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Capítulo 27: Preparando Medicina Espiritual

A Record of a Mortal's Journey to Immortality·Capítulo 27 de 33·~7 min de leitura

Atualizado: 2026-08-08 14:23

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Até que o Doutor Mo voltasse à montanha, Han Li sabia que seria bastante seguro usar a garrafinha ali, no Vale das Mãos Espirituais. Pois o vale inteiro não acolhia ninguém senão ele mesmo, e nenhum estranho seria de esperar que tropeçasse sem aviso nele, de sorte que por um tempo podia descansar seguro de que nada sairia mal, e servir-se da garrafinha com plena liberdade e ousadia.

Han Li revolveu em sua mente o tempo que provavelmente tardaria o regresso de seu mestre. Dificilmente poderia o velho ter alguma esperança de achar planta digna de se ter no campo em redor da montanha; ver-se-ia obrigado a viajar muito longe, muito provavelmente a bosques profundos e a páramos intransitados onde poucos homens põem o pé, pois só em tais recantos remotos havia alguma esperança de recolher ervas de raro valor. Mas uma viagem assim, com a ida e a volta e o buscar pelos desertos no meio, não podia bem fazer-se em menos da maior parte de um ano.

Meio ano já tinha decorrido desde que o Doutor Mo baixara da montanha, e Han Li calculava que não lhe faltavam senão seis ou sete meses para voltar a pôr o pé dentro da Seita dos Sete Mistérios. Em todos os dias antes de seu regresso, Han Li não podia fazer outra coisa senão acelerar o crescimento de tantas ervas quantas lhe servissem a seu propósito, e devia planejar com cuidado, ajustando suas colheitas às poucas receitas raras que conhecia, e não deitar fora o líquido verde ás cegas.

Os remédios que Han Li se propunha preparar, drogas para alargar seu poderio e abrir caminho pelos gargalos que o retinham, não eram outros senão aqueles incomparáveis remédios santos que o próprio Doutor Mo anelara compor, mas que nunca lograra reunir ingredientes bastante. Que aparecesse uma só delas no mercado e empobreceria uma casa inteira, e poria todo o jianghu a brigar furiosamente por ela.

Mesmo um médico da destreza sem par do Doutor Mo jamais vira com seus próprios olhos uma só daquelas medicinas acabadas, e muito menos a compusera com as próprias mãos. Poderia conhecer os métodos pelos quais haviam de fazer-se aqueles medicamentos santos, mas sem as plantas na mão não podia fazer outra coisa senão exalar seus suspiros ao céu.

Quando Han Li estudava medicina sob o Doutor Mo, tomara um vivo interesse por aquelas receitas raras. Embora jamais ousasse esperar que um dia pudesse compor medicinas de tão incalculável preço, levara à memória não poucas delas. Quanto ao Doutor Mo, olhava aquela fome ansiosa por tais fórmulas com um olho por completo impassível; sempre que Han Li perguntava, expunha tudo no maior detalhe, sem o menor sinal de querer reter nada. Sem dúvida ele estimava aquelas receitas um osso de galinha, sem grande sabor, e no entanto uma pena jogá-lo fora.

Aquelas mesmas receitas se haviam tornado agora tão queridas para Han Li quanto a menina de seus olhos. Entregou-se com teimosia à tarefa de fazer brotar, sob cada uma das que pediam suas fórmulas, uma erva de justa a idade necessária, e não ousou deixar-se escapar nem o mais mínimo, pois o tempo não era amigo seu. Devia ter compostas estas medicinas antes de o Doutor Mo voltar, e depois pôr a garrafinha numa prateleira alta e não voltar a tomá-la à ligeira na montanha.

Pois Han Li não tinha nem a menor confiança em poder servir-se da garrafinha ante os olhos do Doutor Mo sem se entregar. Conhecia demasiado bem quão astuto e cauteloso era seu mestre, e não abrigava nem um ápice de intenção de deixá-lo saber jamais o segredo da garrafinha.

Com efeito, Han Li sentia que o vínculo entre ele próprio e o Doutor Mo era coisa muito estranha, de nenhum modo a coisa plana e simples que mediava entre um mestre e seu discípulo.

O Doutor Mo tinha o costume de lhe cravar um olhar singular de sua espécie, e isso fazia tempo que fizera Han Li nutrir a fantasia de que o velho guardava oculto algum segredo que não lhe augurava nada de bom. Sobretudo no último ano ou dois se fizera mais forte tal sentimento. E assim, entre Han Li e o Doutor Mo jamais poderia haver aquela proximidade, aquele falar de tudo e não esconder nada, que corria entre um mestre comum e seu aluno.

Nos ir e vir da vida diária, o Doutor Mo o tratava na verdade muito bem; nada de punhos a brandir, nada de pragas a soltar, e no assunto da fórmula de cultivo não poupava esforço algum em procurar a Han Li as melhores condições que pudesse urdir. No entanto, entre mestre e discípulo pendia sempre certa película de separação, e uma estranha incomodidade flutuava no ar que mediava entre eles.

