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Capítulo 1: O amanhecer

Jian Lai·Capítulo 1 de 3·~10 min de leitura

Atualizado: 2026-08-06 08:57

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A pequena cidade não era nem grande nem pequena, cerca de seiscentas famílias. Chen Ping'an conhecia pelo nome a maioria das casas mais pobres da cidade. Quanto às famílias abastadas, com seus cofres bem recheados — seus umbrais eram altos, e um garoto de pés enlameados mal podia cruzá-los —, havia mesmo vielas largas atulhadas de grandes mansões em que Chen Ping'an jamais pôs os pés. Por ali as ruas eram pavimentadas com grandes lajes de pedra azul, e em dias de chuva ninguém pisava em poça de lama salpicante. Aquelas lajes azuis, da mais fina qualidade, tinham sido pisadas e roladas por homens e cavalos por mais de mil anos, até ficarem polidas, lisas como espelhos.

Os sobrenomes Lu, Li, Zhao e Song eram as grandes famílias da cidade, e tinham sido essas casas que custeavam a escola da aldeia. Quase todas possuíam dois ou três grandes fornos de dragão para além das muralhas. As residências oficiais dos sucessivos intendentes de fornos estavam na mesma rua que essas famílias.

Por azar, das dez cartas que Chen Ping'an devia entregar hoje, quase todas iam para as casas dos ricos mais célebres da cidade. Era bem natural, é claro. Dragões geram dragões, fênix geram fênix, e a prole do rato escava toca. Um filho de família que vagava longe de casa e podia custear cartas bem devia provir de um lar decente; de outro modo jamais teria o meio de empreender semelhante jornada. Dessas dez cartas, Chen Ping'an na verdade só precisou visitar dois lugares, a Rua do Cervo da Fortuna e o Beco da Folha de Pêssego. Quando pôs pela primeira vez o pé naquelas lajes azuis, grandes como tábuas de cama, o garoto ficou nervoso, abrandou o passo, e até sentiu uma pontada de vergonha de si mesmo — não podia evitar achar que suas sandálias de palha estavam sujando o calçamento.

A primeira carta que Chen Ping'an entregou foi à família Lu, cujos antepassados haviam recebido uma vez um cetro rui de jade imperial das mãos do próprio Imperador. De pé diante do portão deles, o garoto foi ficando cada vez mais inquieto e acanhado.

Os ricos tinham tantas finezas. A residência dos Lu já era enorme por si só, e a cada lado da entrada havia dois leões de pedra, cada um da altura de um homem, de porte imponente e feroz. Song Jixin lhe dissera que semelhantes feras podiam afastar o mal e reprimir a desdita. Chen Ping'an não fazia a menor ideia do que significavam o mal ou a desdita, mas achava muito curioso como os artesãos conseguiam esculpir aquela bola de pedra, redonda e que rolava como se fosse solta, que parecia descansar na boca dos leões. Reprimindo a vontade de tocar a bola de pedra, o garoto subiu os degraus e bateu na aldraba de bronze com forma de cabeça de leão. Em poucos instantes abriu a porta um homem jovem. Ao ouvir que chegara uma carta, o homem manteve o rosto impassível, pegou o envelope entre dois dedos, aceitou a carta de família e então se virou e entrou a passos rápidos na residência, fechando com estrondo a grande porta, que trazia pintada a imagem do Deus da Riqueza.

Os entregas seguintes do garoto foram igualmente insignificantes. Na esquina do Beco da Folha de Pêssego havia uma família de nenhuma fama particular. Quem abriu a porta foi um velhinho baixo, de rosto bondoso. Após guardar a carta, sorriu e disse: —Garoto, você se esforçou. Por que não entra para descansar um pouco, beber um copo d'água quente?

O garoto sorriu tímido, balançou a cabeça, e saiu correndo.

O velhinho deixou escorregar a carta de família para dentro da manga. Não se apressou a voltar para dentro; ergueu antes os olhos para olhar ao longe, a vista turva e apagada.

Por fim, seu olhar, descendo do alto ao baixo, do distante ao próximo, pousou nos pessegueiros que ladeavam a rua de ambos os lados. O velhinho, que parecia tão decrépito e envelhecido, conseguiu ao fim apertar um leve sorriso.

Então o velhinho se virou e entrou.

Pouco depois, um passarinho amarelo de bela cor pousou num galho de pessegueiro, o bico ainda tenro e jovem, e soltou um suave gorjeio.

A última carta que restava, Chen Ping'an devia entregá-la ao mestre que ensinava na escola da aldeia. De passagem, cruzou por uma banca de adivinhação, onde um jovem taoista de túnica velha e surrada estava sentado muito ereto atrás da mesa. Na cabeça usava uma coroa alta, como um botão de lótus em plena floração.

