Os fantasmas do vale os receberam com gentileza. Um ancião explicou que aquele era o submundo, acessível através de fendas entre mundos. — Voltem pelo caminho que vieram — aconselhou ele. — Os vivos não pertencem aqui.
Xu Jin se curvou e se virou — mas uma voz soou atrás deles.
— Xu Ying.
Um deus de rosto de cavalo adiantou-se, chamas enrolando-se de suas narinas, envolto em incenso e terrível. — O caçador de cobras de Lingling. Procurado pelo próprio Underworld Emperor. — Ele riu e agarrou um fantasma, jogando-o em sua boca como um petisco. — Seu retrato está em toda corte do submundo.
Xu Jin deu um passo à frente de seu filho, sorrindo desesperadamente. — O senhor pegou o garoto errado, meu lorde. Eu o puxei do rio há sete anos. Ele nunca deixou Wuling.
O aperto do deus fechou-se em torno da garganta de Xu Jin. — Então comerei o pai do garoto errado.
O rosto de Xu Jin ficou roxo. — Corra... A-Ying...
Algo se acendeu no peito de Xu Ying. Não raiva — algo mais antigo. Seu sangue sobressaltou-se, e atrás dele um deus de cabeça de elefante se manifestou, dois zhang de altura, trombetando enquanto seu chute conectava-se com as costelas de rosto-de-cavalo.
O deus cambaleou. *O quê?*
Xu Ying também não sabia. Seu corpo se movia sem a permissão de sua mente. Quando o deus convocou lâminas de incenso, os dedos de Xu Ying chacoalharam e sword-qi as cortou no ar. Quando o deus carregou em quatro braços, Xu Ying se abaixou e se moveu como uma serpente — Dragon-Serpent Awakening Art, suas palmas empurrando dragon-qi que envolveu o deus e o esmagou contra um penhasco.
O rosto-de-cavalo se contorceu uma vez e morreu.
Xu Ying encarou as próprias mãos. — Como eu...
A montanha roncou. A fenda se selou, prendendo-os. Da escuridão, cem deuses emergiram — deuses da cidade, deuses do templo, magistrados do submundo. À sua frente estava uma figura dourada de três zhang: o Wuling Tongpan, mil anos de incenso queimando em sua aura.
— Fugitivo do submundo Xu Ying — retumbou o Tongpan. — Você nos poupou uma viagem.
Xu Ying agarrou a mão do pai. — O que eu fiz de errado?
Ninguém respondeu. Os deuses carregaram.
Xu Ying rugiu. Seu Five Qi convergiu. Seu Xiyi Domain se abriu. O Black Iron Gate se estilhaçou, água celestial inundando tudo. Ele se moveu como uma força da natureza — Yuan Tones trovejando de seus ossos, sword-qi perfurando a testa de um rosto-de-cavalo, relâmpago de tribulação aniquilando um deus da cidade. Sangue caiu como chuva. Corpos dourados quebraram-se contra seus punhos.
O Tongpan o encontrou palma contra palma. Mil anos de incenso versus um garoto que não conhecia sua própria força. Eles se esforçaram, equiparados — então a testa de Xu Ying irrompeu em relâmpago.
Uma terceira grotto-heaven se abriu. Depois uma quarta. Seus ferimentos saravam antes que o sangue pudesse cair. Ele ergueu o machado de pedra sobre a cabeça e o trouxe para baixo, fendendo o Tongpan da coroa à virilha.
Silêncio.
Xu Ying ficou em pé em um lago de sangue divino, cercado por imortais desmembrados. Xu Jin ajoelhou-se próximo, tremendo, o rosto salpicado de ouro.
— A-Ying... — a voz de Xu Jin falhou. — Você é... você é realmente A-Ying?
Xu Ying olhou para o machado em suas mãos. — Eu não sei.
Ele ajudou o pai a se levantar. Juntos caminharam em direção aos pessegueiros, em direção à luz além. A parede de pedra diante deles — Xu Ying ergueu o machado. Ele caiu. A rocha se fendeu como papel.
A luz do sol os cegou. Água lambia seus tornozelos. O barco estava em destroços, o peixe em polpa.
— A-Ying?
Uma voz familiar. Xu Ying se virou.
A cabeça de uma serpente ergueu-se dos pessegueiros, chifres preto-e-branco capturando o sol. Em sua coroa sentava uma garota em roupas grandes demais, sorrindo como se tivesse inventado a travessura. Um sino de bronze pairava ao lado dela, balançando suavemente.
Os lábios de Xu Ying se moveram. Um nome surgiu de algum lugar mais profundo que a memória.
— Seventh Lord?
Os olhos da serpente se arregalaram. Então se molharam.
— Você se lembra — sussurrou Yuan Qi.
O sino tocou uma vez — um som como chegar em casa.