PinSuGe

Capítulo 26: Acelerando o Crescimento da Medicina

A Record of a Mortal's Journey to Immortality·Capítulo 26 de 33·~7 min de leitura

Atualizado: 2026-08-08 14:16

Ler em:EnglishEspañol

Advertisement

Justamente quando Han Li começara a supor que aquele tempo encoberto e chuvoso haveria de se estender ainda por muitos dias, o sol voltou afinal a se pendurar no alto do céu, e os céus se limparam.

Já fazia quase um mês desde que ele tropeçara no segredo do líquido verde, e sua paciência há muito se esgotara. Na própria noite em que ao fim escampou, tornou a contemplar a maravilha que quatro anos antes se desdobrara ante seus olhos: inúmeros pontos de luz, amontoados e apertados em torno da garrafinha, até se reunirem num único e enorme clarão.

No instante em que Han Li pôs os olhos naquele prodígio, a grande pedra que lhe pesava sobre o coração como numa ponta de martírio tornou afinal ao seu lugar. Já se podia dar por certo: a garrafinha não era objeto de um só uso, destinado a se gastar e se atirar para longe, mas um raro tesouro de que se poderia tirar proveito uma vez e outra e outra.

Esperou mais sete dias, e por fim apareceu dentro da garrafinha uma nova gota de líquido verde. Quando Han Li viu formar-se aquela gota de esmeralda, embora sua confiança há muito estivesse posta em oito ou nove partes de cada dez, a alegria o inundou sem medida. Tinha aí a prova de que daí em diante disporia de um caudal inesgotável de ervas preciosas, e jamais tornaria a se atormentar pela falta delas.

Porque ele sabia muito bem que o valor de uma planta medicinal se julga, em sua maior parte, pela idade. Quanto mais velha a erva, tanto maior sua potência medicinal; e do mesmo modo, quanto mais velha uma planta, mais difícil era dar com ela, pois tais coisas cresciam em bosques profundos e em parapeitos vertiginosos, onde quem as buscava devia arriscar o pescoço, ou então abandonar de todo qualquer esperança de alcançá-las.

Bem é verdade que alguns boticários e médicos se haviam posto a cultivar ervas por conta própria, mas pela maior parte não eram senão as espécies vulgares, coisas que podiam ser usadas depois de poucos anos. Poucos eram os tolos que se poriam a plantar o que não lhes serviria senão daqui a uma década ou várias.

Embora sempre houvesse grandes e ricas casas, aquelas que temem o imprevisto, que mandam criar por encomenda ervas de rara qualidade, para guardá-las contra a hora da crise em que uma vida possa pender de um fio. Tais ervas, por sua própria natureza, pouco valor podiam dar até que houvesse passado sobre elas uma prodigiosa fileira de anos; pois do comum, os homens de tais meios compravam por um punhado de moedas, e para quê então se afadigar em criá-lo? E como estas casas podiam passar sua fortuna de geração em geração, pouco lhes importava quanto tardassem em amadurecer seus plantios. Nenhum homem sabia se um dia ele próprio teria necessidade delas. Por isso tais ervas, na maior parte das vezes, eram as mais finas do mundo, algumas exigindo um século inteiro de cuidados, ou então raros exemplares solitários que não se encontravam em nenhuma outra parte, coisas para as quais nenhum homem comum tinha o dinheiro nem os meios de cultivar.

Quando alguma erva assim, tesouro silvestre, assomava um instante deslumbrante pelo mercado, quase sempre a varriam estas mesmas grandes casas, de sorte que o preço das plantas medicinais raras subia cada vez mais alto com o passar dos anos, até o ponto em que o comprador mal achava quem oferecesse uma a preço nenhum.

Han Li não abrigava grandes esperanças quanto ao resultado da expedição do Doutor Mo. Fosse o que fosse o que o velho ia buscar, presumia que a colheita seria bem escassa. Mas ele próprio já não precisava se atormentar por tais assuntos, pois agora que tinha esta garrafinha, quantas ervas boas não poderia arrancar à luz no espaço de poucos dias!

Nas dezenas de dias que se seguiram, com o ânimo numa estranha efervescência, Han Li levou a cabo, um após outro, experimentos sobre a aceleração das ervas cruas.

Numa ocasião, borrifou com o líquido verde, abrandado e diluído, uma grande quantidade de plantas, e amanheceu ao dia seguinte com uma abundância de ervas vulgares, cada uma com apenas um ano ou dois de velhice a mais, sem nada que ver com o butim daquela primeira prova. E no entanto, até daquele fracasso tirou uma lição; desse experimento Han Li começou, obscuramente, a entrever algumas das regras que governavam a coisa.

Na prova seguinte dispensou por completo o abrandamento, e deixou cair o líquido verde diretamente sobre uma única raiz de ginseng. Ao despertar no dia seguinte, achou-se entre as mãos com um ginseng de cem anos, que não se distinguia no menor detalhe de um ginseng centenário silvestre. Aquela prova lhe arrebatou de alegria, não porque tivesse ganho assim medicina tão rara, mas porque agora tinha em seu punho um aceitável domínio de como devia usar-se o líquido verde.

