O esqueleto na entrada do templo estendeu a mão em sinal de boas-vindas. Os dedos de osso se moviam como carne viva, convidando-os a entrar.
Su Yan sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Yuan Qi se enrolou mais apertado, suas escamas eriçadas.
Um hálito estranho fluía da escuridão da entrada — não fétido, mas errado. Carregava o aroma do Dao, mas existia fora da ordem do Dao Celestial.
Su Yan estreitou os olhos. "Esse não é um templo comum."
Ele havia sentido a mesma anomalia quando lutou contra a torre de carne. Aquelas criaturas não nasceram do Dao Celestial.
Xue Ying'an acordou. Seus olhos se arregalaram ao ver o fantoche de ossos. "Um templo herege?"
Ele estava meditando, focado inteiramente em abrir sua gruta do Pílula de Barro. Agora que conseguiu, o mundo exterior se tornou um pesadelo.
"Você conhece este lugar?" perguntou Su Yan.
Xue Ying'an estabilizou a respiração. "Este mundo em que estamos é um mundo herege. Existe além dos Dez Mil Mundos. As criaturas aqui adoram deuses hereges. Seus santuários se chamam templos hereges."
Yuan Qi inclinou a cabeça. "O que é um herege?"
"Os cultivadores aprendem técnicas compreendendo as manifestações do Dao", explicou Xue Ying'an. "Essas manifestações são expressões do Dao. Sua forma de serpente é uma delas. Todas pertencem ao Dao Celestial. Tudo que está fora dele — isso é heresia. Você ouviu a frase 'deuses malvados e caminhos hereges'. A parte herege se refere a isso."
Su Yan estudou a placa acima da porta. "Então este lugar adora a um deus malvado?"
Xue Ying'an assentiu, seu rosto grave. "O deus dentro está montando um espetáculo para nos atrair. Assim que cruzarmos aquela porta, estamos mortos."
Su Yan riu. "Sou jovem e cheio de vigor. Por que um deus herege me receberia como um esqueleto em vez de uma mulher bonita?"
No momento em que as palavras saíram de seus lábios, o esqueleto se transformou. Uma jovem mulher estava em seu lugar, vestida com sedas brilhantes, seus olhos cheios de ternura. Parecia exatamente com Yuan Rusi.
"Marido", arrulhou através da porta, "quanto tempo você vai me fazer esperar?"
O coração do Dao de Su Yan se manteve firme. Ele sorriu. "Mas temos uma serpente aqui. Ele pode preferir outra coisa."
A mulher se derreteu em uma serpente — fêmea, com dois chifres na cabeça. Ela piscou para Yuan Qi. "Marido, nossa espécie está quase extinta. O tempo está acabando. Entre e acasale comigo."
Yuan Qi começou a avançar. Su Yan o bloqueou.
"A-Ying, estou me extinguindo!" Yuan Qi soltou fumaça. "Você vê mulheres todos os dias. Eu nem mesmo conheci uma serpente fêmea!"
Su Yan ativou o Selo do Coração Firme. Yuan Qi estremeceu e recuperou a sanidade.
"Aquele deus herege me leu como um livro", sussurrou, aterrorizado.
"É apenas um truque de salão", disse Su Yan. "Ele não pode realmente influenciar sua mente a menos que seu coração do Dao seja fraco. Olhe para Ying'an — ele está muito mais sereno."
Antes que ele terminasse de falar, a serpente fêmea na entrada mudou novamente. Agora usava o rosto de Li Xiaoke, sua voz gentil e quente.
"Ying'an, você se lembra do seu primeiro dia na montanha? Eu desejo que pudéssemos voltar àquele momento. Vamos começar de novo."
"Mestre!" Lágrimas correram pelo rosto de Xue Ying'an. Ele tropeçou em direção à porta.
Yuan Qi chicoteou sua cauda em volta da cintura do garoto e o arrastou de volta.
Su Yan pressionou o selo contra sua testa. "Respire."
Xue Ying'an continuou soluçando. "Sou nativo desta terra. Quando minha família morreu, o Mestre me acolheu."
Assim que o garoto se acalmou, Su Yan se voltou para os murais no interior. "Se este é um templo herege, por que a porta tem um selo?"
Xue Ying'an enxugou os olhos. "Há uma história antiga. Nossos antepassados foram enviados aqui para suprimir o deus herege. Trouxeram selos imortais do reino superior para mantê-lo prisioneiro para sempre. Mas com o tempo, o deus os corrompeu. Lentamente, eles se tornaram seus adoradores em vez de servos do Dao Celestial."
