Ao ouvir a voz que ecoava em sua mente, Xiao Yan piscou levemente e assentiu com um movimento quase imperceptível do queixo.
Em vez de alcançar naquele instante o fragmento de ferro negro, Xiao Yan atirou com desleixo o cristal mágico verde, ainda salpicado de tênues fios de sangue, entre as mãos. Voltando-se para o mercenário atrás da barraca, um homem de aspecto astuto e ladino, perguntou com ar desembaraçado: «De qual fera selvagem é este cristal mágico?»
«He, he, o jovem Senhor tem bom olho. É o cristal mágico da fera de primeiro grau, a Raposa Devoradora de Madeira. Entre os cristais de primeiro grau, este conta como uma joia; nosso Bando Mercenário Fang teve de esperar três dias inteiros, matar cinco dessas raposas, antes de conseguir um único…» Vendo o quanto Xiao Yan era bem-vestido, o mercenário se apressou a apresentar a mercadoria com a máxima solicitude. «Se agradou ao jovem Senhor, basta com quinhentas moedas de ouro. He, he, alguns de nossos irmãos carregaram feridas de consideração caçando a raposa, sabe?…»
O dedo de Xiao Yan esfregou os fios de sangue do cristal e comprovou que, com efeito, ainda não estavam de todo coagulados. Assentiu levemente, deixou o olhar cair sobre as duas estrelas douradas bordadas no peito do homem e disse com despreocupação: «Está caro. Um cristal mágico de primeiro grau costuma se vender entre quatrocentos e quatrocentos e cinquenta, no máximo. E embora a Raposa Devoradora de Madeira seja uma fera, seu poder de ataque não é grande coisa. Por acaso seus homens não chegaram nem ao nível de Guerreiro Dou?»
O mercenário torceu o canto dos lábios e soltou uma risada seca e forçada. Era evidente que não esperava que aquele rapaz conhecesse tão bem os preços do mercado e a natureza das feras. À posta final, não pôde fazer mais do que sorrir com adulação. «Quatrocentos e setenta, então, que mais para baixo não posso descer, pois nós, os irmãos, também temos de viver, não é?…»
«Ora, ora…» Com um longo suspiro sob o olhar nervoso do mercenário, Xiao Yan se agachou e remexeu ao acaso na barraca. Por sua sorte, aquele esquisito fragmento de ferro também andava entre os objetos, e ele ergueu o fardo de coisas que tinha na mão: «Quatrocentos e setenta, e o lote inteiro junto.»
Os olhos do mercenário percorreram com astúcia os artigos que Xiao Yan tinha na mão, e exalou um suspiro de alívio para seus botões. Bem está — eram todas coisas baratas, de todo modo. Aquele pedaço de ferro negro mal valia algumas moedas de cobre, e o resto não passava de bugigangas. Comprasse o que comprasse o jovem Senhor, era o mercenário quem saía ganhando.
«Fechado!»
Com um gesto desembaraçado, Xiao Yan atirou um pequeno saco de moedas de ouro. Sem dizer mais nada, recolheu a mercadoria, virou-se e foi embora.
«He, Pequeno Yan, nada mal, nada mal — até para comprar você se arranja com tanto cuidado.» No instante mesmo de se virar, a voz zombeteira de Yao Lao ecoou com mofa em sua mente.
«Todos esses tipos são mercadores astutos. No momento em que veem a gente criando gosto por algo, sobem o preço uivando como lobos. Não vou me deixar espoliar feito um tolo…» Respondeu Xiao Yan com parquidão em sua mente. Ele sabia muito bem que a verdadeira joia daquele trato era o fragmento de ferro negro, bem escondido no meio do fardo. Ao enterrá-lo entre um punhado de objetos sem valor, evitara que o mercenário o examinasse com lupa e repensasse o seu preço. Sem dar mais atenção àquele velho excêntrico do anel, acompanhou Xun'er num passeio despreocupado até sair do mercado, e dali, devagar, regressou à família.
A moça a seu lado acompanhara todo o trato com uma centelha de curiosidade brilhando em seus olhos límpidos, mas não fez pergunta alguma. Limitou-se a segui-lo, com aquela quieta elegância que tornava a pequena transação ainda mais inocente do que parecia.
