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Capítulo 17: Erguer a voz contra a injustiça

Jian Lai·Capítulo 17 de 38·~11 min de leitura

Atualizado: 2026-08-11 08:12

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Fu Nanhua, o jovem herdeiro da Cidade do Velho Dragão, estava sentado em frente a um jovem de sobrenome Song, com ambas as mãos segurando uma chaleira pequena de base marcada com o mandril, estudando a gravura com o apreço absorto que se rende a uma beleza incomparável. Virava-a, acariciava-a, soprava-lhe ar morno; passou uma boa meia hora antes de poder largá-la. Algumas coisas apaixonam à primeira vista, e para um homem de gostos exigentes como Fu Nanhua esta Chaleira que Nutre o Coração era exatamente uma dessas. Ainda que do achado afortunado ao engano do néscio só medeie um cabelo, Fu estava seguro do primeiro caso, e de um achado nada pequeno. Sua Cidade do Velho Dragão se contava entre as primeiras seitas do sul do continente de Baoping, de modo que era um filho de casas imortais que conhecera a grande riqueza — justamente a razão por que Cai Jinjian tanto se esforçara, desde o princípio, em se mostrar humilde.

Song Jixin bocejou, afundou-se na cadeira e perguntou com desânimo: «Irmão Fu, já que confirmamos que a coisa é autêntica, não deveríamos falar do preço?»

Raramente o chamavam de "irmão". Fu Nanhua conteve um leve gesto de desgosto e largou a Chaleira do Mandril com relutância. «Bem sabes quão sincero sou, irmãozinho Song. Disse-te à primeira vista o valor verdadeiro da chaleira e tornei patente minha vontade de ficar com ela — só para nos poupar a barganha vulgar que gasta o tempo e fere o afeto. Se havemos de dividir venturas e desgraças, e até se confiar um ao outro a vida e a morte, dependerá deste primeiro passo.»

Song Jixin balançou um dedo diante do jovem cavalheiro do chapéu elegante. «Irmão Fu, sou um sujeito vulgar que fede a cobre — embora eu reconheça amigos, sim. Mas quando alguém fala em "fraternidade" do outro lado de uma mesa de negócios, não posso deixar de me perguntar: quando de verdade precisar dela, não estará esse homem fazendo contas no íntimo?»

O rosto de Fu Nanhua esfriou. Recostou-se e tamborilou a mesa com um dedo, com suavidade, sem ruído.

Song Jixin pareceu não notar. «Tratar-te de "irmão Fu" e te mostrar a chaleira é minha sinceridade. Sejamos diretos. Tu pões o preço; eu assinto ou nego. Duas oportunidades de ofertar; passada a segunda, esta estalagem fecha as portas, e nem montanhas de ouro me moverão.»

«O pingente de jade de há pouco era meu presente de boas-vindas — o Pingente de Chuva do Dragão Velho», prosseguiu Fu Nanhua. «Não é um tesouro poderoso; só afasta o calor, clareia a mente e repele o impuro, um proveito sobretudo para a meditação. Acompanhado de um canto secreto taoísta, seu bem se duplicaria pela metade do esforço.» Pôs sobre a mesa uma bolsa bordada, com sorriso sincero. «Estas moedas parecem ouro, mas são "essência dourada", muito mais preciosa que o próprio ouro. Dizem os imortais: "Talvez o jade verde se possa colher, mas o segredo da essência dourada deve se calar". Este punhado de moedas de oferenda, mais aquele pingente — ouso dizer, irmãozinho Song, que sais ganhando por larga.»

Esperou.

Song Jixin piscou. «Terminaste?»

«Terminei», sorriu Fu Nanhua com amargura.

O jovem mudou de semblante e com uma palmada golpeou a mesa. «Fu, vai-te daqui! Há de me tomar por criança de três anos?! Quando vós, forasteiros, entrais no vilarejo, trazeis três bolsas de cobre. Uma paga o pedágio; por cada tesouro depois, entregais uma bolsa — trinta moedas no máximo, vinte no mínimo. Esta bolsa faminta tua tem ao menos doze?! Se careces até dessa honradez, como te atreves a trocar comigo uma oportunidade do destino!»

Fu Nanhua tamborilou mais forte, do lento ao rápido.

