—Irmão mais velho Xiao Yan.
A donzela se erguia, formosa, diante de Xiao Yan, com suas pálidas e delicadas mãozinhas às costas, o corpo inclinado levemente para a frente. Seus belos e límpidos olhos se curvavam numa meia-lua encantadora, transbordantes de luz risonha, enquanto um par de covinhas aflorava em suas graciosas faces — de tudo mais adorável.
Desviando a vista do pergaminho, Xiao Yan sorriu para a moça e deixou o olhar vagar pelo salão. Ao deparar-se com o sem-fim de ardentes olhares cravados neles, disse com certo desamparo:
—Menina, sei que seu encanto não é coisa pequena, mas você precisa me usar de escudo?
—He, he. —Apertando os lábios, Xun'er soltou uma risada e se acomodou ao lado de Xiao Yan, espreguiçando-se com preguiça. Sua esbelta figura, cingida pelo vestido justo, destacou-se de imediato de maneira sedutora. Pegando um pergaminho da estante, Xun'er deixou o olhar repousar sobre Xiao Yan por um instante antes de dizer com um sorriso lânguido—: Será que o irmão mais velho Xiao Yan avançou para a quarta etapa do Dou Qi?
Diante dessas palavras, o rapaz que tinha a cabeça enfiada no pergaminho ergueu uma sobrancelha. As dez etapas do Dou Qi se encontravam todas em sua fase preliminar, e as tênues flutuações desse poder eram muito difíceis de perceber. A menos que alguém agitasse seu Dou Qi, ou recorresse a uma pedra de prova, não era fácil determinar com precisão a que etapa chegara seu dono. E, no entanto, com um par de olhares distraídos, Xun'er pusera a descoberto o segredo de Xiao Yan — e isso o inquietou de verdade.
"—Que identidade esconde esta menina? A julgar pela técnica que usou contra Xiao Ning, é às claras uma técnica Dou de grau alto. Essa luz dourada não é algo que a família Xiao possua…" Alguns pensamentos cruzaram a mente de Xiao Yan, e ele virou a cabeça para cravar um longo olhar na moça sorridente. Com um leve encolher de ombros, assentiu com calma. "Quarta etapa."
Ao ver Xiao Yan assenti, o sorriso no rosto de Xun'er se intensificou enquanto dizia com ligeireza:
—Imagino que tenha a ver com seu intenso cultivo a portas fechadas destes dias.
—Mmm. —Xiao Yan assentiu sem negar, e voltou o olhar ao pergaminho, perguntando com desânimo—: E a que se deve esse capricho de vir se bater contra eles hoje?
—É que estava entediada. —Imitando o encolher de ombros de Xiao Yan, Xun'er replicou com um sorriso. Voltando a vista ao rapaz, colou-se nela um vislumbre de repreensão—. Desde a última vez, o irmão mais velho já faz meio mês sem vir ver Xun'er. Será que tem medo de que Xun'er venha cobrar o dinheiro?
Xiao Yan ficou pasmo, algo inibido, e sorriu com desagrado.
—Ano que vem se celebra a cerimônia de maioridade —como poderia não me entregar de corpo e alma ao cultivo? —Erguendo a vista para a narizinha franzida da moça, não teve escolha senão estender a mão para dar uma palmadinha em sua cabecinha e consolá-la com voz suave—. Nos dias vindouros, vou arranjar tempo para fazer companhia a Xun'er.
Ao ouvir sua promessa, o rosto de Xun'er por fim se relaxou, e ela não parou de cochichar e rir suavemente ao lado dele. O ar íntimo que os envolvia fez com que todos os rapazes do salão ardassem em verdes ciúmes.
À distância, Xiao Ning contemplava os dois rindo e conversando sob a estante. Os cantos de sua boca tremeram, e seu rosto se tornou bastante feio. Seus punhos se apertavam e soltavam, uma e outra vez…
Como neto do grande ancião, Xiao Ning sempre abrigara um forte sentimento de superioridade. Com relação a Xun'er — essa moça tão distinta das demais — Xiao Ning reclamara, no fundo do coração, com muita firmeza, como sua futura esposa. Que não passasse de um anseio de sua própria mente não fez nada para frear aquele sentimento…
E agora, ver a esposa que reservara para si rindo e brincando de maneira tão íntima com outro — mal pôde conter as chamas dos ciúmes. Pior ainda: quem compartilhava essas risadas com Xun'er não era outro senão o inútil mais inútil de toda a família.
A ira não cessava de rugir em seus olhos. Decorrido um instante, Xiao Ning exalou um suspiro, recompos um sorriso afável, alisou as roupas e, sob o olhar da multidão, dirigiu-se com passo vivo rumo ao par.
