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Capítulo 52: Deng Qiuzhi

The Mirror of the Xuan Clan·Capítulo 52 de 53·~7 min de leitura

Atualizado: 2026-08-04 06:24

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Li Xiangping ontem mesmo tinha rompido para a Roda da Origem Azure, e à semelhança do seu irmão maior Li Tongya, chegado a sustentar a quarta roda da Respiração Embrionária. Havendo posto em ordem os assuntos da casa, achava-se no pátio a estudar aquela Escritura da Espada de Água Escura, quando ouviu um rumor de passos vir dalém do muro do cercado.

"Irmão?"

Li Tongya entrou no pátio, empoeirado e gasto do caminho, o corpo molhado de chuva e rocio, a sola dos sapatos salpicada de barro. Depôs o saco de lona sobre o tampo da mesa e, antes sequer de trocar palavra, deu a Li Xiangping um grande abraço de urso.

Li Xiangping soltou um longo e aliviado suspiro, e riu:

"Enfim voltaste; se não, nosso pai não havia de poder dormir as noites todas."

"Ah, ah, ah — e muitas coisas trouxe comigo."

Li Tongya soltou uma grande gargalhada, e primeiro, com grande cuidado, tirou a caixa de prata do peito e a examinou de ponta a ponta; vendo que os poucos bichos-da-seda wu-tónico que lá havia andavam cabisbaixos e murchos, não pôde senão suspirar baixo para si. Logo se desprendeu do ombro o longo arco de cor corvo, e, sorrindo, o pôs nas mãos de Li Xiangping.

"Vê se te assenta na mão."

Li Xiangping se alegrou de todo o coração, puxou algumas vezes a corda, e correu os dedos com carinho pelo corpo do arco. Ao verter o seu poder nele, a corda se acendeu no ponto, brilhando com uma luz branca e tépida, e Li Xiangping prorrompeu em atropeladas palavras:

"Isto — isto é um instrumento espiritual?"

Li Tongya riu baixinho, e explicou:

"Isto comprei eu na feira, senhor; custou-me duas pedras espirituais e meia."

"Caramba! E de onde sacaste tu pedras espirituais?"

Li Xiangping se doeu disso por um par de respirações, e logo, admirado, virou a cabeça a perguntá-lo ao seu segundo irmão. E assim Li Tongya lhe contou por largo todo o negócio do Pico da Coroa de Nuvens, e ao escutá-lo Li Xiangping assentia com a cabeça, já e outra vez, e suspirou:

"O Jing'er também cresceu."

Não tardaram a ouvir a notícia Li Xuanxuan e Li Qiuyang e os demais, e subiram o monte; e Li Tongya entregou os bichos-da-seda wu-tónico e aquele manual de bichos a Liu Rouxuan, e disse com voz grave:

"Estes bichos-da-seda wu-tónico são o primeiro que esta casa cria. Lê este manual com cuidado; desce o monte e escolhe umas velhas mañosas na criação do bicho; procura um quintal e cria-os com bom tino. Irei no ponto chamar Li Yesheng, e mandar-lhe-ei que te envie as folhas e a palha do arroz espiritual; porque estes bichos espirituosos vieram castigados e alvoraçados por todo o caminho, e já estão no seu último alento."

"Far-se-á assim."

Liu Rouxuan não via o seu marido Li Tongya há estes meses compridos, e o anelava com gana; mas sabia também quão urgente era este assunto, e assim tomou a caixa de prata com grande cuidado, e desceu do monte, para casa.

"Tio-primo, esse Secta Imortal de Qingchi há de ser esplendoroso e senhoril além de toda a medida!"

Li Qiuyang estava sentado na sua cadeira de madeira, olhando para Li Tongya com um ar de grande interesse, e falava em voz baixa. Li Qiuyang contava já onze ou doze anos, e nestes poucos anos era principalmente seu encargo cuidar do arroz espiritual; mantinha-se humilde e retraído nas aldeias, e o seu pai, Li Chengfu, homem sensato e entendido, trazia a rédea aos irmãos maiores, mandando-lhes lavrar os campos e erguer as casas, e assim nenhum filho dessa casa cometeu jamais nenhuma vileza de arrogância e abuso.

"E aquele enviado guiava um barco de nuvens num bafo de luz rosada, tingindo todo o céu de escarlate — isso é que era um porte de grandeza, e de sobra!"

Li Tongya riu duas vezes, brioso e cheio de vida, e respondeu.

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"Verdadeiramente um grande porte!"

Li Chijing pôs a mão esquerda sobre a espada de gume azul à cinta, conteve o impulso de a desembainhar, e falou frio e seco.

"Por todos estes anos que levo em clausura, e ainda não soubera eu que o Pico Qingsui tinha acolhido discípulos novos."

O moço que tinha diante ia arrojando com suavidade a conta de jade na mão, e falou com um ar de nada lhe importar.

Moço era de rosto aprazível, bem que o espaço entre os olhos fosse um tantinho estreito, o que lhe tirava algo do seu porte de grandeza. Ia com capa de pele de raposa aos ombros, bolsa de armazenagem à cinta, e vestido com não pouca suntuosidade.

Ao ir aproximando o moço, passo a passo, os homens que o escoltavam se apinharam pouco a pouco para a frente, encerrando Li Chijing naquela senda estreita até o acuarem num canto.

"Irmãozinho, não há por que alarmar-se — é só por catar o teu temperamento."