A Song Jixin se encolheu o coração; o alento se lhe engrossou, o rosto carmesim, fios sanguinolentos nos olhos. Levou uma mão ao peito — o coração lhe ribombava como um tambor de guerra, tum, tum, tum, como se fosse estourar o peito.

Fu Nanhua tornou mais lento, e ao jovem melhorou a cor. «Ah, já que o primeiro preço não bastou — vinte e quatro moedas de oferenda de essência dourada por esta Chaleira do Mandril. Vendida?»

Song Jixin, encharcado em suor, vacilou; e quando Fu ergueu a tamborilar de novo, como uma tempestade de verão, o herdeiro da Cidade do Velho Dragão redobrou os golpes. O jovem, ambas as mãos no peito, desfez o rosto apurado numa careta atravessada de um sorriso cruel. Fu Nanhua esteve a ponto de matar de um golpe aquele lobinho na hora — mas o chamariz de ascender degrau a degrau até a vida eterna pesou mais que suas aversões, e soltou o rapaz.

Song Jixin aspirou o ar a bocadas, os olhos ardentes, uma gargalhada rouca nos lábios.

Fu Nanhua não alcançava a compreender — não havia ódio nesses olhos. «De que te ris?»

«De pensar que daqui a pouco eu também matarei um homem com um estalo», disse o jovem, com os olhos cintilando. «E isso me enche de uma alegria imensa.»

Fu Nanhua despachou-o com um sorriso. Uma alma gêmea — a mais fácil de tratar enquanto tu tens a posição melhor, e a mais difícil uma vez que tenha trepado para além de tua cabeça. Mas o herdeiro da Cidade do Velho Dragão não se achava pior que um rapaz a quem por nove anos jamais tiraram deste vilarejo.

Song Jixin olhou a chaleira e a bolsa meio vazia, ergueu a vista e disse: «Fu Nanhua, duas condições, e além da chaleira te darei um tesouro antigo que não fica aquém dela.»

«Dize-as.»

«Primeiro — três bolsas de essência dourada, não duas!»

«Concedido!» respondeu sem um bater de coração de vacilação.

«Crê ou não. Mas antes de sair por tua porta, hás de me mostrar a peça que vale duas bolsas, e deixar-me avaliá-la com meus próprios olhos.»

«Trato feito!» assentiu Song Jixin.

«E a segunda?»

«Mata um homem por mim.»

Fu Nanhua negou com a cabeça. «Sabes quantas moedas há numa bolsa, de modo que sabes que nós, os "forasteiros", não podemos matar à vontade aqui. Quem o fizer é expulso, pode ter raída parte dos alicerces, e arrasta toda a família à ruína.»

Os lábios de Song Jixin se curvaram. «Não te apresses a negar, irmão Fu. Espera e observa.»

«A quem queres matar?» perguntou Fu, curioso.

«É exatamente o que eu me pergunto», respondeu o jovem, meio de brincadeira, meio a sério.

Fu Nanhua tomou a chaleira, sentindo-lhe o grão fino. «Então aguardarei para ver o que sai.»

Do outro lado, o jovem esfregou o pescoço, com expressão indecivelmente sombria.

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Antes, Zhigui acompanhara Cai Jinjian até o portão do pátio dos Gu e saíra às compras. Cai Jinjian empurrou a porta — e recuou como atingida por um raio, cravada no lugar. Mirando o velho do longo banco, perguntou com voz trêmula: «Vós, senhor, não sereis o Verdadeiro Senhor que Corta o Rio, que cultiva em reclusão no Lago dos Pergaminhos?»

«Donde me conheces?»

«Vossa discípula é Cai Jinjian, da Montanha de Nuvem e Névoa. Há dez anos vi, de longe, a velha tartaruga trazer a estela à superfície, e vislumbrar vossa figura jamais se me apagou.»

O velho assentiu. «Anotado.»

A Cai Jinjian se entristeceu o coração. «Verdadeiro Senhor, esta discípula quisera...»

«Por consideração ao Ancestral Songxia», disse o "contador de histórias", lançando-lhe um olhar, «passarei por cima desta visita não anunciada. Que não volte a suceder. Não esqueças de fechar a porta.»

Cai Jinjian calou um momento e se retirou — fechando obedientemente a porta, os movimentos sem fuga.