Despedindo-se de Xun'er dentro das dependências familiares, Xiao Yan se apressou de volta ao seu quarto e fechou com cuidado portas e janelas.
Ao se virar, achou que Yao Lao já havia aparecido não se sabia quando. Xiao Yan tirou do peito a medicina e o cristal mágico comprados e perguntou com certa pressa: «Já está tudo conseguido. E agora, o que fazemos?»
Yao Lao soltou um he, he de risada, e seu olhar percorreu com desleixo os materiais sobre a mesa. De súbito observou: «Você não dá uma olhada naquele fragmento de ferro negro?»
«Hã?» Xiao Yan ficou desconcertado e, de imediato, voltou a tirar o fragmento. Examinou-o de alto a baixo com cuidado e franziu o cenho. «E isto para que serve?»
Yao Lao tomou o fragmento na mão e disse com uma risadinha: «Aqui dentro parece se guardar uma técnica Dou. E quem forjou este fragmento talvez também fosse alquimista, pois só é possível captá-la para alguém cuja percepção da alma supere a do homem comum. Um alquimista, veja, precisa nutrir por igual seu Dou Qi e sua alma; sua percepção do mundo se afunda muito mais fundo do que a de um guerreiro comum. Para a gente vulgar, isto não passaria de um pedaço de ferro enferrujado. Só um sujeito como eu é capaz de vislumbrar o que guarda em suas entranhas.»
«Uma técnica Dou?» Ao ouvir isso, os olhos de Xiao Yan se acenderam e ele perguntou de imediato: «De que grau?»
No continente do Dou Qi, as técnicas Dou não gozavam de menor consideração do que os métodos de cultivo do Dou Qi. Uma técnica profunda permitia a um homem, no meio da batalha, desatar uma força muito acima da que seu próprio corpo podia reunir; às vezes, uma pitada de poder conferida por uma técnica de grau alto bastava até para inclinar o desenlace de um duelo entre dois rivais de igual patente. E, como as técnicas de cultivo, as técnicas Dou também se dividiam em quatro níveis — Céu, Terra, Xuan e Amarelo. Mas as técnicas que circulavam pela camada comum do continente eram, em sua maior parte, apenas as mais humildes do nível Amarelo.
Ao pensar nisso, o olhar que Xiao Yan dirigia ao fragmento nas mãos de Yao Lao se tornava cada vez mais ardente. Se uma técnica de nível Amarelo já era um tesouro que as famílias e os clãs guardavam com zelo, uma de nível Xuan quase podia se dizer que guardava força suficiente para sacudir os alicerces de toda uma casa.
Vendo o ardor que brilhava nos olhos do rapaz, Yao Lao riu e disse: «Esta técnica Dou é de nível Xuan. Se você há de dominá-la, naturalmente serei eu a te ensiná-la, pois neste fragmento vai gravado seu movimento. Mas antes disso precisamos cimentar sua base. A poção espiritual em que você há de se imergir exige um custo nada desprezível em seus materiais. A medicina e o cristal de hoje serão os últimos que poderemos custear por um trecho — você terá de voltar a comprar outra remessa dessas coisas a cada dois meses.»
A carinha de Xiao Yan ficou rígida, e ele só pôde assentir com um ar um tanto abatido.
«He, essa classe de coisas, na verdade só está ao alcance dos ricos…», grunhiu para seus botões.
«Não faça essa cara tão comprida», disse Yao Lao, divertido. «Você passou três anos no fundo desta família, subsistindo de migalhas e desprezo. Se aguentar um pouco mais, as recompensas pesarão muito mais do que essas bugigangas. A poção espiritual limpa seus meridianos e alimenta seu Dou Qi como nada no mundo comum — com o tempo, seu valor falará por si mesmo.»
Ao ouvir isso, Xiao Yan se animou a contragosto. Por mais rígida que estivesse sua cara, nem por isso deixou de guardar o fragmento de ferro negro com zelo. Se uma técnica de nível Xuan havia caído em suas mãos, aquele gasto recorrente era um preço mais do que razoável. Pela força que tanto tempo ansiava — a força que um dia lhe permitiria se erguer diante daqueles que o haviam escarnecido durante três anos —, ele até mesmo arranjaria jeito de poupar cada última moeda que pudesse juntar.