"Cultivador de Refinação do Qi, nada menos, e vens acossar um que mal sustenta a Roda do Espírito Inicial na própria cumeada da Respiração Embrionária — não te envergonha?"

Vendo aproximar-se os homens por todos os lados, Li Chijing se foi retirando devagar, até dar as costas contra o frio muro de pedra; a sua mão apertava a espada de gume azul, e os olhos não se apartavam dos movimentos do moço. O moço sorriu tenuemente, e a conta de ouro na sua mão se acendeu com grande luz e se lançou de golpe contra Li Chijing.

Li Chijing franziu o sobrolho; uma rede de azul profundo se ergueu diante dele, e inclinando-se esquivou a conta de ouro, e duas passadas prestas o levaram até ao moço.

"O teu Pico Qingsui sabe todas as artes do céu, diria um, salvo a de manejar a espada."

O moço mal tinha soltado uma risada trocista, quando viu Li Chijing empurrar para a frente e chegar-se, e não pôde senão elogiá-lo:

"Que resolução!"

Li Chijing tinha a bainha na mão esquerda, a palma direita sobre o punho; e recebendo de cheio o golpe daquele instrumento espiritual, cuspiu um bochecho de sangue, mas voou um passo adiante e estava já ao rosto do moço.

O moço se sobressaltou, e buscou no ponto recobrar a conta com o seu sentido espiritual — mas ei-lo que aquela grande rede azul-pálida já se tinha enrolado em volta do seu instrumento. Embora a conta, com um leve voltear, se sacudisse e livrasse, aqueles jirões de tempo se lhe perderam. Li Chijing apertou os dentes, e enfim a espada de gume azul ficou desembainhada; uma ofuscante claridade de folha curva branca como a lua se ergueu da mão esquerda e terminou na longa espada de branco-pálido desembainhada pela direita, derramando-se de golpe em direção à garganta do moço.

"Como pode ser!"

Ericeu-se-lhe o cabelo ao moço dos pés à cabeça; os pensamentos giravam na sua mente, sem tempo sequer de traçar o mudra, quando o talismã da paz à sua garganta fulgiu com luz espiritual, erguendo um escudo dourado que mal deteve aquela claridade de espada e atirou o moço a cambalear umas quantas passadas para trás.

"Mal negócio!"

O moço, não fazendo caso do alvoroço que subia pelo seu Mar de Qi, se apressou a mudar e a re-traçar o mudra, e assim mal conteve aquela conta dourada que voava em direção à nuca de Li Chijing. Feito isto, olhou para Li Chijing que estava de pé com a espada na mão, com uma expressão complexa e cismática no rosto.

Um cultivador de Refinação do Qi pode mandar o seu instrumento e combater de longe; só urdindo um golpe de perto podia Li Chijing esperar achar a vida em meio da morte. E aquele talho seu — era um forjado em longa e amarga meditação enquanto estudava a Escritura da Espada de Água Escura — o seu poder era tanto maior por isso.

"És tu quem ganhou, então!"

O moço, topar no seu caminho com o Pico Qingsui que sempre mirara com desagrado, tinha vindo com intenção brincalhona de assustar um pouco este discípulo novo; mas agora o seu rosto levava um olhar complexo e cismático, e juntou as mãos em saudação a Li Chijing.

Li Chijing tinha pálido o rosto; embainhou a espada e respondeu, com esforço:

"Agradeço ao amigo dao o haver refreado a mão. Este talho meu era o primeiro que jamais tracei contra um inimigo, e não tive mestria para conter a sua força."

O moço deu uma palmada na sua bolsa bordada, tirou vários frascos de unguento para feridas, e os pôs diante de Li Chijing, dizendo em voz baixa:

"Os meus homens, na sua torpeza, agravaram o amigo dao. Sou Deng Qiuzhi, do Pico Yuanwu; nos dias por vir virei por certo em pessoa a fazer as reparações."

Vendo tão pálido o rosto de Li Chijing, Deng Qiuzhi se apressou a mandar dois homens a tomá-lo pelos braços e vê-lo de volta ao Pico Qingsui, enquanto ele mesmo, com os seus, se voltava e se ia como quem foge em debandada.

Apenas tinha andado um trecho curto, quando Deng Qiuzhi se voltou, com o rosto feio, e assestou ao homem que ia atrás uma bofetada que lhe fez soar.

"Amanhã irás comigo ao Pico Qingsui, e faremos as reparações!"

O homem baixou a cabeça, dolido e desconcertado, e não pôde senão resmungar para si:

"Foi o próprio senhor que se foi provocá-lo..."

Mas quem havia de o pensar? — Deng Qiuzhi, de repente, agarrou o homem pela nuca e o içou no ar, e perguntou com um rosto de sentimentos emaranhados:

"Não me guarda rancor, não?"

"Senhorito! Mas se até unguento lhe deu! Não, senhorito, não lhe guarda...!"

O homem se assustou de meio a meio, e rogou piedade numa torrente de palavras. Deng Qiuzhi o deixou tagarelar um bocado, e logo, de súbito, semicerrnando os olhos o cravou com um olhar frio, e disse, palavra por palavra:

"Tu não me guardas rancor, guardas?"

Aquele homem sentiu no ponto o terror enchido no peito; tremiam-lhe e se lhe afrouxavam as duas pernas, e com uma voz quase em choro disse:

"Este humilde não guarda..."

"Pois bem está, então."

Deng Qiuzhi o soltou com descuido, e murmurou para si, cismático:

"Li Chijing, do Pico Qingsui..."

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