O jovem taoista viu o garoto passar correndo e gritou alegre: —Jovem, não deixe passar o que passa! Venha tirar uma vareta! Este pobre taoista lançará os seus presságios e lhe dirá o seu destino: ventura ou desventura, bênção ou desgraça.

Chen Ping'an não parou. Só virou a cabeça e acenou com a mão.

O taoista se recusava a desistir. Inclinou-se para a frente, erguendo a voz: —Jovem!, nos dias comuns este pobre taoista cobra dez moedas para interpretar uma vareta. Hoje abrirei uma exceção: só três moedas! Claro que, se você tirasse uma vareta auspiciosa, poderia acrescentar outra moeda como presente de agradecimento. Se a sorte sorrir e você tirar uma vareta supremamente auspiciosa, este pobre taoista ainda assim só lhe cobrará cinco moedas. Que tal?

Ao longe, os passos de Chen Ping'an vacilaram claramente por um instante. O jovem taoista se levantou na hora e aproveitou a vantagem, gritando mais alto: —Primeira hora da manhã, jovem! Você é o primeiro cliente do dia. Este pobre taoista bem pode completar a boa obra até o fim. Se apenas se sentar para tirar uma vareta, para ser-lhe franco, este pobre taoista escreverá um talismã de papel amarelo, para oferecer bênçãos a seus antepassados e acumular mérito pelos defuntos. Com minha habilidade, não poderia prometer que alguém renasça em grande riqueza e honra, mas acrescentar uma parte de bom presságio —bem, ao menos se tenta.

Chen Ping'an estremeceu. Com meia dúvida, virou-se e sentou no banco comprido em frente à banca.

Um taoista simples, um garoto maltrapilho —dois tipos sem tostão— sentados frente a frente.

O taoista sorriu e estendeu a mão, fazendo sinal ao garoto para pegar o tubo de varetas.

Chen Ping'an hesitou, e de súbito falou: —Não vou tirar nenhuma vareta. Só preciso que você escreva um talismã de papel amarelo para mim. Tudo bem?

Na memória de Chen Ping'an, este jovem taoista que tinha vagueado até a cidade já estava aqui há pelo menos cinco ou seis anos. Sua aparência quase não mudara, e era gentil com todos. Nos dias comuns fazia o horóscopo, lia os ossos e tirava varetas, e de vez em quando redigia cartas de família por encomenda. O engraçado era que o tubo de varetas cheio de cento e oito palitinhos de bambu, por todos aqueles anos, jamais arremessara uma vareta supremamente auspiciosa a nenhum morador, homem ou mulher, nem ninguém jamais sacudira uma vareta das ruins —como se as cento e oito varetas fossem todas de sorte mediana ou melhor, nenhuma má.

Assim, durante as festas, para cortejar um pouco de boa sorte, o povo comum da cidade podia aceitar gastar dez moedas. Mas quando de verdade enfrentavam problemas, certamente ninguém vinha aqui para ser enrolado por dinheiro. Chamar este taoista de completo charlatão seria fazer-lhe uma injustiça. Por menor que fosse a cidade, se ele só soubesse fazer truques e enganar os outros, já o teriam expulsado há anos. Assim, a verdadeira habilidade deste jovem taoista seguramente nada tinha a ver com quiromancia ou interpretação de varetas. Havia, no entanto, montes de achaques menores; muita gente, após beber um tigela de sua água benzida, se curava rápido. Era bastante eficaz.

O jovem taoista balançou a cabeça: —Este pobre taoista trata com honestidade a velhos e jovens por igual. Como disse, interpretar a vareta e escrever o talismã juntos —isso serão cinco moedas.

Chen Ping'an retrucou em voz baixa: —Três moedas.

O taoista soltou uma risada franca: —E se você tirasse uma vareta supremamente auspiciosa —pois então seriam cinco, não é?

Chen Ping'an criou coragem e estendeu a mão para o tubo, quando de repente ergueu a cabeça: —Taoista, como sabia que estou com exatamente cinco moedas no bolso?

O taoista se aprumou na cadeira: —Este pobre taoista sempre acerta ao pesar a fortuna de um homem, grossa ou fina, e ao calcular a abundância de sua riqueza.

Chen Ping'an pensou um instante, e pegou o tubo de varetas.

O taoista sorriu: —Não fique nervoso, jovem. Quando o destino lhe concede algo, no fim será seu; quando o destino não concede, de nada adianta forçar. Trate os assuntos mutáveis da vida com ânimo sereno —essa é a primeira e perfeita virtude.

Chen Ping'an devolveu o tubo à mesa, com expressão solene: —Taoista, vou lhe dar as cinco moedas, e não tirarei nenhuma vareta. Só lhe peço que escreva esse talismã de papel amarelo melhor do que costuma escrever. Tudo bem?

