"Cinco pedras espirituais, cinco Frutos de Origem Branco, noventa libras de arroz espiritual."
Li Tongya contou os bens que levava sobre si. O Fruto de Origem Branco é a erva coadjuvante na maior parte das fórmulas de pílulas, e como a casa carece ainda de toda a arte de fazer pílulas, bem pode vender-se primeiro; o arroz espiritual é rico em qi, e pode guardar-se e levar-se a casa para o sustento.
"E ainda devo dez pedras espirituais a Xiao Yuansi."
Com isto começou a gestar-se a Li Tongya uma dor de cabeça atrás da testa, e pensou para si:
"Xiao Yuansi também levava o traço de um que sabia que não se havia de recobrar tão cedo; e a enviada já se foi a sua casa. Fique devendo... dentro de uns anos verei."
Andou errante pela rua duas voltas, e viu toda a sorte de artes e objetos espirituais, mas por nenhuma parte deu com a transmissão das Cem Artes do cultivo.
Li Tongya agachou-se a remexer no posto que tinha diante, e o dono do posto, velado de crepe preto, falou:
"O que busca o companheiro do Dao?"
A voz era suave e grata — e ei-lo, resultou ser de mulher.
Li Tongya sorriu torto e perguntou:
"Tem o companheiro do Dao a transmissão das Cem Artes do cultivo?"
"Esta é a vossa primeira visita à feira, não é?"
A mulher riu baixinho ao dizer isto.
"É."
"Os talismãs, as pílulas e as formações da Prefeitura de Lixia não têm mais que três fontes: a Seita Qingchi, as grandes casas e os cultivadores dispersos."
A cultivadora sorriu, radiosa de espírito enquanto fixava a vista em Li Tongya, e explicou:
"A Seita Qingchi é o maior fornecedor de todos. Para poder ceifar sem fim materiais baratos e trabalhã-los em bens acabados que vender de novo aos nossos, a Seita Qingchi sempre proíbe a toda a feira sob o seu domínio a venda da transmissão das Cem Artes."
"Quanto às grandes casas — quem entre elas há-de pôr em venda o próprio ofício do seu sustento? Elas e a Seita Qingchi, numa inteligência muda, juntam-se para cerrar a circulação destas Cem Artes, melhor para cortarem para si um pedaço do proveito."
A isto assentiu Li Tongya, e ergueu os olhos para lançar uma olhada à cultivadora, respondendo com uma sombra de dúvida:
"Há tantos cultivadores dispersos na Prefeitura de Lixia?"
A mulher moveu a cabeça e se inclinou um pouco mais para cá para explicar:
"O Estado de Yue conta com várias dezenas de milhões de almas; uma só prefeitura guarda seis ou sete centos de milhares. Sob o domínio de Qingchi há cinco prefeituras, e delas bem podeis juntar três ou quatro mil que portem orifícios espirituais — por não falar das grandes casas, cujo sangue corre sem interrupção de geração em geração; o resto dos cultivadores deve de passar de cinco mil."
"O companheiro do Dao vê o assunto claro, na verdade."
Li Tongya repassou o posto; os poucos talismãs eram de pouca utilidade para ele, e escatimava o comprá-los.
"Três talismãs por uma pedra espiritual."
A isto se apressou Li Tongya a apartar os olhos dos talismãs, e eles foram pousar na espada azul pálido que tinha diante.
"Forjada de pedra de neblina azul, temperada no frio da neve; fere com grande presteza, e mais, põe escarcha e frio sobre o inimigo."
A mulher se aquentou bastante, e disse com sorriso curvado na voz:
"Esta espada serve maravilhosamente. Se não fosse porque vim a dar, não há muito, com um instrumento a meu gosto, não me desfaria dela. Só dez pedras espirituais."
Com a bolsa tão apertada, passou Li Tongya a vista com olhos renitentes e teimosos sobre o estrado, e viu que o céu se ia escurecendo. Ergueu do posto um arco de cor escura e perguntou:
"E este arco?"
"Ahá! Está forjado de madeira de olmo negro, com o tendão de uma besta da Origem Azure; vertei nele o vosso poder e porá um fio agudo sobre o voo da seta. Quatro pedras espirituais e é vosso."
Li Tongya riu baixinho e respondeu:
"Duas pedras espirituais."
"Não basta."
A mulher moveu a cabeça.
Li Tongya apontou a corda do arco e falou:
"Mas olhai-o com cuidado — este arco já viu longos usos. Duas pedras espirituais, e os cinco Frutos da Origem Branco, contados à metade de uma pedra mais; vendei-mo por isso."
A mulher mordeu o lábio, olhou para o céu, e por fim respondeu:
"Feito."
Li Tongya deu-lhe as pedras e os frutos, e depois se levantou com o arco nos braços, e, apertando a pega das três pedras espirituais que lhe ficavam na bolsa, viu que nos postos da redondeza já havia gente a recolher as mercadorias. Apressou o passo e andou a feira com olhos escrutadores.
As lojas mais adiante tratavam com as coisas do reino da Refinação do Qi, e Li Tongya não podia custeá-las, por isso mal as olhou; levou a cabeça baixa, perscrutando os postos.
