondar os limites da velocidade de Jiang Chen. Passada Maple City, não fez senão acelerar, e só quando Jiang Chen começou a dar mostras claras de cansaço é que amenizou um pouco.

O céu mudava aos poucos, e a paisagem que ficava para trás também mudava aos poucos.

Sem se conter, Jiang Chen disse: "Estamos indo para a Cidade das Três Montanhas?"

"—Você saberá quando chegarmos." Lótus Branco parecia extrair um prazer travesso disso, e se deleitou com as próprias palavras.

Jiang Chen só pôde engolir uma barriga de perguntas e apertar o passo atrás dela de cabeça baixa.

Quando Lótus Branco enfim parou, o sol já ia alto.

Ao contemplar o pico elevado diante de si e ouvir os surdos rugidos de bestas, Jiang Chen farejou algo errado: "Que negócio você tem no Pico Balança de Jade?"

Lótus Branco o olhou, os olhos parecendo rir: "Não tema. Não farei nada que vá contra seus princípios, nem nada que o leve à morte."

"—Então, o que é, exatamente?"

"—Suba comigo primeiro."

"—Espera? Vamos subir o Pico Balança de Jade? Com tantas bestas ferozes, e só nós dois?"

Como se estivesse preparada, Lótus Branco se agachou e entrou numa gruta de rocha, e ao pouco saiu com duas peles de animal.

Vestiu uma e atirou a outra a Jiang Chen.

"—Vista-a."

Era pouco mais ou menos uma pele de tigre. Ao toque, era agradável, mas parecia não ter sido curtida com muito cuidado, e tinha um cheiro rançoso a peixe.

"—Vesti-la para quê? Para nos passarmos por bestas?" Jiang Chen sentia que tudo aquilo no dia se tornara bastante absurdo.

"—Você não perguntava como subir o Pico Balança de Jade?" Lótus Branco, envolvida inteira num grande cobertor de animal — uma pele de raposa, talvez, de desenho muito bonito — passou ao lado de Jiang Chen. "Esta é a resposta."

"—Não." Jiang Chen sentiu a cabeça doer um pouco. "Quer dizer que embrulhado numa pele de besta, as feras o tomarão por uma das suas?"

"—As feras não têm juízo. Não sabia?"

"—Pode ser, mas—"

"—Absurdo demais, não é? Pensar que diante de uma horda tão selvagem se pudesse infiltrar por um método tão simples. Algumas coisas nos custam não por uma dificuldade real do mundo, mas por uma dificuldade alojada na nossa própria mente."

Lótus Branco tirou um pote de unguento medicinal, untou-se um pouco nas mãos, e depois tirou um pouco mais e fez gesto para Jiang Chen oferecer a mão, passando-lhe também no dorso.

Explicou enquanto esfregava: "Soma este unguento que mascara o cheiro. Basta o bocadinho mais leve, e não há medo de as bestas nos descobrirem."

Seus dedos eram frios, e guardavam também um sutil calor e maciez, circulando umas voltas leves no dorso da mão dele antes de se retirar.

"—Em resumo — as dificuldades têm resposta; só os tolos carecem dela." concluiu por fim.

"—Mais parece que a senhora está a me insultar..." murmurou Jiang Chen enquanto vestia a pele de tigre.

Então, seu olhar se congelou.

Congelou sobre uma gruta de rocha ao longe, diante da qual, vagas e indistintas, viu várias Abelhas Assassinas da Rocha entrar e sair.

Mas recordava com clareza como, não fazia muito, a senhora da cidade da Cidade das Três Montanhas, Dou Yuemei, degolara até a última daquela espécie.

"—Estas Abelhas Assassinas da Rocha... não haviam sido exterminadas?" perguntou Jiang Chen.

Havia na sua voz uma nota de pânico que ele mesmo não notara.

"—O que você acha?"

A voz de Lótus Branco guardava um assomo de sorriso que não era sorriso.

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