O sorriso do taoista continuava inalterado. Após considerar um instante, assentiu: —Pode ser feito.

Na mesa, a tinta, o pincel, o tinteiro e o papel estavam preparados desde muito. O taoista perguntou com cuidado pelos nomes, lugares de origem e datas de nascimento do pai e da mãe de Chen Ping'an, então sacou uma folha de papel amarelo para talismãs e escreveu nela de um fôlego só, tudo de uma vez.

Quanto ao que escreveu, Chen Ping'an não fazia ideia alguma.

Ao largar o pincel, o taoista ergueu o talismã e soprou a tinta ainda úmida: —Quando chegar em casa, coloque-se bem ao lado de dentro do umbral e queime o papel amarelo do lado de fora dele. Só isso.

O garoto recebeu o talismã com solene cerimônia, guardou-o com grande cuidado, e não se esqueceu de deixar as cinco moedas sobre a mesa antes de se curvar em agradecimento.

O jovem taoista acenou com a mão, indicando ao garoto que cuidasse de seus afazeres.

Chen Ping'an saiu correndo para entregar a última carta.

O taoista se recostou preguiçosamente na cadeira, lançou um olhar às moedas, inclinou-se e as varreu para junto de si.

Bem então, um passarinho amarelo, pequeno e delicado, se abateu do alto sobre a mesa, deu uma leve bicada numa das moedas, perdeu o interesse na hora e, batendo as asas, voou para longe.

"O pássaro amarelo já ia pousar com a flor no bico, / quando em seu jardim ainda não abrem os pêssegos."

Após recitar esses versos despreocupadamente, o taoista fez um gesto grandiosamente descuidado com a manga, suspirou e disse: "O destino concede oito palmos —não cobice dez."

Nesse gesto da manga, dois palitinhos de bambu escorregaram dela e caíram no chão. Com um "ai!", o taoista se abaixou às pressas para recolhê-los, e então lançou uma olhadela furtiva em volta. Ao constatar que ninguém lhe prestava atenção, soltou um suspiro de alívio e escondeu de novo os dois palitinhos na manga folgada.

O jovem taoista tossiu, fez um rosto severo, e ficou à espera de que o peixe mordesse o anzol, aguardando o próximo cliente.

Meditou, não sem sentir, que afinal era mais fácil ganhar dinheiro das mulheres.

Na verdade, os dois palitinhos escondidos na manga do jovem taoista —um supremamente auspicioso, outro supremamente funesto— estavam ambos destinados a lhe render a grande fortuna.

Isso não era assunto que os demais devessem saber.

O garoto, naturalmente alheio a esses mistérios ocultos, caminhou leve de passo até chegar ao prédio da escola da aldeia. Perto, um bosquezinho de bambus se erguia frondoso e verde, com a verdura a ponto de gotejar.

Chen Ping'an abrandou o passo. De dentro da sala veio uma voz madura e sonora: "Ao raiar do dia há resplendor, / e o manto de pele de cordeiro úmido como de orvalho."

Então irrompeu um coro de vozes tenras, nítidas e vibrantes: "Ao raiar do dia há resplendor, / e o manto de pele de cordeiro úmido como de orvalho."

Chen Ping'an ergueu os olhos. O sol da manhã subia a leste, esplêndido e sem limites.

O garoto ficou olhando, absorto em pensamento.

Quando tornou a si, as criancinhas da escola balançavam a cabeça recitando um trecho com fluência, exatamente como o mestre lhes exigia: "Na época do Despertar dos Insetos, o céu e a terra geram, e as miríades de coisas começam a florescer. Deitem-se à noite e levantem-se cedo, caminhem fora pelo pátio; o cavalheiro caminha devagar, para nutrir suas aspirações vitais..."

Chen Ping'an ficou no portão da escola, como se quisesse falar mas contivesse a palavra.

O erudito de meia-idade, com as têmporas tocadas de geada, virou a cabeça para olhá-lo, e saiu em silêncio da casa.

Chen Ping'an estendeu a carta com as duas mãos e disse com respeito: —É sua carta, senhor.

O homem alto de túnica azul pegou o envelope e falou com calor: —Quando não tiver o que fazer, pode vir ouvir minhas aulas.

A Chen Ping'an acomodava pouco, pois não podia de fato prometer arranjar tempo para vir ouvir esse homem ensinar. O garoto não queria enganá-lo.

O homem sorriu, compreensivo: —Não importa. Todos os princípios estão nos livros, mas o modo de se conduzir está fora deles. Vá cuidar de seus afazeres.

Chen Ping'an respirou aliviado, despediu-se e partiu.

Depois de correr uma boa distância, o garoto, como que guiado por um impulso, virou-se para olhar.

Lá estava o mestre, ainda no portão, a figura banhada pela luz do sol. De longe parecia quase um ser divino.

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