Os presentes por todo o salão contemplaram Xiao Ning se aproximar e estouraram em risadas de regozijo — embora, à toda vista, essa alegria não se dirigisse a Xiao Ning, e sim a Xiao Yan, que parecia ainda em sua ignorância.
Com o olhar percorrendo os meridianos do pergaminho, Xiao Yan fixou na memória os pontos de acupuntura e os caminhos circulatórios da Palma de Pedra Triturada. Depois franziu o cenho — sua aguçada percepção da alma lhe revelava todos os movimentos do salão, incluindo o de Xiao Ning, que justamente então se aproximava.
"—Esta menina é uma encrenqueira de nascença." Suspirando para si, Xiao Yan enrolou lentamente o pergaminho.
—He, he, o priminho Xiao Yan veio estudar técnicas? Quer que seu primo encontre algumas de grau alto para você? Afinal, há coisas que um priminho simplesmente não alcança. —De pé diante de Xiao Yan, com um sorriso em todo o rosto, Xiao Ning falou em tom afável.
Xiao Yan enrolou o pergaminho, pousou-o com cuidado sobre a estante e negou com um leve balançar de cabeça, dizendo com frieza:
—Obrigado pela preocupação, mas por ora não preciso.
—Ah? He, he, quase esqueci… O Dou Qi do priminho Xiao Yan ainda não passa da terceira etapa; qualquer coisa avançada demais lhe seria difícil de aprender. —Esfregando a testa com uma das mãos, Xiao Ning pareceu sorrir com súbita compreensão — embora o escárnio em seu rosto mal estivesse bem disfarçado.
Xiao Yan soltou um suspiro abafado. Este viera procurar uma reprimenda por conta própria…
Deixando que uma curva afiada se erguesse em seus lábios, Xiao Yan disse com certo enfado:
—Sei que toda essa conversa não passa de uma tentativa de chamar a atenção de Xun'er, mas não deixo de dizer: você é muito imaturo…
Ferido por essa impiedosa saraivada de indiretas, o sorriso de Xiao Ning foi se desvanecendo. Não esperara que Xiao Yan, de ordinário tão taciturno, possuísse de súbito a ousadia de trocar palavras com ele. Torcendo o rosto para o sombrio, zombou:
—Então o priminho Xiao Yan guarda nada pouco de rancor contra este seu primo, não é? Então talvez devêssemos cruzar as palmas, para eu ver quanto meu primo cresceu nestes anos.
—Preciso cruzar as palmas com você? —Xun'er largou o pergaminho, ergueu o rosto e seus límpidos olhos se toldaram de frio.
Os cantos dos olhos de Xiao Ning se crisparam. Ao ver Xun'er sair em defesa de Xiao Yan, os ciúmes em seu coração arderam com mais força ainda, e ele lhe lançou um olhar vingativo antes de zombar:
—Então você só sabe se esconder atrás das saias de uma mulher?
—Por que não teve coragem de me falar assim há três anos? —Xiao Yan ficou na ponta dos pés para pegar outro maço de pergaminhos, soprou-lhes a poeira e disse com voz plana.
Não se podia negar — o porte de Xiao Yan, tão sereno, tão imperturbável, era francamente nauseante para quem lhe guardasse má vontade.
Xiao Ning rangia os dentes até produzir um chiado. Por mais furioso que estivesse, porém, não ousava pôr as mãos em Xiao Yan: por mais baixa que fosse sua habilidade de cultivo, ele continuava sendo o filho do chefe da família.
Tomando fôlego fundo, Xiao Ning lançou a Xiao Yan um frio e sinistro olhar, e então se inclinou para sussurrar-lhe ao ouvido:
—Xiao Yan, você já não é o prodígio do cultivo de há três anos. O homem que você é agora nada mais é que um inútil, e Xun'er está muito além de seu alcance. Se você preza seu couro, afaste-se dela. Caso contrário, he, he — embora nos dias correntes eu não possa desferir um golpe em você, na cerimônia de maioridade daqui a um ano você estará obrigado a aceitar o desafio de um membro da família. Se não deseja acabar de fato aleijado, aconselho que faça suas malas de imediato, fuja para algum canto perdido de montanha e passe o resto de seus dias em paz.
Ao ouvir essa saraivada de ameaças, um leve sorriso se curvou no canto da boca de Xiao Yan. Inclinou um pouco a cabeça, examinou Xiao Ning com um olhar por completo peculiar, então revirou os olhos, recolheu os pergaminhos e se virou para partir.
Ao ver sua atitude, Xiao Ning acreditou a princípio que ele se rendia. Mas, antes que pudesse saborear satisfação alguma, as leves palavras do rapaz fizeram seu rosto enrubescer até ficar lívido.
—Mmm, muito bem então — daqui a um ano… estarei esperando para que você me aleije.