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Chapter 90: O Que Eu Vi

Roaming the Heavens·Capítulo 90 de 94·~6 min de leitura

Atualizado: 2026-08-04 05:01

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Por causa das limitações do terreno, e com Lótus Branco presente, não era conveniente praticar a Arte de Refinamento do Corpo dos Quatro Espíritos.

E assim, terminada a cultivação de nutrir meridianos, Jiang Chen empreendeu a Arte do Controle da Essência. Dentro do Palácio Celestial foi deslocando sua essência do Dao, primeiro formando o caractere da paz, depois o caractere do seu próprio nome, deleitando-se sem fim nisso.

Não soube quanto tempo passou antes de umas vozes tênues chegarem aos seus ouvidos.

Jiang Chen saiu do seu estado de cultivação e virou a cabeça para Lótus Branco.

Lótus Branco lhe deu um olhar silencioso.

As vozes se aproximaram.

"Que droga! Fazendo este trabalho chato dia após dia. Não me alistei na Repartição de Execução da Justiça para ser caçador." disse uma voz.

Outra voz o instou: "Fale um pouco menos."

A primeira voz disse: "Ele não está aqui. O que há a temer?"

Assim se expressava, mas sua voz havia se tornado claramente mais baixa.

A mente de Jiang Chen se agitou. O que significava "caçador"? Estavam caçando bestas ferozes aqui? Mas não ouvira o som de uma batalha. Recordava que Zhao Yan dissera que no Pico Balança de Jade alguém havia detido Dou Yuemei de mover a montanha. Então aquela pessoa não estava aqui agora? A Repartição de Execução da Justiça... as pessoas do Pico Balança de Jade, com toda certeza, pertenciam a Zhuang Ting. As bestas ferozes que assolavam o domínio da Cidade das Três Montanhas estavam, com toda certeza, ligadas a Zhuang Ting.

Enquanto seus pensamentos se aglomeravam, as duas vozes se aproximaram ainda mais — ou melhor, deviam estar se encaminhando para o cume.

Jiang Chen, obedientemente submisso, ficou imóvel e silencioso, tentando adivinhar a intenção de Lótus Branco. Nem agora sabia ainda o que se suporia que devesse fazer. Mas como o assunto tocava o segredo do Pico Balança de Jade e a Zhuang Ting, não podia deixar de pensar demais.

Os passos pararam fora da gruta, e dois cultivadores de rosto cansado apareceram no seu campo de visão.

Um era extraordinariamente alto, o outro coberto por uma barba espessa.

Cada um carregava um objeto parecido com uma gaiola de pássaros, e os dois ficaram olhando para Jiang Chen e para a outra pessoa.

Congelaram-se. Jiang Chen também se congelou.

"Eles nos viram!" disse Jiang Chen.

"Não está óbvio a mais não poder?" disse Lótus Branco.

"Não tínhamos montado a placa de formação?"

"Oh. Essa placa de formação. Simplesmente era pesada demais para carregar no peito, então a deixei ali por ali, sem mais."

"..."

Jiang Chen conteve as emoções e acabara de empunhar a espada quando Lótus Branco já havia flutuado para fora da gruta.

Uma vez abandonada a envoltura da pele de animal, sua figura esbelta já não pôde se ocultar. Suspensa no ar, ela era uma estampa por si só.

Estendeu ambas as mãos e as pousou levemente sobre as frontes daqueles dois cultivadores.

Na verdade, os dois cultivadores haviam reagido no primeiro instante, mas suas artes do Dao haviam desmoronado antes de poderem tomar forma.

Pareceram gritar algo, mas suas vozes foram abafadas por algum poder.

Os dois cultivadores se desmoronaram brandamente no chão. Lótus Branco se inclinou e recolheu as duas gaiolas.

"Você os matou?" perguntou Jiang Chen.

Se seus ouvidos não o enganavam, estes dois cultivadores vinham da Repartição de Execução da Justiça. Em certo sentido, eram uma das forças extraordinárias que mantinham estável o Estado de Zhuang. Matá-los não era, de modo algum, algo que Jiang Chen quisesse ver.

"Só os deixei inconscientes. Como eu poderia ser tão tola?" Lótus Branco riu com malícia: "E se isso o fizesse me odiar?"

Jiang Chen não tinha forma alguma de lidar com esses flertes tênues, e não disse mais que: "O que fazemos agora?"

Lótus Branco carregou as gaiolas com ambas as mãos e voltou caminhando com leveza.

Estendeu uma gaiola a Jiang Chen: "Olhe — o que é isto?"

Dentro dessa gaiola havia inúmeras bestas em miniatura. Olhe com atenção, e cada uma estava se movendo; não eram coisas mortas.

"Isto é?" Jiang Chen não ocultou a estreiteza do horizonte de um jovem de cidade pequena.

