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Capítulo 19: Uma Pequena Pérola num Prato de Jade

Chi Xin Xun Tian·Capítulo 19 de 81·~7 min de leitura

Atualizado: 2026-08-02 15:16

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Se perguntasses qual casa de vinho e luar de Fenglin City era capaz de roubar a alma de um homem com maior eficácia, todo conhecedor daquele caminho em particular te daria a mesma resposta: o Pavilhão de Três Partes de Fragrância.

Não um estabelecimento de pós e ruges que possuísse três partes de beleza. Antes: de toda a fragrância sob o céu, esta casa reclamava três partes para si.

E isso sendo apenas uma filial.

Contudo, desde o dia em que abriu suas portas, varrera o medíocre comércio de flores e salgueiros de Fenglin City como um vendaval varre a madeira podre.

Se os senhoritos de Fenglin City podiam hoje desfrutar de uma dissipação como deve ser, tinham de agradecê-lo ao Pavilhão de Três Partes de Fragrância, por ter elevado o nível profissional de cada papa-figo canoro e cada andorinha ligeira da cidade e de seus distritos.

O que equivalia, mais ou menos, ao que o mestre de quinto grau Dong A fizera pelo nível educacional da Academia Dao de Fenglin City. Essa comparação, naturalmente, era uma que Zhao Rucheng só fazia em privado, e em voz baixa.

A favorita reinante do Pavilhão de Três Partes de Fragrância naqueles dias era uma mulher de nome Miaoyu.

Quantos homens sonhavam com seus aposentos de manhã à noite, dispostos a arrastar-se pelo chão até a barra de sua saia? E no entanto, os agraciados com sua companhia continuavam sendo, no fim, pouquíssimos.

Atrás de uma cortina de contas, sobre um leito de dossel suntuosamente ornamentado, um homem de meia-idade jazia preso de um fervor que nada tinha a ver com o quarto ao seu redor. Tinha os olhos fechados, o rosto arrebatado, o corpo subindo e descendo; e debaixo dele não havia absolutamente nada além de um monte de cobertas.

A uma única cortina de contas de distância, um divã baixo ficava de frente para aquele leito. Miaoyu reclinava-se nele à vontade, a face apoiada numa mão, cada linha de seu corpo um estudo de graça indolente. Seu olhar estava desfocado, e se o teatro privado daquele homem de meia-idade sequer se registrava nele, ninguém poderia dizer.

Uma figura de negro prostrava-se diante do divã, entregando um relato em voz baixa e respeitosa.

"Ou seja, estás me dizendo que esse tal Jiang Wang domina um conjunto de fórmulas de espada de considerável refinamento, e que antes disto jamais as exibira diante de ninguém."

Sua voz era lânguida como a de uma gata recém-desperta, e dedilhava o coração sem sequer parecer tentar.

A figura de negro permaneceu baixa, e não ergueu a cabeça uma só vez. "É assim mesmo. Este servo é incompetente. Em verdade não consegui descobrir onde as aprendeu."

Miaoyu ponderou, e então levantou um dedo. "Retira-te."

Diante da palavra, o homem de negro apertou a testa contra as tábuas. Recolheu o anelar e o mínimo, e juntou polegar, indicador e médio num triângulo sobre o peito, e recitou suavemente: "No fundo do Rio do Esquecimento, nas profundezas das Fontes Amarelas. O Deus Honrado retorna ao mundo; Sua luz ilumina os homens."

E então todo ele simplesmente se infiltrou através do assoalho e desapareceu.

"Fórmulas de espada que jamais apareceram em toda a Academia Dao de Fenglin City? Transmitidas por algum grande guerreiro que prova sua lâmina pelo mundo? Ou acaso...?" Os olhos de Miaoyu tornaram-se distantes e sonhadores.

"O Daozi..."

Pensou além disso, e mais longe, e rumo a terras ainda mais estranhas.

"No fundo do Rio do Esquecimento, nas profundezas das Fontes Amarelas. O Deus Honrado retorna ao mundo; Sua luz ilumina os homens."

Fez o mesmo sinal com a própria mão, e murmurou as mesmas palavras.

E no leito de dossel o homem nu seguia labutando consigo mesmo a sós, afundado num delírio maravilhoso no qual parecia disposto a se afogar para sempre.

Longe dali, à mesma hora, em certa aldeia do Reino de Yong, um homem calvo de rosto feroz rasgava algo com os dentes, mastigando em grandes bocados. O sangue lhe escorria pelo queixo e lhe encharcava ambas as mãos.

E a julgar pelo buraco vazio e destroçado no peito do aldeão que jazia morto ao seu lado, o que ele comia era, a todas as luzes, um coração humano.

Estava se banqueteando quando uma faixa de luz fluente desceu oblíqua do céu, dirigindo-se direto a ele.

Infelizmente, não era justiça caída do céu, nem espada voadora vinda para abater o malvado.

O calvo lançou uma mão e apanhou a faixa de luz no punho, onde ela se resolveu numa espada longa, simples e antiga.

"Maldição! Um dia desses engulo também o teu coração!" Interrompido em sua refeição, o calvo estava visivelmente indignado.

"Velharia, em que época pensas que vivemos! Ainda mandando cartas por espada voadora!" Praguejando sem parar entre dentes, usou os dedos encharcados de sangue para desdobrar a carta atada à lâmina.

