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Capítulo 47: Caminhando Sozinho

Jian Lai·Capítulo 47 de 50·~20 min de leitura

Atualizado: 2026-08-18 23:24

Ler em:EnglishEspañol

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Chen Ping'an e Ning Yao se separaram no Arco dos Doze Pilares, e o rapaz se dirigiu ao Beco dos Vasos de Barro. Bateu à porta e gritou: "Song Jixin, estás em casa?"

A moça que estava na cozinha, recém-servida uma cuia de água com a cabaça de servir, soltou uma série de eructos. Depois de beber, sentiu-se consideravelmente melhor. Deixou a colher e saiu da cozinha num passo gracioso, correu até a porta e a abriu. Meio surpresa, respondeu com seu tom habitual: "Meu jovem senhor não está em casa. Chen Ping'an, por que bates à porta? Antes, sempre ficavas no teu próprio pátio e nos falavas de lá."

Chen Ping'an, separado dela pela porta, disse: "Preciso de um pequeno favor."

Zhigui abriu a porta e brincou: "Que visita rara, que visita rara."

Observou o semblante dele e perguntou: "Que queres do meu jovem senhor? Se não for urgente, posso passar-lhe uma mensagem quando voltar. Se for urgente, terás de ir ao recinto do superintendente do departamento dos fornos para encontrá-lo. Já viste antes: meu jovem senhor tem boa relação com o novo superintendente, o Mestre Song."

Notando que o rapaz permanecia plantado como uma árvore, imóvel, revirou os olhos e exclamou: "Então entra! Que estás fazendo ali parado? Minha casa é uma toca de tigre, ou cobro uma tael de prata por um gole de água?"

Dito isso, cobriu a boca e riu sozinha. "Para ti, o segundo seria sem dúvida o mais aterrorizante."

Chen Ping'an puxou o canto da boca numa sonrisa forçada e disse em voz baixa: "Na verdade vim te procurar. O jeito como chamei era por medo de que Song Jixin se confundisse."

Zhigui compreendeu na hora e sorriu: "Então fala. Qual é? Digo de antemão: vizinhos são vizinhos, e amizade é amizade, mas afinal de contas não sou mais que uma pequena serva que vive sob o teto alheio no Beco dos Vasos de Barro. Não consigo carregar nem levantar — não sou grande ajuda em assuntos grandes. Mas se for dinheiro, tenho uns truquezinhos."

Chen Ping'an sorriu amargamente: "Não é questão de dinheiro. Vou ser direto: Liu Xianyang foi agredido quase até a morte por alguém na ponte coberta. O velho dono da loja da família Yang foi vê-lo e não pôde fazer nada."

Zhigui franziu o cenho: "Não me contaram nada disso. Com quem Liu Xianyang se meteu?"

Chen Ping'an respondeu com resignação: "Um forasteiro. De um lugar chamado Montanha Zhengyang."

Zhigui perguntou com cautela: "Queres que eu mova alguns fios, para conseguir a Liu Xianyang um bom terreno de fengshui para o enterro? Isso não seria difícil. Posso pedir ao meu jovem senhor que ponha uma palavra com o superintendente, e que o recinto envie alguém — o mordomo ou o porteiro — a pedir ao Velho Wei do Beco da Folha de Pessegueiro que encontre um local. Enquanto não for em terras vedadas pelo tribunal imperial, não deveria ser complicado."

O rosto já moreno de Chen Ping'an escureceu ainda mais.

Zhigui pareceu perceber que se equivocou. Por hábito mostrou os dentes, brancos e perfeitamente alinhados, e se apoiou contra o muro onde pendiam os dísticos de primavera. Inclinou a cabeça, sorrindo com ar travesso, e disse: "Chen Ping'an, estás me pedindo que devolva o favor por ter te salvo a vida? Mas eu não sou mais que uma serva. Até o velho dono da loja da família Yang não pôde fazer nada — o que posso eu?"

Após uma feroz batalha interior, Chen Ping'an falou devagar: "Wang Zhu, sei que não és uma pessoa comum. Naquele ano, durante a grande neve, vi-te à porta da minha casa e soube que eras diferente de nós. Tu também foste a primeira a ver que as pedras de vesícula de serpiente eram singulares. Olhando para trás, a maneira como nos olhavas então — os vizinhos — não era essencialmente diferente de como os forasteiros nos olham agora."