Não dera senão uns poucos passos quando viu um moço, vestido de um saco de cânhamo e um casaco de pele de besta, plantado à margem do caminho junto a uma grande gaiola de ferro, na qual estavam encerrados mais de uma dúzia de cães-bestas peludos.
"Quer o companheiro do Dao olhar estas bestas de Suolin!"
O moço estivera de pé com um gesto abatido; ao ver Li Tongya deter-se a contemplar os cães-bestas, alegrou-se de todo, e explicou ainda:
"Estes cães-bestas são de temperamento apaziguável, e chegam à sua plena maduração já sustentando a Roda do Lúcido Entendimento, a segunda roda do Alento Embrionário. Agudos de dente e de presa, prestos no vir e no ir, podem morder uma vintena de homens comuns com facilidade; e de sustento pedem não mais que um pouco de arroz espiritual ao dia..."
Ao ouvir isto entendeu Li Tongya logo — o rapaz não teria vendido nada em todo o dia, com toda a probabilidade. Disse em tom baixo:
"De que serve morder homens comuns?"
"Mas — mas estes cães-bestas são criaturas avisadas; podem cheirar o vento para achar coisas, apontar o qi demoníaco..."
"A quanto os vendeis?"
"Uma pedra espiritual por cabeça..."
Li Tongya voltou a cabeça e se pôs a ir, ante o que se assustou tanto o moço que a cara se lhe poz de um vermelho encendiado, e puxou da manga a Li Tongya, dizendo:
"Uma pedra leva dois — dois!"
Não teve Li Tongya remédio senão deter-se, e moveu a cabeça com riso desvalido, explicando:
"Vossos cães-bestas têm linda pinta, mas deixa-os topar a sério com um cultivador e umas poucas artes lançadas de longe serão o seu fim. E dizei — não pedem eles que se lhes dê de comer arroz espiritual e carne de demónio? Estas rações de cultivo a nossa própria casa as acha escassas; como haviamos de as esbanjar em bestas tais..."
O moço deu um sobressalto a estas palavras, e assentiu com um gesto pensativo, depois franziu a boca e disse:
"Esperai um instante, companheiro do Dao; tenho ainda outra coisa."
Dito isto, tirou do peito uma caixinha de prata, e disse com alguma esperança nos olhos:
"Esta coisa se chama o verme-nutriente Wu: cospe a seda espiritual Wu. Pede para o seu sustento não mais que coisas que portem qi — farelo de espírito e o semelhante; os seus dentinhos são agudos e não arreganhados, e tomará as folhas do arroz espiritual ou a palha. E se em verdade não tivéreis coisas espirituais, um pouco da fina gordura de bestas bastará para o manter vivo, de modo que não haja de passar fome."
Ao ouvir isto cobrou logo interesse Li Tongya, e tomou a caixinha de prata; uns poucos vermezinhos verde-acinzentados andavam a arrastar-se, movendo as cabecinhas, dentro dela, e por baixo estavam postas umas quantas folhas de amoreira.
"Que uso tem esta seda espiritual Wu?"
"Pode tecer-se em vestiduras e sedas espirituais, que a espada e a lança comuns a duras penas as atravessam; ou pode também vender-se de novo."
Ao pensamento das existências de folhas e palha espirituais ainda guardadas em casa, algo se lhe moveu a Li Tongya o coração, mas pôs um gesto de dificuldade:
"Só temo não poder criá-los..."
"Se o companheiro do Dao quer, acrescentarei ainda um manual de vermes; toda a arte da criação está nele escrita, e com estes poucos vermes espirituais juntos — não vos peço senão duas pedras espirituais!"
O moço armou-se de coragem e fitou-o, suplicante.
"Seja."
Li Tongya considerou umas quantas respirações, e respondeu.
Guardou a caixinha de prata e a tabuinha de madeira que lhe estendeu o moço, viu que o céu já escurecera, e se despediu do moço; depois se chegou devagar à carroça, cujo cocheiro já ia a cabecear de sono no seu assento. Li Tongya riu entre dentes e se pôs a esperar em silêncio.
Quando Wan Yuankai chegou, vinha coberto do pó do caminho, e a sua cara levava uma certa alegria. Ao ver Li Tongya com o arco nos braços, recostado na carroça, riu-se:
"O irmão Tongya, que tesouro vos fizestes?"
"Um arco do reino do Alento Embrionário — mal um tesouro."
Sorriu Li Tongya, e os dois subiram juntos à carroça. Entregou o arco a Wan Yuankai, e quando o homem houvera provado a corda, perguntou:
"Então?"
"É de madeira de olmo negro, com tendão de boi."
Wan Yuankai enroscou um pouco a corda, franziu a testa e o examinou de perto, antes de responder:
"Três pedras espirituais, no máximo. Mais do que isso, e é uma perda."
A isto sorriu Li Tongya e assentiu, e os dois se puseram a falar umas poucas palavras mais, cada um contendo os seus próprios pensamentos sob o cair do crepúsculo; e não passou muito antes de se adormecerem, embalados pelo ruído da carroça.