Ele olhou para o poço escuro no centro do altar. "O deus herege tem se libertado. A carne que você viu cobrindo esta terra — esse é seu corpo. Ele está tentando recuperar seu poder total e escapar."
Su Yan examinou a placa mais de perto. "O selo nesta porta foi esculpido por um imortal?"
Ele balançou a cabeça. "Um imortal analfabeto, aparentemente."
Ele invocou seu qi de espada Matador do Céu e esculpiu os caracteres em sua forma adequada, combinando com a escrita do selo no Grande Sino.
No momento em que terminou, a ilusão de Li Xiaoke dentro do templo gritou. Seu rosto se contorceu, mudando de mulher para serpente para donzela e finalmente se dissolvendo em fumaça.
Su Yan entrou. "Matei uma torre de carne antes. Aquela era a carne do deus herege. Minhas artes nuo não fizeram nada contra ela. Somente o qi de espada Matador do Céu conseguiu atravessar seu coração."
Xue Ying'an o seguiu, tremendo. Yuan Qi hesitou, depois se deslizou para dentro.
"A-Ying, Li Xiaoke ainda está nos caçando", disse Yuan Qi. "E se ele nos encontrar aqui?"
Su Yan examinou o interior. "Este templo está sobre o dorso de uma besta antiga. A besta está fugindo das torres de carne. Mesmo que Li Xiaoke seja um mestre estrategista, ele nunca pensaria em procurar dentro de um templo em movimento sobre uma besta correndo."
Yuan Qi teve que admitir que a lógica era sólida.
O interior do templo estava intacto. O incenso ainda queimava no altar antigo, fios de fumaça subindo como se alguém tivesse adorado ali momentos antes.
"Alguém visitou recentemente?" Su Yan verificou o incenso, perplexo.
No centro do altar havia um poço profundo. Sua tampa havia sido removida. Correntes pesadas desapareciam na escuridão abaixo.
Su Yan passou pelo altar e estudou os murais. Eles representavam a história antiga — um grupo de povos primordiais construindo este templo para selar o deus herege.
As figuras nas pinturas eram cultivadores poderosos, flutuando no ar. Espadas, lanças, torres e plataformas brilhavam com poder sem fim enquanto pressionavam o colossal deus herege para o poço.
Na borda do mural, um velho escrevia em escritura de pássaros e insetos. O imortal, supostamente.
"Estes devem ser meus antepassados suprimindo o deus herege", disse Xue Ying'an, a voz tremendo de orgulho. "Volte o suficiente, toda família tem heróis. Pena que caíram depois, corrompidos pelo deus."
Su Yan se inclinou mais perto. "Suas vestimentas são da Dinastia Shang. Ying'an, seus antepassados eram cultivadores da era Shang."
Xue Ying'an endireitou o peito, inchado de orgulho.
Eles se moveram para o próximo mural.
Su Yan ficou imóvel.
Esta pintura mostrava o deus herege como uma vasta torta de carne cobrindo o céu, chovendo tribulação celestial sobre a terra. Abaixo, o povo antigo suportava inundações, terremotos e hordas de bestas.
"Deus malvado", disse Xue Ying'an. "Isso mostra o que aconteceu depois que ele se libertou — amaldiçoou meus antepassados."
O próximo mural parou Su Yan em seco.
Mostrava o povo antigo em correntes. Cultivadores poderosos tinham seus Domínios Xiyi perfurados, seus Espíritos Primordiais cravados, seus poderes selados. Eles lutavam em agonia.
"A ordem está errada", disse Xue Ying'an, coçando a cabeça. "Isso não deveria vir antes do selamento?"
A seguinte pintura mostrava navios antigos navegando pelo vazio estrelado, aproximando-se de um mundo desconhecido.
Nos convés estavam prisioneiros acorrentados, sua cultivação selada, seus Espíritos Primordiais atados. Suas roupas eram trapos.
Atrás dos navios, uma vasta silhueta se erguia contra as estrelas — a forma verdadeira do deus herege, mal visível.
Isso não era uma missão de supressão. Era um transporte de prisioneiros.
"As pinturas estão de cabeça para baixo", insistiu Xue Ying'an. "O deus herege as pintou para caluniar meus antepassados."
O próximo mural mostrava um campo de batalha. Os cultivadores da era Shang lutavam contra inimigos envoltos em luz cegadora, seres tão poderosos que podiam igualar o assalto combinado de dezenas.
Entre os lutadores Shang, um corvo dourado de três patas estendia suas asas de chama, lutando contra o céu e a terra.
Sobre o dorso do corvo estava um jovem. Seu rosto era familiar.
