Quando Fu Nanhua saiu, encontrou aquela criadinha bonita num banquinho do pátio, com um punhado de milho na mão, jogando ração às galinhas — uma velha galinha choca à frente de uma ninhada de pintinhos de penugem amarela bicando o grão. Esboçou um sorriso leve; ela torceu uma comissura em resposta. Ao abrir o portão, deu com Cai Jinjian esperando-o no beco, de ânimo abatido. Enquanto fechava, pela fresta que se estreitava alcançou a ver um rosto que se erguia — e reparou de súbito que esta criada, de quem alguém esperaria que cheirasse a barro, tinha um par de olhos bastante extraordinários, que a faziam parecer um verde tenro no início da primavera. Mas não se deteve a pensar; mulheres de beleza marcante, esbeltas ou cheinhas, se lhe tinham tornado por completo gastas.
Caminhando com Cai Jinjian, perguntou: «Sem sorte? Estas oportunidades tardam a amadurecer; nem todo golpe acerta no alvo de um tiro.»
Cai Jinjian, puro encanto sedutor e, após a purificação de medula e o refinamento de ossos do cultivo, tão clara quanto o vidro ao lado de qualquer mulher mortal, trazia hoje um semblante nada agradável. «Adiantou-se-me uma figura de alto topete — um dos grandes peixes do Lago dos Pergaminhos, o Verdadeiro Senhor que Corta o Rio, Liu Zhimao. Não me deixou nem um ápice de margem. Desde o primeiro momento sacou o ancestral fundador de minha própria Montanha de Nuvem e Névoa para pressionar uma mera júnior. Mal disse três frases e já me tinha posto para fora do pátio daquele Gu Can.»
Fu Nanhua a advertiu: «Não fales disso até sairmos do Beco do Vaso de Barro.»
«Mas não está proibida aqui toda a feitiçaria?», perguntou.
Fu Nanhua sorriu. «Todo buscador de fortuna guarda um trunfo na manga. Pelas regras deste vilarejo, quanto mais profundo o cultivo, mais te esmaga; mas se algum mestre esclarecido estivesse disposto a queimar o próprio cultivo, poderia de verdade se ver superado pelos recém-chegados como nós?»
«O sábio está aqui! Ousaria me declarar guerra?»
«Viemos buscar a boa fortuna, não semear a inimizade», a instou. «Ainda sem perigo de morte, envenenar nossas relações com esses anciãos é um mau passo.»
Cai Jinjian assentiu — não era das que se enredam em miudezas. «Bem dito, irmão Fu.» Depois se lhe franziu o rosto. «Mas não consigo engolir. Já te entreguei dez Pedras Raiz de Nuvem; se tudo ficar em nada, como hei de respondê-lo aos meus maiores?»
Uma vez saídos do Beco do Vaso de Barro, ambos sentiram ao mesmo tempo uma onda de vitalidade — e não era só a luz clarear. Trocaram um olhar e o desviaram.
Fu Nanhua esfriou ao virar o assunto. Seu pacto com Cai Jinjian não delatara deslize algum; seu trato com Song Jixin estava selado, um negócio justo por todas as regras. Iria aquele sábio, que vê ir e vir ventos e águas, se meter em seus assuntos? Então de onde essa pressão? Seria aquele Verdadeiro Senhor que Corta o Rio, de cujo nome jamais ouvira? Os pensamentos de Cai Jinjian corriam mais simples: temeu que Fu tivesse razão, que o Verdadeiro Senhor usara alguma arte para vigiá-la, e tremeu de pensar que só soltara queixas, não ameaças.
Assim seguiram, cada qual com um peso distinto, e quanto mais longe do Beco do Vaso de Barro, mais leve a pressão. Fu a tomou pelo peso da oportunidade; Cai, pelo da família.
Olhando o arco comemorativo, Fu perguntou: «O Verdadeiro Senhor que Corta o Rio, do Lago dos Pergaminhos? Jamais ouvi o nome. Ainda em minha Cidade do Velho Dragão, bem ao sul, um cargo de Verdadeiro Senhor não é coisa menor; algo eu deveria saber.»
