Ao contemplar Xun'er assentindo de verdade às palavras de Xiao Yan, o canto dos lábios de Jie Lie'ao se crispou com violência, e seus punhos estralaram. Com um olhar sombrio, cravou os olhos no rapaz que o enfrentava com serenidade.
A um único olhar à feia expressão de seu amo, o bando de subordinados deu um passo sagaz para a frente, cercando vagamente os dois. Os olhares que varriam vinham carregados de más intenções.
O fundo do mercado tampouco era escasso em gente. Diante do alvoroço, todos se viraram para olhar com curiosidade. Tanto Xiao Yan quanto Jie Lie'ao gozavam de certa fama na cidade de Wutan — Xiao Yan por seu renome de inútil, e Jie Lie'ao por seu hábito de seduzir e abandonar. Embora nenhuma reputação fosse agradável de se ouvir, os dois podiam, sem muito rigor, contar como celebridades.
Diante das ações do lado oposto, as sobrancelhas de Xiao Yan se arquearam, e um vislumbre de zombaria aflorou em seu jovem rosto. Inclinando a cabeça, lançou um suave assobio em direção a um canto do mercado.
Interessada pelo gesto de Xiao Yan, a multidão se virou para olhar e contemplou a força de guardas do mercado vindo à carga, capitaneada por seu chefe, Payne.
Payne guiou sua escolta de guardas chegando em disparada. Com um revés da mão, seus subordinados envolveram o grupo de Jie Lie'ao num cerco ameaçador. Por um instante, os dois lados se olharam com os dentes cerrados.
«Jovem Terceiro Senhor, aconteceu algo?» Ao chegar junto de Xiao Yan, Payne varreu primeiro com o olhar o Jie Lie'ao de frente e os seus, e depois indagou com uma risada respeitosa.
Xiao Yan sorriu. Inclinando a cabeça em direção ao lívido Jie Lie'ao, disse com ar de despreocupação: «Jovem Senhor Jie Lie'ao, este mercado é território da minha família Xiao. O senhor pretende erguer a mão neste lugar?»
Jie Lie'ao lançou um olhar cauteloso a Payne antes de se voltar a Xiao Yan com um muxoxo frio e desdenhoso. «Você não sabe fazer outra coisa senão se apoiar no poder da sua família? Se você fosse um homem…»
«Você quer dizer que, se eu fosse um homem, deveria me bater com você num duelo justo, não é?» Xiao Yan agitou de repente a mão, cortando as palavras de Jie Lie'ao com um riso.
Jie Lie'ao zombou, desafiando-o: «Exato. Você ousa?»
Olhando para o Jie Lie'ao henchido de desafio, Xiao Yan pareceu soltar um suspiro. Sua palma ergueu-se para acariciar a testa, e só ao cabo de um instante ergueu a cabeça, encolhendo os ombros, seu rosto um retrato de pura inocência. «Jovem Senhor Jie Lie'ao, permito-me perguntar que idade o senhor tem neste ano?»
A boca de Jie Lie'ao se crispou e ele ficou em silêncio, com o rosto sombrio.
«Irmão mais velho, o senhor tem vinte e um anos. E eu, quantos? Quinze! E o senhor quer que um garoto que ainda nem celebrou sua cerimônia de maioridade se bata em duelo com o senhor? O senhor mesmo já não acha um pedido dos mais vexatórios?» Suspirou Xiao Yan, e o gesto de desamparo de sua carinha infantil fez Xun'er não conseguir reprimir um sorriso.
«Ha, ha!»
Diante das impávidas palavras do rapaz, os mercenários e comerciantes que tinham barraca no fundo não contiveram uma gargalhada. Por sua idade, Xiao Yan mal podia contar como um jovem cru, enquanto Jie Lie'ao há muito já havia alcançado a idade adulta. Semelhante desafio não podia deixar de angariar algum desprezo.
Aquele cerco de olhares zombeteiros foi como um balde de água fria, que devolveu a Jie Lie'ao uma parte da lucidez. A maturidade que Xiao Yan exibia fazia sempre com que alguém passasse por cima de sua idade. Avisado assim, Jie Lie'ao enfim se lembrou de que o rapaz tinha apenas quinze anos…
Rangendo os dentes em fúria, Jie Lie'ao lançou um olhar ao grupo de guardas que se erguiam alerta atrás de Xiao Yan. Ciente de que hoje não teria ocasião de dar ao garoto o que ele merecia, só pôde balançar a cabeça, desgostoso, e dizer em tom sinistro: «Daqui a um ano, você deveria fazer sua cerimônia de maioridade, não? He, he, esse inútil seu, aposto que assim que ela passar, vão mandar você empacado para algum lugar perdido no interior. Você nem terá direito de pôr o pé na cidade de Wutan. Que pena.»