O Doutor Mo marcara com clareza aquela brecha, e no entanto não traía o menor sinal de desejo de remendar o vínculo entre ambos. Simplesmente seguia como sempre seguira, pensando tão somente em instar Han Li a avançar na fórmula de cultivo. Só que aquele olhar velho e estranho que costumava lançar a Han Li parecia ter-se feito mais raro por graus, até poder passar longos trechos sem se assomar de todo.

Mas o agudo sexto sentido de Han Li lhe dizia, fracamente, que seu mestre não abandonara de verdade o propósito que acalentava, apenas o escondera com a maior arte sob a superfície. E isso aprofundou ainda mais a cautela de Han Li para com ele. Sob semelhante nuvem, como haveria de ousar jamais deixar que o segredo da garrafinha fosse conhecido por tal homem!

De não poucas histórias extraíra Han Li uma lição de ferro, o velho ditado dos séculos: "Não abrigue um homem pensamento de prejudicar a outros, e no entanto nunca lhe falte a cautela para se resguardar do dano."

Tanto se o Doutor Mo lhe desejasse de verdade o mal, como se não passasse de um erro de trilha de seus próprios sentidos, manter a guarda ainda mais alerta para com ele jamais poderia ser coisa má. Se de verdade abrigasse o coração de seu mestre o mal contra ele, então quanto maior sua prudência, tanto maior sua segurança de andar a salvo do dano. E se seu sexto sentido o descaminhara, ainda não fizera nada de errado em afiar sua vigilância, nem seria por sua própria vontade que fizesse jamais nada contra seu mestre; ele, Han Li, seguiria sendo o bom discípulo do Doutor Mo, e prestaria a seu mestre cada dever filial que lhe devesse.

Ainda assim, seu coração não ficava de todo em paz enquanto pensava nisso. Este mestre e este discípulo, tão estranho par, sem dúvida não teriam paralelo em toda a Seita dos Sete Mistérios, e não pôde conter um suspiro.

Que a garrafinha jamais devia voltar a ser usada uma vez o Doutor Mo voltasse à montanha estava fora de toda questão. Pois não há neste mundo parede tão grossa que nem uma palavra possa atravessá-la; mesmo que escapasse do aviso do Doutor Mo pela mais estreita das sortes, algum outro homem dos Sete Mistérios poderia tropeçar com o segredo. O caminho mais seguro era pôr a coisa de parte e comportar-se como se jamais tivesse sido.

Com todo plano traçado e a firme resolução no peito de que manteria a garrafinha escondida e mal a tocaria daí em diante, o coração de Han Li se afrouxou afinal, e ele se foi deslizando para um confuso sono sobre seu estrado.

Nos meses que se seguiram, Han Li serviu-se às escondidas do líquido verde da garrafinha para acelerar o crescimento de grandes montes de ervas preciosas. Com elas compôs, seguindo suas receitas, não escasso depósito de medicinas raras; no entanto, ao misturá-las sofreu não poucos fracassos no caminho, e cada fracasso lhe fez doer a carne durante não pouco tempo. Pois nem uma só das ervas que entravam em tais medicinas era outra coisa senão o material mais fino que este mundo pode oferecer, e perder um só lote significava que sabe Deus quanta prata tinha ido parar direto pelo ralo. Apesar de tudo, mal podia culpar a si mesmo. Nenhum homem compõe tais medicinas senão pela primeira vez, e um ou dois fracassos eram só de se esperar; até o próprio Doutor Mo, se se pusesse a misturar essas mesmas drogas, escorregaria uma vez ou duas. E com tais pensamentos Han Li se consolava o melhor que podia.

A "Pílula do Dragão Amarelo," o "Pó do Espírito Claro," a "Pílula que Drena a Medula Dourada," a "Pílula da Essência Nutritiva" — todas aquelas medicinas sem par e raramente vistas do mundo exterior estavam agora alinhadas ante Han Li, cada uma guardada em sua própria garrafinha, uma dúzia e mais em fila. Han Li contemplou aqueles frascos, e seu rosto se iluminou de deleite; com tais elixires milagrosos entre as mãos, nem mesmo teria de se esforçar no quarto nível da fórmula, pois o quinto e o sexto lhe chegariam sem grande labor.

Entre todas estas medicinas, a Pílula do Dragão Amarelo e a Pílula que Drena a Medula Dourada eram as maiores ajudas à sua prática, pois ambas tinham a maravilhosa virtude de aumentar seu poderio e de refazer dos alicerces seus ossos e nervos. O Pó do Espírito Claro era um antídoto sem par, de uma classe raramente igualada no mundo, capaz de desfazer mil e dez mil dos venenos mais atrozes. Por fim vinha a Pílula da Essência Nutritiva, uma medicina espiritual de singular virtude contra feridas tanto interiores como exteriores; fosse qual fosse a gravidade da ferida, um só gole dela, mesmo que ficasse aquém de ressuscitar os mortos e remendar as feridas no ponto, aliviaria no entanto a lesão com poder e manteria o ferido aferrado à vida.

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