Três meses haviam passado num piscar de olhos, com mais de metade deles já gastos, e apenas um mês separava Xiao Yan de sua cerimônia de maioridade.
Em seu quarto limpo e recolhido, Xiao Yan contemplava, alheio a tudo, a água verde da tina de madeira. Aquele era o último resquício do Líquido Fundamental. Quanto mais se avançava nos últimos níveis do Dou Qi, mais árdua se tornava a prática; desde que rompera para o sétimo nível, o Dou Qi de Xiao Yan estava em calma havia quase dois meses, e em todo esse tempo, por mais que treinasse, a sensação de uma nova ruptura se obstinava em não chegar.
Ficou encarando a tina feito um tolo por um bom tempo antes de negar com a cabeça, desalentado, e murmurar: "Será que essa última gota do Líquido Fundamental vem me empurrar até o oitavo nível do Dou Qi?"
Ergueu-se com lentidão para endireitar o corpo entorpecido e dolorido, e Xiao Yan, para surpresa de ninguém mais que ele próprio, não deu continuidade à prática do Dou Qi. Em vez disso, tirou do guarda-roupa um jogo de roupas negras bem cortadas...
No mês que precedia a cerimônia de maioridade, todos deviam se submeter a uma avaliação — cuja finalidade era, é claro, separar aqueles que não alcançavam o nível exigido no Dou Qi. Quem tivesse o Dou Qi acima do sétimo nível veria, ao encerrar a cerimônia, cumprido seu direito de entrar no Pavilhão de Dou Qi em busca de um método de cultivo; mas quem ficasse abaixo do sétimo perderia esse privilégio e, uma vez concluída a cerimônia, seria designado para as diversas empresas da família. A menos que mais tarde se destacassem, ou que alcançassem no ritmo da prática os parentes mais avantajados, seria muito difícil voltarem a integrar o seio interno da família...
Mal terminou de se trocar, quando chegou à porta um toque suave.
"Xiao Yan-gege, você está aí?"
Ao ouvir a voz clara e sonora da moça, a sobrancelha de Xiao Yan deu um pequeno salto. Abotoou a roupa, apanhou a tina de madeira com ambas as mãos e a guardou num canto bem resguardado; só então se dirigiu com parsimônia à porta e a abriu de uma só vez.
A porta se abriu, e a morna luz do sol se derramou de golpe sobre o rapaz de roupas negras, dando-lhe um ar inteiramente brioso.
Do outro lado do umbral, a moça se erguia graciosa e esbelta; seu traje fresco de um verde suave realçava à perfeição um corpo que apenas começava a se desenvolver. O pequeno seio, velado pela roupa, se bem ainda jovem e tenro, nem por isso deixava de exalar com orgulho o encanto da juventude; em torno da cintura, tão fina que parecia caber sem custo numa só mão, cingia-se com desembaraço uma fita púrpura, e ao passar da brisa a fita ondulava...
Ao contemplar a bela moça do umbral, Xiao Yan ficou estático por um bom tempo antes de voltar lentamente a si. Passou por Xun'er um olhar despreocupado e estalou a língua, maravilhado: "A estas horas da manhã, pensei que alguma deusa tivesse descido. Olhando bem, é a minha Xun'er de casa."
Ao ouvir esse elogio, salpicado de um quê zombeteiro, Xun'er piscou os grandes olhos d'água e se limitou a um sorriso tímido de lábios comprimidos. Mas as sobrancelhas que se lhe encurvavam, às escondidas, em duas luas novas de feitura formosa, desvendavam o gozo que aninhava no coração da moça.
Com a alegria espreitando nos olhos de água outonal, Xun'er ergueu por sua vez o queixo bem-feito para tomar as medidas do rapaz que saíra ao umbral.
Quase um ano de dura prática fora cinzelando a infância de Xiao Yan; seu semblante limpo e fino ganhara um quê indefinível, e meses de um treinamento extenuante haviam feito de seu corpo algo robusto e fornido. Com as roupas negras pelos ombros, passava, em conjunto, por um belo moço.
Saiu do quarto e fechou a porta atrás de si; vendo que Xun'er tinha a vista cravada nele sem piscar, Xiao Yan se examinou, perplexo, e perguntou, estranhando: "Há algo de errado comigo?"