Cai baixou a voz e se mofou. «Um "verdadeiro senhor"? Um mero homem verdadeiro bem posto entre as seitas do caminho lateral, e o mais beatola. Não tem direito ao título — é adulação ociosa. Pensa quão astuto é o imperador Yuanwu. Uma senioria, uma vez dada, pode demorar dois séculos para voltar. Os antepassados dele as esbanjaram, de modo que só lhe restam dois títulos — não iria esbanjar um num cultivador selvagem caçador de fama vazia.»
«Ah, é assim que andam as coisas.»
Cada Verdadeiro Senhor sentado numa dinastia pode reunir e fazer crescer a fortuna do reino em nome do soberano. Um Verdadeiro Senhor taoísta se ergue no próprio cume do salão-templo onde as seitas taoístas encontram o mundo mortal — com o grande Pilar do Reino dos estrategistas e o Grande Erudito dos confucianos em igual altura.
Como ao acaso, Cai perguntou: «E aquele Song Jixin?»
Fu respondeu com a mesma despreocupação. «Aquele jovem? Ambicioso até o vício, engenhoso por natureza, não pouco respaldo — só que seu talante...»
«Estreito?», sorriu.
Fu soltou uma gargalhada. «Não diria estreito. Só não bastante largo.»
Junto ao arco, Fu, em plenos ânimos, murmurou: «Quando chega a fortuna, céu e terra agem juntos.»
Cai ergueu os olhos aos quatro caracteres do topo — «Não busque nada para fora» — e sentiu um estranho vazio, como se a compreensão que ganhara no Beco do Vaso de Barro se lhe tivesse devolvida inteira ao vilarejo. E isso a deixou inquieta.
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A mansão de Song Jixin se contava entre as grandes casas do Beco do Vaso de Barro, com salão principal e duas câmaras laterais. O letreiro do salão rezava «Salão de Cultivar o Distante», sem firma; Song Jixin sempre opinara que a caligrafia não era de grande mestre.
Na câmara principal, o jovem remexia baús enquanto a criada permanecia na porta. «Amo, não se fechou o trato?»
Song Jixin deixou de lado uma fileira de sinetas e entrelaçou as mãos atrás da nuca. «Aquele Fu Nanhua da Cidade do Velho Dragão não é um completo néscio. Nunca me tomou por novato — mas tão inteligente também não é. Quis me conquistar com a amizade — que divertido! E quando lhe soltei um blefe ao acaso, mostrou o rabo de raposa. Um espetáculo de trovões para brandir pau e cenoura e acuar o jovem amo — comparado ao senhor Qi, a quem nunca se acaba de ler, faltam-lhe cinquenta mil léguas.»
«Cinquenta mil léguas — isso é exagero», disse Zhigui.
Song Jixin fez uma careta. «Então que seja a medida de dez Becos do Vaso de Barro!»
Atirou-lhe uma bolsa. «Estas são as moedas que aquela carta secreta mencionava. Aquele Chen do lado também levou uma bolsa, e desconfiei que semelhante fortuna caída do céu não era boa coisa. E olha — já enfureceu aquele par de cães. Apostaria que o tal Chen tem mais privações à espera. E escuta, Zhigui — este se fez chamar jovem herdeiro da Cidade do Velho Dragão; pelo ar, ao menos não é um travesseiro de seda recheado de serragem. E este pingente — ele o chamou de "o Dragão Velho que convoca a chuva" — deve valer uma fortuna!» Palmeou o jade verde da cintura, sentindo-se um passo mais perto de um erudito como o senhor Qi.
Zhigui abriu a bolsa. «Amo, não poderia trazer mais umas quantas bolsas destas moedas?»
«Gosta delas?» Ela beliscou uma moeda dourada e se riu com alegria. «Tudo reluzindo ouro — que afortunado parece.»
Song Jixin riu-se a despeito de si. «Está bem, então. Moedas desta classe, lá fora, se guardam de várias maneiras — as moedas da boa sorte nas vigas, as de boas-vindas da primavera nos talismãs de pêssego, as de oferenda no ventre de um Buda ou em sua mão. Mas o povo chão tem seus costumes, e as casas imortais seus próprios nomes.»