As Caixas Transmissoras de Mil Li da Escola Mohista estavam no mercado havia anos e vendiam esplendidamente. Mas sempre haveria poderes que se recusassem a usá-las, já que ninguém podia estar de todo certo de que aqueles fabricantes de engenhocas da Escola Mohista não houvessem deixado alguma mão oculta dentro das caixas.

Ainda que os mohistas jurassem pelo céu e traçassem seus votos sobre a terra, ao mais estrito juramento do demônio interior já haviam arrancado, havia tempo, dezenas de brechas os estudiosos da arte. Que valia um juramento?

"Reino de Zhuang? Comandância de Qinghe? Sanshan City?" Leu sílaba por sílaba, e não pôde evitar cuspir no chão. "Que canto perdido do mundo é esse?"

A espada longa balançou no ar, como a aguilhoá-lo rumo a alguma resposta.

O calvo ficou ainda mais irritado. Mas o dono daquela carta era, evidentemente, uma presença que ele ainda não podia se dar ao luxo de desafiar.

Com a ponta ensanguentada do dedo rabiscou cinco traços tortos sobre o papel: um cavalo de palitos. O que significava, com toda a clareza, que partia no instante, a galope.

Amarrou a carta de volta à lâmina com mão descuidada, e a espada sumiu tão bruscamente quanto chegara.

Só quando a espada voadora encolheu na distância é que algo lhe ocorreu ao calvo. "O chefe não vai deixar de entender isso, vai?"

Deu voltas ao assunto por um tempo, e então sacudiu aquela pequena preocupação dos ombros.

"Se nem isso ele consegue ler, que espécie de chefe é!"

Ao chegar à porta de seu dormitório, Jiang Wang ouviu vozes lá dentro.

Desde sua ascensão à Corte Interior, seguia dividindo quarto com Ling He e Du Yehu, o que tornava cômodo treinar e buscar o Dao a qualquer hora. Zhao Rucheng vinha passar a noite a cada poucos dias, embora nunca se demorasse. Os quartos eram bem melhores que os de antes; mas para Zhao Rucheng a diferença mal merecia menção.

Ao ouvir os passos de Jiang Wang, Ling He saiu a passo rápido. "Enfim voltaste! Tua família está te esperando há meio dia!"

Família...

O coração de Jiang Wang deu um salto. Entrou apressado no quarto, e ali, junto ao conjunto de mesa e cadeiras de jacarandá huanghuali que ficava perto da janela — móveis que Zhao Rucheng insistira, contra toda objeção, em mandar trazer —, viu uma mulher de meia-idade que se conservara bem.

Du Yehu estava sentado ao lado dela com as mãos e os pés recolhidos, a viva imagem da mansa correção, respondendo conforme lhe perguntavam: ela fazia uma pergunta, ele dava uma resposta. Igualzinho a um rapaz selvagem contendo sua ferocidade diante da mãe de um amigo.

Salvo que este "rapaz" em particular tinha uma barba frondosa demais, e um rosto que envelhecera com entusiasmo demais. Posto ao lado da bem conservada mulher, parecia, se tanto, o mais velho dos dois.

Ao ver Jiang Wang entrar, a mulher já se punha de pé às pressas, com o deleite quebrando-lhe nos olhos. "Wang, pequeno! Quanto tempo! Cresceste, e estás mais forte também!"

Jiang Wang cumprimentou com uma inclinação. "Tia Song. Espero que tenhas passado bem."

Sua própria mãe morrera quando ele era muito pequeno, e esta mulher era a esposa que seu pai tomara depois. Nunca conseguira mudar o costume, e sempre a chamara simplesmente de Tia.

Não era má pessoa, e jamais o maltratara. Só que, poucos anos após as segundas núpcias do pai, Jiang Wang ingressara por exame na Corte Exterior da Academia Dao. O cultivo era trabalho amargo, e salvo nas festas quase nunca voltara para casa. Nunca houve desavença entre eles; tampouco houve jamais muita profundidade de afeto.

Ainda trocando cumprimentos, a Tia Song estendeu a mão para trás e trouxe à frente a menina pequena que ali se escondia. "Vamos, cumprimenta!"

Era uma coisinha tímida. Só quando a mãe a apressou é que abriu a boquinha e ofereceu, numa vozinha muito pequena: "Irmão."

A túnica de seda que a Tia Song vestia era brilhante e de fina feitura, e lhe acrescentava três partes de formosura. A roupa da menina também não era pobre, embora fossem suas próprias feições primorosas, que não precisavam de ajuda alguma, as que prendiam o olhar e arrancavam admiração.

Pena, pois, que mal soltada a palavra ela voltasse a esgueirar-se direto para trás da mãe, deixando aparecer só meia cabecinha enquanto estudava este irmão que havia tanto não via.

Ele gostava da irmã, claro. O sangue é mais espesso que a água, e nada que alguém fizesse podia alterar isso. Só que seu coração estivera posto por inteiro no cultivo, e cada volta para casa fora uma chegada apressada e uma partida apressada. Fazia muitíssimo tempo que não ouvia aquela palavra: *Irmão*.

Por leve que fosse, por pequena que fosse, caiu como uma pérola que rola sobre um prato de jade: uma nitidez e uma doçura para as quais não havia palavras.

Ele atravessara a matança, e se acostumara ao sangue e à escuridão, e acreditara que seu coração se tornara frio e duro. Agora, de golpe, sentiu-o amolecer e ceder.

Pela primeira vez desde que voltara de Tangshe, Jiang Wang sorriu, e este sorriso foi inteiramente sincero.

"An'an!"

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