Dentro, a mulher perguntou, preocupada: «Imortal, ela não parece das que deixam passar isso. Problemas?»

O velho resfolegou. «Uma vez que pões um pé no vilarejo, até um vento que expilas te pode trazer problemas. Vais renunciar à tua oportunidade por medo disso? Mas dize-me, senhora Gu — se pudesses escolher, quererias que Gu Can cultivasse na Montanha de Nuvem e Névoa, ou que me seguisse ao Lago dos Pergaminhos?»

«Não te apresses.» Ergueu a mão. «A Montanha de Nuvem e Névoa definha no mais baixo da segunda categoria do continente; e no entanto não é desprezível. Sua Pedra Raiz de Nuvem é um tesouro do céu e da terra que não se acha em nenhuma outra parte do mundo, por isso todos se alegram em deferir-lhe — sobretudo as seitas alquímicas, atadas a ela por mil anos de incenso compartilhado. Quanto a mim, não sou mais que um cultivador do Lago dos Pergaminhos, dono de uma só ilha, com discípulos que posso contar nos dedos.»

A senhora Gu sorriu, sua juventude passada ainda com graça. «A distância entre mim e aquela mulher da Montanha de Nuvem e Névoa é exatamente a distância entre ela e vós. Como poderia deixar que Gu Can renuncie a um paraíso bendito para arranhar um sustento no campo?»

O velho riu-se, e depois se pôs grave. «E as origens do menino, senhora Gu? Conta-me em detalhe — mais vale prevenir que remediar.»

A mulher alisou um fio e disse com suavidade: «Esse pobre menino é Chen Ping'an. Seus dois pais se criaram aqui. Eu tratava muito bem a mãe — de cara comum, mas de coração deveras bom; jamais a vi erguer a voz. O aspecto do marido era quase um insulto para ela, embora tivesse mão fina para a porcelana; se tivesse vivido, bem poderia ter chegado a chefe do grande forno de dragão. Como morreu — uns dizem que escorregou no riacho apressando-se numa noite de tempestade; outros, que se meteu numa colina vedada por carvão e uma fera o levou. Nunca se achou o corpo, mas ele adorava o filho e trazia presentinhos cada vez que voltava.»

«Após a morte dele, o ânimo da esposa veio abaixo; em menos de um ano ficou reduzida a pele e osso. Foi o pequeno Chen Ping'an quem cuidou dela — comprando e fervendo as ervas, cozinhando num fogão que mal alcançava, varrendo as colinas à procura de qualquer erva que pudesse vender à botica.»

«Uma vez comeu por erro a erva errada e se abateu, lançando espuma pela boca.» Tremia-lhe a voz. «Tememos que aquela família de três desaparecesse inteira. Minha velha sogra dizia que era melhor que fossem todos, reunidos no submundo. Mas o rapaz saiu adiante por conta própria. A mãe, essa sim, não pôde passar aquele inverno. E — Imortal — o menino nasceu no quinto dia do quinto mês. Os velhos dizem que é o dia mais nefasto do ano, um que atrai coisas impuras. Assim, mortos os pais, não ficou nem um cobre, e até os presentinhos do pai foram trocados por comida...»

Por fim o velho falou. «O quinto do quinto? Interessante. Deixa-me calcular.» Seus dedos traçaram o mudra da adivinhação. «Continua.»

«Os do Beco do Vaso de Barro», prosseguiu, «embora mal nos atrevêssemos a pô-lo dentro de casa, passávamos-lhe de quando em quando um prato de arroz. De um rapaz sensato e bom como ele, o coração de todos se apiedava — não fosse aquele aniversário que punha os dentes em pé. Mas houve vizinhos pouco decentes que se deleitavam mortificando-o, até que por fim o obrigaram a se fazer aprendiz do forno — quando no leito de morte a mãe lhe fizera jurar que jamais trabalharia ali, nem como mendigo. Para um rapaz tão filial romper esse juramento, algo duro teve de o empurrar.»

«Sabes os nomes dos pais e as datas de nascimento deles?»

Só os nomes; das datas ninguém tinha certeza. «Não importa.» Ao cabo de um momento, o velho soltou uma risada fria. «Uma manha de pouca monta — um ardil de fantasmas e raposas!»