Xiao Yan esboçou um sorriso tênue e encolheu os ombros com indiferença.
Sua pálpebra estremeceu. Não sabia por quê, mas a mera visão da calma do garoto acendia todos os humores em Jie Lie'ao. Sua piltrafa, por que você tem de vestir esse insuportável ar de mistério insondável à toa…
Sufocando a fúria que lhe fervia por dentro, Jie Lie'ao resfolegou com frieza, agitou a mão e abriu caminho no meio da multidão com os seus.
«Ah, é verdade…» Seus passos se detiveram, como se a Jie Lie'ao tivesse ocorrido lembrar-se de algo. Voltou a cabeça e zombou: «Jovem Senhor Xiao Yan, ouço que à sua família Xiao tiveram o noivado anulado à força pela Nalan Yanran, não foi? He, he, não é nada, em verdade. Com seu talento para o cultivo, de fato você não merece estar à altura da Jovem Senhorita Nalan. Ha, ha!» Dito isso, partiu com uma gargalhada.
Xiao Yan lançou um olhar algo sinistro ao Jie Lie'ao que se afastava. Apertando a mão de Xun'er, a seu lado, disse com secura: «É só um cão raivoso. Se ele te morde, você vai mordê-lo de volta?»
«Mas ele… passou dos limites. Vamos deixá-lo se safar assim, sem mais?» Franzindo as sobrancelhas, disse Xun'er, um tanto indignada.
«He, vai haver ocasião…» Entrecerrando os olhos, Xiao Yan sorriu. O brilho frio que se lhe prendia ao canto dos lábios incutiu um leve calafrio em Payne. Um leão que morde não assusta tanto; o que assusta é um leão que sabe esperar…
«Tio Payne, dei-lhes trabalho.» Voltou-se Xiao Yan e disse afável a Payne e aos seus, e a aura sinistra se dissolveu na franqueza de um rapaz.
Admirando para si o domínio que Xiao Yan tinha sobre os próprios ânimos, o sorriso de Payne ganhou uma sombra de veneração sincera. Com tão somente este porte de ânimo, seus êxitos futuros dificilmente poderiam ser desprezíveis.
«He, he, o Jovem Terceiro Senhor brinca. Este chão sempre foi território da nossa família Xiao. Como iríamos permitir que os da família Jia Lie campassem à vontade?» Percebendo que Xiao Yan deambulava com o olhar, Payne despediu-se e conduziu seus homens de volta.
Vendo-os partir, Xiao Yan por fim se virou. Revolheu com força o longo cabelo de Xun'er e a repreendeu com fingida raiva: «Garvota tão boba. E um cristal mágico de primeira categoria já te moveu o coração? Você não sabe que tipo de mercadoria é esse sujeito? Se você aceitar um presente dele, esse canalha aproveitaria de imediato a deixa.»
Com os lábios levemente franzidos, Xun'er alisou o cabelo e abriu as mãos em sinal de resignação. «Quando algo te chega servido numa bandeja, seria um desperdício não pegar.»
Xiao Yan revirou os olhos, ao mesmo tempo divertido e exasperado. «Aquela coisa nem é valiosa. Por que você haveria de se rebaixar tanto? Afinal, você é a garota prodígio da família Xiao…»
Xun'er franziu sua linda naricita e ergueu o pulso, com a pulseira, em provocação brincalhona. «Então o Xiao Yan-gege esteve de olho na Xun'er.»
Revirando mais uma vez os olhos, Xiao Yan tomou a mão da moça e voltou a se adentrar entre as barracas do fundo do mercado…
Após passar por várias barracas, os passos de Xiao Yan por fim se detiveram. Inclinando-se, contemplou sobre a barraca um cristal verde, salpicado ainda de fiapos de sangue, e exalou com alívio. «Por fim o encontrei.»
Ao deslizar a mão sobre a barraca, justo quando estava prestes a apanhar o cristal, a palma de Xiao Yan ficou dura e rígida. Uma sensação estranha brotou-lhe no coração…
Passando a língua pelos lábios, Xiao Yan nem por isso deixou de apanhar o cristal num firme apertão. Depois, com fingida indiferença, deixou o olhar vagar sobre a barraca…
Um momento depois, o olhar de Xiao Yan se deteve sobre um fragmento de ferro negro que jazia ao lado do cristal mágico.
O fragmento era muito velho e gasto, sua superfície coberta de manchas de ferrugem, e ainda presas a ele, marcas de barro amarelo por lavar. Parecia muito um objeto recém-desenterrado da terra.
«Ei, Pequeno Yan, compre aquele fragmento de ferro negro. É coisa boa, heim…»
Justo quando Xiao Yan se achava perplexo com sua estranha sensação, a voz de Yao Lao soou de repente em seu coração.