Não era que não tivesse se esforçado, apenas que não era como aqueles nascidos na abundância, que haviam vivido sempre dentro da paisagem.

E não havia aqui nada a lamentar; ele já se pusera a caminho para contemplar a paisagem.

"Uma gaiola de bestas!" Lótus Branco sacudiu a gaiola, e as bestas de dentro se apavoraram, atropelando-se de um lado para o outro.

"É como um baú de armazenamento, só que em vez disso contém bestas vivas?"

Um baú de armazenamento era uma coisa tão rara, tão boa quanto uma lenda. Jiang Chen nunca possuíra um, mas ouvira falar dele inúmeras vezes. O prodígio de reunir todas as coisas num único baú o enchera outrora de anseio.

Lótus Branco assentiu e, erguendo a mão, disse: "Carregue-as."

Jiang Chen pegou as duas gaiolas de bestas e as examinou de perto, perguntando: "Por que estaria aqui gente da Repartição de Execução da Justiça? E para que capturar tantas bestas?"

Lótus Branco não respondeu, mas seguiu caminhando para o fundo da gruta.

"Espera — a aranha da montanha não está dormindo lá dentro?" perguntou Jiang Chen.

Lótus Branco se voltou e inclinou a cabeça para olhá-lo: "Por que uma aranha da montanha estaria dormindo lá dentro?"

"Você não tinha dito... que este era um ninho de aranhas da montanha?"

"O que eu digo é o que é?" Lótus Branco resfolegou levemente e se virou: "Tão fácil de enganar — é melhor você ter cuidado para que um dia uma encantadora o devore inteiro, pele e osso."

Jiang Chen: "..."

Ele não era tolo, apenas Lótus Branco lhe salvara a vida e sempre lhe mostrara bondade, de modo que não tinha razão para desconfiar dela. Sobretudo num assunto tão menor.

E assim, até mesmo enquanto via dois cultivadores da Repartição de Execução da Justiça se encaminharem para esta gruta, não havia pensado nada nisso.

Enquanto avançavam mais para dentro, Lótus Branco tirou uma Lanterna Brilhante Suspensa e, com um pequeno manejo, a fez flutuar seguindo-os.

O interior sumamente cavernoso da gruta se desdobrou diante dos olhos de Jiang Chen.

Não havia aqui muito rastro de obra humana, apenas um emaranhado de cavernas que se ramificavam em todas as direções e alcançavam profundezas desconhecidas — como um labirinto.

Lótus Branco, contudo, movia-se com a desenvoltura de quem conhece bem o lugar, escolhendo uma caverna sem hesitar e entrando de cheio nela.

Os dois serpentearam de um lado a outro por um longo tempo antes de a vista se lhes abrir de súbito diante deles.

Era um vale imenso, sem fim à vista. Tinha árvores e rochas, flores e ervas, mas não dava uma sensação de beleza e serenidade — antes oprimia o coração e agitava uma inquietação irritante.

Nas duas paredes do monte também havia inúmeras cavernas, e Jiang Chen e os outros estavam numa delas.

Jiang Chen pensou que muitas daquelas cavernas para trás bem poderiam conduzir todas até este vale.

"Abra as gaiolas de bestas e despeje-as." disse Lótus Branco.

"Oh."

Jiang Chen já as vinha estudando, e assim pôs no chão a gaiola da mão direita, ergueu a da esquerda, apontou sua boca ao vale abaixo e abriu a porta da gaiola.

"Rugido! Siso! Grito! Chiado!"

Inúmeros brados de bestas se teceram nos seus ouvidos. As bestas se derramaram da gaiola como uma maré. No instante mesmo em que se libertaram, voltaram ao seu tamanho normal, e então caíram uma após a outra, deixando-se despencar no vale.

Eram todas bestas ordinárias — leões, tigres, ursos, leopardos, e também pássaros, raposas e coelhos. Algumas tinham temperamento aprazível, outras selvagem, mas todas estavam dentro do âmbito normal.

Quando caíram no vale, algo terrível aconteceu.

Primeiro foram os olhos: quase num instante se tornaram carmesins.

Os coelhos brotaram presas selvagens, as garras dos passarinhos se tornaram afiadas como facas... alguns corpos se incharam enormemente, a alguns cresceram chifres agudos.

Jiang Chen presenciou aquilo com os próprios olhos.

Estas bestas... estavam se transformando em bestas ferozes!

Aquelas bestas ferozes sem razão, aquelas coisas cruéis, selvagens, pesadelescas.

Aquelas que quase derrubaram o domínio da Cidade das Três Montanhas e assolaram os diversos condados do Estado de Zhuang.

Elas... haviam sido transformadas de bestas ordinárias!

Capturadas pela gente da Repartição de Execução da Justiça, e refeitas dentro deste vale.

Era um grande segredo oculto — e, sobretudo, uma verdade cruel.

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