Ela semicerrou os olhos, como luas crescentes. «E a bolsa do Chen Ping'an?» Fu franziu a testa. «Ele?» Ao perceber o estranho lampejo do amo, ela guardou as moedas. «Nada», disse ele, torcendo o próprio pescoço, como uma nuvem que passa. «Umas velhas lembranças de porcaria. Com o Chen não há pressa — não vamos arrastar problemas. Mas aquele sabichão do Zhao Yao, esse sim levará uma bolsa, e é fácil de enganar — trago-te uma inteira dele.»
Zhigui saiu ao pátio e viu aquele lagarto de quatro patas, tão incômodo à vista, meio morto, tomando sol com contentamento. Com o ânimo acendido, plantou um pé na cabeça e moeu com a ponta; ele soltou um lamento lastimoso. Ergueu o pé e saiu disparado, corricando e estourando contra os muros. Aquele lagarto cor de terra seu. A carpa dourada que, por comilona, se meteu numa cesta de pescar. A enguia negra que Gu Can criava numa talha. Do metal, da madeira, da água, do fogo e da terra — três de cinco partiram. Olhando o lagarto cornudo, desenhou um sorriso de desprezo. «Besta estúpida!»
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No pátio do menino Gu Can, o velho e a mulher seguiam cara a cara. Ergueu a palma, estudando suas linhas, o ânimo intranquilo.
«Senhora Gu — mulheres como tu, casadas com homens forasteiros, há muitas neste vilarejo?»
«Não muitas. Por estas partes do Beco do Vaso de Barro e do Beco da Flor de Damasco, sou a única.»
O velho hesitou e lhe deslizou uma brisa do desígnio do céu. «Para uma menina, as idades de seis e doze; para um menino, as de nove e dezoito — os dois grandes limiares. O primeiro se cruza com a própria força; ao segundo se pode dar um empurrão de fora. Depois, mais uma porta, onde as casas ricas e nobres aventajam. Abrir a porta, entrar na sala, chegar à câmara — dos dois primeiros só decide a oportunidade; e o próprio primeiro pende de se o céu se agrada de baixar o arroz.»
Os olhos da mulher transbordavam de riso. «Para meu Gu Can, a quem o senhor, Imortal, escolheu de um olhar — com certeza cruza por conta própria esse primeiro passo, não?»
O velho esboçou um sorriso que não era bem um sorriso. «Todo menino criado dentro deste vilarejo, por esse próprio fato, não tem nada de especial em ossos e alicerces. Teu Gu Can, ainda sem completar nove anos, não é a exceção.»
O rosto da mulher caiu.
Pisoteou o chão e sorriu. «Fica tranquila. Ossos e alicerces importam, mas não são o primeiro na balança. Se o céu olha com bons olhos, até um cão do caminho ou uma brisa de erva pode cultivar o Grande Dao e trepar às nuvens. Este vilarejo rompeu todo precedente para admitir forasteiros — um último recurso. Um campo, por muito boa que seja sua terra, após milhares de anos de desmatar e colher, drenado até o lodo do açude pelos peixes, há de por fim ficar baldio. E assim, este lugar alcançou seu último grande ano. Quando um homem se aproxima da morte, naquele relâmpago da vela antes de se apagar, seu espírito se incha a um ponto poderoso — e disso teu Gu Can colhe o benefício. A oportunidade supera todo imaginar, deixando muito para trás os dotados do vilarejo.»
Os lábios da mulher tremeram, os olhos anegados. «Mas não te tornes gananciosa», acrescentou. «Um abençoado assim não é só teu filho. Em todo o vasto Baoping, ainda que houvesse um digno de guardar tudo sozinho, com certeza ainda não nasceu.»
«Basta», respirou. «Basta.»
Pensando naquela júnior da Montanha de Nuvem e Névoa, o velho se mofou: «Atarefando-se atrás de coisas exteriores — trocou uma melancia por um gergelim! E não me admira: aquelas cabeças duras da Montanha de Nuvem e Névoa nunca tiveram vista longa, se não não me teriam deixado esta vantagem. Para ter uma montanha de tesouros quase inesgotável e vir a precisar que uma júnior de discípulo escore a casa — deveria estar nadando em riquezas.»