E assim se entregou a uma nova leva de provas, desta vez sobre a conservação do líquido verde. Extraiu a gota de esmeralda recém-formada e a pôs, uma após outra, em toda a sorte de recipientes que pôde apanhar — frascos de porcelana, garrafas de jade, cabaças, redomas de prata e o resto — e achou que nenhum frasco do mundo podia conservar o líquido nem sequer um quarto de hora. Uma vez fora da curiosa garrafinha, ou se usava dentro desse prazo, ou pouco a pouco se desvanecia até não restar rastro algum. O líquido diluído sofria do mesmo defeito, perdurava um pouco mais, mas deixado de sobra, tudo o que restava no frasco era o outro fluido que se lhe infiltrara, pois a essência do líquido verde já se esfumara.

Depois de várias provas desta índole, Han Li renunciou a toda esperança de guardar o líquido misterioso num outro recipiente qualquer. Não havia jeito de entesourá-lo em quantidade alguma, concluiu, e assim voltou seus esforços a provar se sua eficácia podia acumular-se sobre uma só planta.

Deixou cair uma gota de líquido verde sobre uma erva sanwu verde e a converteu numa erva sanwu amarela com cem anos de potência. Poucos dias depois deixou cair outra gota sobre ela, e sua idade disparou avante em mais de cem anos.

Comprovando que tal prática de fato prestava, Han Li empregou os dois meses e mais que se seguiram em repeti-la sem descanso. Sempre que uma gota fresca de líquido verde se reunia na garrafinha, a deixava cair sobre aquela erva sanwu, e a planta não o decepcionou. Suas folhas se deslizaram pouco a pouco do amarelo para um amarelo enegrecido, e daí para o preto, até que afinal, quando todas se tornaram de um preto brilhante e lustroso, ela se transformara numa erva sanwu milenar, coisa raramente igualada em todo o mundo.

A prova tinha sido um sucesso redondo, e a todas as aparências, tivesse paciência, poderia empurrar ainda mais alto a idade da erva. Mas para Han Li aquele era um exercício por completo desnecessário. Bastava-lhe saber que a prática era sã e praticável; não tinha por ora necessidade alguma de ervas de tão inconcebível idade. Uma planta de uns tantos séculos de potência lhe bastava de sobra para o próprio consumo.

Com tão longa série de provas concluída, Han Li pôde afinal reservar-se um momento de descanso e pôr em ordem seus pensamentos, pois para então já tinha passado não pequena porção de tempo desde que o Doutor Mo baixara da montanha.

Naquela hora presente, Han Li jazia sobre o estrado de madeira de seu próprio quarto, com a erva sanwu milenar aferrada entre as mãos, olhando fixamente para as vigas de cima.

Seus olhos se fixavam direitos na erva negra, como se a estivesse estudando; mas de houvesse outra pessoa no quarto, teria lido de uma olhada, pela vagância de seu olhar, que sua mente estava muito longe daquela erva sanwu, que andava errando pelas paragens mais remotas de seus próprios pensamentos, perdido em sabe Deus o quê.

Toda a alegria que sentira ao ganhar por vez primeira aquela erva se esgotara de todo. Agora não parava de dar voltas e mais voltas ao bem que a garrafinha lhe trouxera, e ao perigo que carregava em sua esteira, e a projetar como haveria de prover a seu porvir.

Dos muitos livros que havia nos aposentos do Doutor Mo, Han Li lera não poucos relatos de "os que têm um tesouro e por ele estão perdidos." A garrafinha que tinha em suas próprias mãos era um tesouro sem preço, e se algum estranho chegasse a saber que ele possuía tal coisa, não viveria para ver a manhã seguinte. Seria engolido, como tantos possuidores de tesouros antes dele, por toda a sorte de gananciosos que viriam a correr com a notícia. E deixando de lado os exemplos remotos, tome um o caso mais próximo: se os vários mestres da seita de sua própria montanha chegassem a conhecer o segredo da garrafinha, jamais o deixariam ir livre. Urdiriam por todos os meios matá-lo e se apoderar do prêmio, deixando-o à descarnada sorte de "o tesouro levado e o homem cortado."

"Não preciso dizer a ninguém uma palavra desta garrafinha," resolveu Han Li, "e na montanha devo usá-la com o maior cuidado, pois o jeito como ela bebe os pontos de luz é ruidoso demais, e um só instante de descuido poderia trair o segredo ante um estranho." E jurou a si mesmo manter os lábios cerrados, e não exalar uma só palavra a ninguém.

"E no entanto me acho aqui na mesma hora em que mais preciso de remédios que alimentem meu cultivo. Deixar a garrafinha sem uso seria um grande desperdício, e devo achar alguma via que responda a ambos os fins." Pensou em seu próprio cultivo, que não lhe dera nem o menor progresso, e uma parte da luz se apagou nele. O que quer que se dissesse, o avanço da fórmula não podia ser descuidado. Não era pelas instâncias do Doutor Mo que ele cultivava, mas porque já começara a suspeitar obscuramente de que as estranhas mudanças que o marcavam como distinto dos homens comuns nestes últimos anos estavam atadas, para além de toda separação, ao cultivo daquela fórmula sem nome.

O que achou deste capítulo?

Advertisement