Diante do olhar em branco da mulher, explicou: «Aquele homem encontrou um fim violento, muito provavelmente por topar com o segredo deste vilarejo. Famílias com mais sorte como a tua se apoiam na bênção dos antepassados; ele não tinha nenhuma. Então, pela segurança do filho, quebrou em segredo o próprio vaso de porcelana ligado à vida — e alguma seita de fora ficou de mãos vazias sobre um grande investimento. Um mero obreiro do forno jamais poderia ressarcir; pagou com a vida, à qual se somou a da esposa. Curioso — a morte dele pareceu a certos homens tão trivial que a arte de ocultamento que lançaram foi traçada com uma chapuçaria vergonhosa.»

O rosto da mulher se apagou. Culpa? Remorso?

«Culpa há — claro, a um menino que vi crescer com meus próprios olhos», confessou. «Mas remorso, jamais!»

«Vejo-te isso.»

«Se fosse a mãe de Chen Ping'an quem estivesse no meu lugar», murmurou, «faria o mesmo.»

«Isso está longe de ser certo», disse o velho.

«Claro que faria!» insistiu ela, e ele não se ofendeu, só suspirou: «Piedoso é o coração de todo pai.»

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Na soleira, o menino de sandálias de palha disse: «Senhorita Ning, posso fazer-vos umas perguntas?»

A moça de preto se sentou com as pernas cruzadas, a espada sobre os joelhos. «Claro — menos o que toca segredos e assuntos confidenciais.»

«Quanto tempo gentes como vós ficam aqui?»

«Varia. Os afortunados vão e vêm num dia; os desditosos vivem aqui a vida inteira. Aqueles dois néscios ricos, moles de miolo e recheados de moedas, ficarão uns dias. Àquele jovem do chapéu elegante com o pingente de jade irá melhor; aquele grandalhão obcecado com o poço — o céu decidirá.»

«E mais uma pessoa?»

«Quem?»

«Aquela mulher alta e ainda jovem.»

«Gosta dela?»

O menino sorriu; não levara a sério a brincadeira.

A moça se pôs grave. «Ouvi tua conversa com o Daoísta Lu. Guardas rancor dela, e pensas... te vingar? Um conselho: para os que estão a meia encosta, os do cume não parecem distintos dos do pé — e de verdade têm autoridade para olhar de cima. Nesta terra do dharma final, até aquele menino da túnica vermelha poderia abrir-te o peito de um soco, enquanto teu golpe mais forte só o deixaria sem fôlego. O porquê — não sei explicar bem.»

Chen Ping'an encarou o portão. «Quero saber por que ela quis me matar. A nossa era de verdade a primeira vez que nos víamos.»

Ela cismou. «Talvez ela não seja das que degolam inocentes por passatempo. Mas, na trilha de cultivo, um homem transita caminhos largos e pontes de um só tronco; caminhas rápido e esmagas uma formiga sem saber, tens fome e tiras peixes do rio. Disse-o mal — me entendes?»

«Mais ou menos.»

E caiu em silêncio, sem alcançar a compreender como podiam aquelas gentes ser tão negligentes com a vida alheia. Ao fim se voltou e sorriu. «Se não vos importar, senhorita, ficai aqui. O que precisardes, só dizer.»

«E tu?»

«Conheço alguém — Liu Xianyang, meu bom amigo. Ficarei com ele.» A moça olhou aquelas costas delgadas e frágeis e disse: «Obrigada!»

O menino sorriu de orelha a orelha, coçou a cabeça e, por fim, criando coragem, se voltou de novo. «Senhorita Ning — se um dia eu não voltar, entregai aquele punhado de moedas douradas meu a Liu Xianyang. Que cuide desta casa — sem varrer; só que às vezes a remende, ponha telhas novas para não gotejar, cuide que os muros não caiam e o portão não apodreça. Se pudesse colar um deus de porta e dísticos de primavera na noite da virada do ano, nada me agradaria mais. E se for muita maçada — não importa.»

A moça viu nos olhos dele uma luz estranha quando falou do deus de porta e dos dísticos. Por tantos anos como levavam os pais na sepultura, este órfão do Beco do Vaso de Barro acalentara aquele único desejo. Assim, quando o menino, sem pesos, exalou um suspiro suave, deu-se uma palmada nos joelhos e se ergueu —

a espada voadora na bainha, sobre a mesa do interior, lançou um guincho agudo e súbito.

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