A moça sorriu: "Na verdade há diferença."

*Não desprezo apenas a vós, os mortais; até esses supostos imortais e cultivadores, eu descarto igualmente.*

Mas essas palavras Zhigui não disse em voz alta.

Algumas verdades, para ela, eram simplesmente a ordem natural das coisas. Mas para os demais, tornavam-se soberba, um espíritu indômito.

Chen Ping'an perguntou: "Vim perguntar-te se de fato não há forma de salvar Liu Xianyang. Usei uma folha de acácia e mal conseguiu sustentar seu último fôlego. Não serviu de muito, mas ao menos serviu de algo. Assim que queria saber se tu tens folhas de acácia, especialmente folhas sobrantes."

A moça apontou para o próprio nariz: "Perguntas ao meu jovem Song Jixin se tem folhas de acácia, ou a mim — uma pobre órfã serva?"

Chen Ping'an encarou-a fixamente e disse sem rodeos: "Ainda que Song Jixin tivesse, nunca me daria. Pergunto a ti, Wang Zhu. Se as tens, emprestar-me-ias? E se não, conheces algum outro método para salvar Liu Xianyang?"

A moça — sempre chamada Wang Zhu — esfregou o queixo com uma mão e deu uns tapinhas suaves no abdômen com a outra, negando com a cabeça: "Não restam. De verdade não restam. Não te minto. Se tivesses vindo um pouco antes, talvez ainda houvesse algumas sobrando. Quanto a outros métodos, claro que não sou imortal. Como haveria de conhecer as artes de ressuscitar mortos ou fazer carne crescer sobre osso nu? Certo? Chen Ping'an, não podes ser tão exigente. Ah, enganei-me contigo. Pensava que eras diferente dos outros — não do tipo que cobra favores com exigência."

Chen Ping'an insistiu, recusando-se a desistir: "De verdade nada? Seja como for, podes dizer-me."

Zhigui negou com a cabeça, tom firme: "Não tenho, e pronto!"

Chen Ping'an sorriu de leve: "Entendo."

O rapaz virou-se e partiu. Sua figura magra desapareceu logo no Beco dos Vasos de Barro.

A moça permaneceu no beco diante de sua porta, contemplando as costas do rapaz enquanto se afastava. Sua expressão era complexa, com um fio de pena por sua desgraça e de raiva por sua teimosia. Murmurou indignada: "As folhas de acácia que tanto custou conseguir, desperdiçadas assim? Pois bem, poderias morrer junto com Liu Xianyang. Quanto antes morreres, mais cedo renascerás. Com sorte, continuareis irmãos de armas na próxima vida. Ao menos isso é melhor que esses pobres infelizes que não têm nem vida futura."

A moça voltou ao pátio. Ao cruzar o umbral, eructou de novo e zombou de si mesma: "Um pouco empanturrada."

Sem aviso prévio acelerou o passo e ergueu um pé para pisar algo, depois se agachou devagar e clavou o olhar num lagarto de quatro patas, cor de terra, com um pequeno chifre na cabeça. Regalhou-o: "O que se toma emprestado se devolve, para que o empréstimo continue. Vocês, cinco criaturinhas, se algum dia ousarem não pagar ou se fazerem de desentendidos, arranco-lhes a pele, extraio os tendões e meto-os num caldeirão!"

O lagarto sob sua sola retorcia-se com todas as forças, emitindo chiados fracos, como se suplicasse misericórdia.

---

Após deixar o Beco dos Vasos de Barro, Chen Ping'an correu até a escola do povo, onde um velho que varria informou-o de que o Mestre Qi havia partido no dia anterior com três convidados estrangeiros em direção às montanhas profundas além da vila, à procura de mistérios ocultos. A viagem de ida e volta levaria no menos três dias. O semblante do rapaz encheu-se de decepção. Ao se virar para ir embora, o velho barbudo recordou algo de repente e chamou o jovem: "Ei, antes de ir, o Mestre Qi deixou uma instrução: se alguém do Beco dos Vasos de Barro viesse procurá-lo, dissesse àquele rapaz que o princípio já o havia explicado antes, e que estivesse ou não na escola, isso não mudaria nada."

O rapaz pareceu ter sabido desde o início que seria essa a resposta. A luz de seus olhos se apagou.

Água parada que se agita levemente, sem um sopro de vida.

Ainda assim, o jovem se inclinou e disse: "Obrigado, senhor."