Dentro, o menino que surrava a porta subira num banquinho, debruçado na janela. «Mãe, deixa-me sair, sim! Serei bom!» A mulher olhou o Imortal, que assentiu; correu a tranca, tomou a mão do menino e o levou ao pátio. «Can, nada de travessuras! Tua mãe jamais te golpeou, mas se desobedeceres desta vez, de verdade te darei.»
Gu Can sentou-se num banquinho com a mãe e o velho, em tripé. «Mãe, de que falaste com o senhor contador de histórias?» O velho soltou uma exclamação, sacudiu o pulso e o grande vaso branco reapareceu na palma. Fitou-o — na água se estendiam ondas, uma linha preta deslizando e dando contra a parede. «Está bem», murmurou. «Vai aonde quiseres.»
Para tomar este discípulo, executara três golpes às escondidas no Beco do Vaso de Barro, à custa de décadas de seu cultivo. O primeiro: fazer aquela mulher pisar fezes de cão. O último: por uma arte secreta, fazê-la crer de verdade que alcançara a iluminação — impossível fora deste vilarejo, onde até um genuíno Verdadeiro Senhor mal se atreveria, mas aqui Cai Jinjian não era mais que uma mortal, e o velho, a grande custo, achara a abertura. O segundo, mais delicado, parecia-lhe um golpe de gênio: fazer a mulher crer que o aviso bem-intencionado do menino de sandálias de palha era uma vingança taimada — e por isso retardara a voz do menino o bastante para ela captar o detalhe. Um plano tecido fio a fio.
À senhora Gu se encolheu o coração, temendo más notícias. O velho surpreendeu, pelo rabo do olho, um menino que se erguia furtivamente e rompia a correr para o portão. Ela gritou. O velho, o vaso na mão, ergueu-se sem pressa. «Discípulo, deixa teu mestre te mostrar quão largos são o céu e a terra, não seja tua torpeza venha a estragar nossa grande empresa!» Uma negrura varreu seus olhos e ela desabou. Restalhou a manga. No instante seguinte o menino tropeçou e caiu — depois, desconcertado, ergueu a vista. «Donde é isto?»
«Dentro do vaso», disse o velho com calma, as mãos atrás das costas. Depois vociferou: «Levanta-te!» O menino se pôs de pé, cravado, e se viu à beira de um precipício, diante dele um mar de nuvens agitado. Então os olhos se lhe escancararam: da brancura um torso colossal rompeu as nuvens, movendo-se devagar — vasto demais para mostrar jamais sua verdadeira forma. Recuou; o velho lhe pousou uma palma na cabeça. «Um passo atrás, e mal moverás outro no caminho o resto da vida! Mantém-te firme!» A Gu Can brotaram as lágrimas; o menino, que jamais conhecera o medo, nem sequer se atrevia a chorar em voz alta. Tremiam-lhe as pernas. As nuvens começaram a clarear, e mais e mais negrura se mostrou no céu — vasta, enorme — muito parecida com... aquela enguia de sua talha em casa, crescida até virar monstro? O pensamento lhe brotou sem querer. Perdeu toda a compostura, deu um passo adiante e estendeu um braço esguio ao céu. Uma cabeça, enorme como um cume de montanha, saiu deslizando do mar de nuvens. Os olhos lhe brilharam, sem medo; até lhe fez sinais e gritou: «Depressa! Então cresceste desse tamanho! Não admira que os peixes e caranguejos da talha escasseassem cada manhã.»
Atrás dele, o Verdadeiro Senhor que Corta o Rio do Lago dos Pergaminhos era um nó de perda e inveja, e de um orgulho terno. Embora jamais pudesse conhecer tamanha fortuna, ganhar tal discípulo já era bastante — sua viagem não fora em vão! Viu a cabeça que se aproximava e murmurou: «Uma maravilha do mundo.»
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Chen Ping'an disse à moça de preto que precisava entrar; e ao cabo, num canto, de costas para ela, escondeu algo na palma. Ao sair, disse que ia lhe comprar um pote de barro para a medicação — a casa carecia dele. Após a partida apressada, a moça olhou o canto sombrio, onde seguia de pé um velho pote gasto. Seu ouvido, na verdade, era muito fino. Na palma dele havia estado um fragmento de louça quebrada — muito afiado.