À meia-noite, Diqiu encheu-se de gente.
Os vendedores gritavam as suas mercadorias. Os bêbedos pelejavam nas tabernas. As crianças aglomeravam-se à volta de um vendedor de brinquedos, a gritar por moinhos de vento. A cidade respirava com vida.
Su Yan abriu os olhos. Um perfume flutuou até ele. Uma jovem afastou a cortina de contas, já meio despida, a subir para a sua cama.
—Estou cansada; quem és tu?
Ela gritou, aferrando a roupa contra o peito, a olhar para ele com horror.
Su Yan voltou-se. —Senhorita, não foi minha intenção ofender. Passava por aqui, encontrei este quarto vazio...
—Vira-te! Espera até que me vista!
Ouviu o roce da tela. —Estou pronta. Vira-te.
Voltou-se. Uma espada pressionava o seu pescoço.
—Diz-me o teu nome, para saber que libertino morre sob a espada de Feng Xue'er!
Su Yan tentou convocar o qi. Nada. O seu cultivo tinha desaparecido.
—Senhorita, sou Su Yan. Sou um cultivador viajante. É um mal-entendido.
—Su Yan?
Ela corou furiosamente, deixou cair a espada e fugiu.
Antes de Su Yan poder escapar, uma mulher mais velha aproximou-se com criadas e a jovem corada. —O noivo chegou! Quem o pôs na câmara da jovem?
—Quando é que eu aceitei...
A mulher interrompeu-o. —O emparelhamento acordou-se há muito. Mas a câmara de uma donzela não é lugar para um homem solteiro. Celebraremos o casamento esta noite, aqui mesmo.
Su Yan chamou pelo sino. Silêncio. Chamou Yuan Qi. Nada.
*Um sonho. Só um sonho. Logo acordarei.*
Serenizou-se. Se era um sonho, bem podia deixá-lo seguir o seu curso.
O casamento organizou-se apressadamente mas foi estranhamente belo. Na câmara nupcial, os convidados tinham-se ido, a música desvaneceu, Su Yan sentou-se na cama, o coração a palpitar.
Feng Xue'er levantou uma esquina do seu véu. —Ousaste entrar no meu quarto, mas não te atreves a levantar o meu véu?
Levantou-o. Ela encostou-se a ele, a tremer.
—O meu coração acelera quando te vejo. Como se te conhecesse desde sempre.
Levantou os olhos. Luz de estrelas encheu-os; a mesma luz que Su Yan tinha visto no olhar de Yuan Rusi.
Beijou-o.
* * *
Na manhã seguinte, Su Yan disse a si mesmo que era um sonho. Chamou pelo sino. Nada.
Os dias tornaram-se semanas. As semanas em meses.
Esqueceu Yuan Qi. Esqueceu o sino. Esqueceu Zhu Chanchan e a sua medicina. A vida de um caçador de serpentes de uma aldeia queimada sentia-se como um mau sonho do qual finalmente tinha acordado.
Isto; isto era real. O calor da mão de Feng Xue'er. A risada dos vizinhos. A simples paz de Diqiu.
Um dia, Feng Xue'er mencionou que grandes magos tinham chegado da capital para realizar a Ressonância Céu-Homen. O céu inclinou-se. A gente murmurava sobre presságios.
Mas não passou nada.
Então Su Yan acordou. A cama estava fria e vazia.
Caminhou pela quinta Feng; vazia. As ruas; vazias. As lojas de bolos ainda fumegavam. O chá ainda estava quente nas chávenas. Os moinhos de vento do vendedor de brinquedos ainda giravam.
Mas não havia gente.
Todos tinham desaparecido.
Correu como um louco, procurando em cada casa, cada beco.
—Onde estão?
—Xue'er!
Uivou como um lobo a quem arrancaram o coração. O céu tinha-lhe dado tudo, depois arrebatara-lho. A crueldade disso esmagava-o.
Numa casa de chá, o ancião afligido esperava com uma chávena de chá fumegante.
—Bebe isto. Esquecerás tudo o que passou aqui. Terás uma vida nova.
Su Yan tropeçou em direção à chávena, destroçado.
—Miúdo! Miúdo!
A voz do sino ressoou de longe, a aproximar-se, mais forte.
Su Yan sobressaltou-se acordado. Estava de pé na casa de chá, uma chávena quente nas mãos trémulas. Lágrimas sulcavam o seu rosto.
—Estavas a sonâmbulo —disse Yuan Qi, a voz grave—. A gritar. A chorar. A procurar alguém.
Zhu Chanchan observava-o com olhos arregalados. —Não paravas de dizer um nome. Uma e outra vez.
Su Yan olhou para a chávena nas suas mãos. De três mil anos de antiguidade. Ainda quente.
*Era real? Ou só um sonho?*
Levantou o chá e bebeu-o de um trago.
O sabor era familiar. Amargo. Doce. Depois nada.
Sopa de Mengpo.