Um tênue rubor lhe acendeu o formoso semblante, e Xun'er desviou o olhar a toda pressa. Comprimindo os lábios num sorriso, disse: "Vamos, Xiao Yan-gege — hoje é o dia da avaliação, sabia? Você está pronto?"
Entrecerrou os olhos Xiao Yan, encolheu os ombros, e uma ponta de veemência mal disfarçada se curvou na comissura da boca. Sua palma estendida foi se fechando devagar, e com um sorriso ligeiro sentenciou: "O nome de 'desperdício' — a partir de hoje, devolvo-o a quem mo pendurou."
Contemplando um Xiao Yan transbordante de confiança, Xun'er inclinou a cabecinha e riu baixinho. "Eu acredito em você, Xiao Yan-gege!"
"Claro que acredita — aposte que você já se inteirou de minha força de novo, não?" Xiao Yan revirou os olhos para ela, com o lábio franzido num gesto de contrariedade.
Ao ver um Xiao Yan algo cabisbaixo, Xun'er esboçou um sorriso encantador, assentiu com suavidade e encolheu os ombros de um jeito adorável. "Do terceiro ao sétimo nível do Dou Qi em menos de um único ano — a um passo assim, nem Xun'er poderia esperar segui-lo, Xiao Yan-gege..."
"Vamos, menina."
Xiao Yan passou a mão pelo nariz, deu em Xun'er uma palmadinha carinhosa na cabeça e, apontando com um gesto para o campo de treinamento atrás do recinto da família, pôs-se a caminho a passo largo e resoluto.
Contemplando as costas do rapaz — tão distintas daquela sombra solitária e cabisbaixa de outrora — Xun'er sorriu com sereno consolo e murmurou baixinho para si: "Xiao Yan-gege, eu já lhe disse há muito tempo que um dia você haveria de recuperar sua própria dignidade e sua glória..."
...
No vasto campo de treinamento de pedra azul aguardavam mais de uma centena de rapazes e moças, e um grande burburinho se erguia até o céu.
No centro do campo se erguia uma enorme tabuleta negra de pedra de teste — um artefato dessa espécie que só as famílias de certo porte podiam custear, e de não pequeno valor. Junto à tabuleta negra de pedra, tal qual no ano anterior, se encontrava aquele testador frio e indiferente.
Na tribuna à esquerda do campo se sentavam os membros internos da família; no lugar central, o patriarca Xiao Zhan e os três anciãos.
Dentro do ruedo, aqueles rapazes e moças que aguardavam a sentença estavam numa tensão inquieta — os que costumavam se destacar mal mostravam ansiedade no semblante, enquanto os de talento mediano ou minguado levavam estampada uma mistura de sobressalto e apreensão.
Xiao Zhan, de semblante torvo, estendeu o olhar pelo recinto repleto de parentes de mil semblantes e soltou um leve suspiro no coração. Yan'er... será que você passa nessa prova?
"Patriarca, quase é hora. Por que Xiao Yan ainda não chegou?" Ao seu lado, o Segundo Ancião franziu a testa e perguntou.
Xiao Zhan lançou-lhe um olhar enviesado e respondeu com indiferença: "Ainda não é a hora. Para que tanta pressa? Será que o Segundo Ancião não tem esse tino?"
Sufocado pela réplica, o Segundo Ancião viu o semblante lhe escurecer um tanto, e soltou um bufo frio e pérfido: "Ainda que você lhe tivesse comprado esse Líquido Fundamental, isso não poderia tê-lo levado ao sétimo nível do Dou Qi num único ano. Não vá ficar esperando milagre algum."
Diante dessas palavras, a ira acendeu o rosto de Xiao Zhan. Já de si andava com os nervos à flor da pele, e não faltava senão este para remexer de propósito na ferida mais dolorosa. Estava prestes a replicar quando se levantou um leve alvoroço no ruedo.
Voltou o olhar. Na extremidade do campo, pelo caminho, aproximavam-se a passo lento duas figuras — com um andar tranqüilo que, para um dia tão marcante, parecia não ter pressa alguma.
Observando o sorriso tênue no rosto do rapaz de roupas negras ao longe, Xiao Zhan, sem saber por quê, soltou enfim um longo suspiro de alívio...