Ao seu lado sentava uma garota, lutando ao seu lado através da vida e da morte.
Su Yan ficou muito quieto.
"Se esse é Jin Buyi", sussurrou ele, "então a garota é..."
Um tom de sino familiar ressoou lá fora.
A voz de Li Xiaoke flutuou através das portas do templo. "Deus Honrado, seu humilde servo Li Xiaoke presta seus respeitos. Preciso pedir emprestados seus olhos para encontrar duas pessoas."
O coração de Su Yan martelava. Ele agarrou Xue Ying'an e Yuan Qi e mergulhou atrás da sala principal, contendo a respiração.
A besta antiga ainda trovejava sob eles, carregando o templo através do páramo.
O vento uivava lá fora.
Li Xiaoke entrou com passo decidido, o grande sino flutuando sobre sua cabeça. Ele olhou o incenso ardendo e sorriu. "O incenso de minha última oferenda ainda queima. Minha devoção, como esta chama, nunca termina."
Ele se virou para o poço. "Há três mil anos, cultivei a Arte da Sensibilidade Celestial. Minha consciência se conectou aos céus e tocou a sua. Somente então compreendi — o Dao Celestial é implacável."
Ele suspirou. "Você fez cumprir a vontade dos céus, escoltando criminosos para esta Terra do Castigo Celestial, fazendo que eles e seus descendentes expiassem pela eternidade. No entanto, eles abusaram de sua misericórdia e se voltaram contra você, selando-o no lugar deles."
Xue Ying'an ficou rígido. *As histórias eram mentiras. Meus antepassados eram os prisioneiros, não os heróis.*
"Eu o ajudei a quebrar parte do selo", continuou Li Xiaoke, sua voz quente de orgulho. "Matei seus descendentes, devorei seus tesouros, removi cada obstáculo. Sua vingança está quase completa."
As unhas de Xue Ying'an cravaram em suas palmas até sangrar.
"Somente permanece o selo do templo. Mas eu encontrei a chave." Li Xiaoke levantou o grande sino. Seu tom ressoou, antigo e claro. "Este sino carrega as runas imortais que precisamos."
O poço se sacudiu. As correntes soaram violentamente.
"Sua liberdade se aproxima. Mas o que eu busco — a longevidade que prometeu — onde está?"
Uma vasta consciência surgiu do poço, sacudindo o templo. A voz era demasiado imensa para entender, vibrando através dos ossos de Su Yan.
*Ele não está completamente selado. Ainda pode usar sua consciência.*
O suor perlaba a testa de Su Yan. Um qi de espada fino cintilou de sua ponta do dedo. Ele raspou uma sobrancelha, depois a metade da cabeça, depois vestiu as roupas ao contrário, depois chutou fora o sapato esquerdo. Ele torceu sua vitalidade do Pílula de Barro até que um olho inchasse mais que o outro.
No momento em que terminou, Li Xiaoke falou novamente. "Obrigado pela orientação."
Ele apareceu diante deles no instante seguinte. Sua aura imobilizou Su Yan, Yuan Qi e Xue Ying'an contra o chão. Seus núcleos dourados mal haviam se elevado antes que a pressão os bloqueasse no lugar.
Li Xiaoke riu. "Procurei o céu e a terra — e aqui estão vocês. Vocês... vocês!"
Seus olhos se fixaram no rosto torto de Su Yan, sua sobrancelha faltante, suas roupas ao contrário. Por um batimento, sua simetria perfeita se fez em pedaços. Sua aura cintilou.
Su Yan rugiu e se libertou. Ele enfiou a mão na boca de Yuan Qi.
Uma torrente de hálito do Dao Celestial irrompeu. Um braço decepado disparou, coberto de runas celestiais — o braço do Deus Celestial do Abismo do Dragão, que Su Yan havia escondido dentro de Yuan Qi todo este tempo.
A aura do braço do Deus Celestial interrompeu a consciência de Li Xiaoke. Ao mesmo instante, os dedos de Su Yan se tornaram uma espada. O qi de espada Matador do Céu brilhou de suas pontas e perfurou a testa de Li Xiaoke.
"Senhor Sino!" gritou Su Yan.
O grande sino sobre a cabeça de Li Xiaoke explodiu em luz. Ele derramou cada onça de seu poder para baixo.
A explosão sônica cravou Li Xiaoke diretamente no chão.
Su Yan agarrou o nariz do sino e canalizou cada gota de seu poder através dele, destroçando o qi de espada Matador do Céu diretamente na testa de Li Xiaoke.
O Grande Sino gritou: "Nunca soube que um homem podia ser tão podre! Su Yan, mate-o."