O velho recuou alguns passos, se afastando, e acenou com as mãos: "Não mereço o título de 'senhor'."

O velho o viu afastar-se lentamente. Após percorrer certa distância, o rapaz pareceu levantar o braço para enxugar os olhos.

O velho negou com a cabeça suavemente, pensando em outros dois de idade similar — Song Jixin e Zhao Yao, aquelas duas promessas do saber. Depois olhou para este. As circunstâncias de suas vidas eram tão dispares como o céu e a terra.

Unos cavalgam triunfantes com o vento da primavera; outros enfrentam as tempestades de uma época turbulenta.

Chen Ping'an voltou ao Beco dos Vasos de Barro, recolheu a última sacola de moedas de cobre que guardava num vaso de barro, e com três sacolas de dinheiro encaminhou-se à Rua Fulu, até o recinto do superintendente do departamento dos fornos.

O porteiro, ao ouvir a apresentação, ficou algo desconcertado: O vizinho de Song Jixin no Beco dos Vasos de Barro queria ver Song Jixin e o Superintendente Song?

Chen Ping'an deslizou-lhe em segredo uma moeda de cobre dourado que havia preparado de antemão, sem dizer palavra. O porteiro baixou o olhar, a sopesou, a esfregou entre dois dedos, e a compreensão cruzou seu rosto; mas não se apressou a pronunciar-se. O rapaz rapidamente produziu uma segunda moeda dourada. O porteiro sorriu, mas não a tomou, e disse: "Sendo tão sensato, dispo-me a facilitar a apresentação. Se não, e por tua culpa eu perca este emprego, seria o maior ingênuo do mundo. Guarda essa moeda por agora. Se o mordomo aceitar deixar-te passar, podes dá-la então. Se não, minhas mãos estão atadas — considera que simplesmente não estava destinada a chegar às minhas mãos. O que achas?"

Chen Ping'an assentiu vigorosamente.

Não tardou a chegar um anciano mordomo acompanhado do porteiro. Este lançou ao rapaz um olhar de advertência: o que for que faças, não sacas uma moeda neste momento. Aceitar um suborno aberto era um delito grave. Felizmente, o rapaz não fez nada disso, e simplesmente seguiu o mordomo em direção à sala traseira do recinto.

O porteiro suspirou por dentro, confuso. Por que o mordomo havia concordado tão facilmente no momento em que ouviu que se tratava de um rapaz apelidado Chen do Beco dos Vasos de Barro? Desde quando o umbral deste recinto estava tão baixo?

O porteiro sentiu um calafrio. Na verdade, ao ir buscar o mordomo, suas palavras — tanto explícitas quanto insinuadas — o haviam desencorajado de deixar o rapaz entrar, sugerindo que era melhor evitar problemas do que buscá-los. Não o dissera abertamente, é claro, confiando que o velho mordomo, que servia há tantos anos na administração, leria nas entrelinhas.

O plano original do jovem porteiro havia sido simples: embolsar uma moeda dourada sem risco nem esforço. Agora só podia esperar que aquele rapaz farrapento não fosse algum causador de desgraças que lhes acarretasse uma catástrofe.

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Na sala principal da parte traseira, um homem alto, vestindo uma túnica branca, ocupava o assento de honra e bebia chá.

Song Jixin sentava numa cadeira de convidado à esquerda, brincando com um leque de bambú numa mão — abrindo-o, fechando-o, abrindo-o de novo — e sorrindo para o rapaz de sandálias de palha que conduziam diante dele.

As cadeiras de laca negra. A túnica branca como a neve. Um contraste nítido.

O mordomo se retirou. O homem do assento de honra deixou a xícara de chá e sorriu ao rapaz: "Chen Ping'an, senta-te onde quiseres. Na verdade já nos vimos antes no Beco dos Vasos de Barro, mas não te reconheci. Deveria ter-me dirigido a ti antes."

Song Jixin achou isso levemente divertido — somente ele sabia que este homem, ao usar a palavra "eu", resultava notoriamente desajeitado.

O rapaz sentou-se na cadeira oposta a Song Jixin.

O homem foi direto ao ponto: "Chen Ping'an, vieste pelo assunto de Liu Xianyang, não é?"

O jovem se pôs de pé e disse: "Espero que o Mestre Song castigue severamente o culpado da Montanha Zhengyang, e não se limite a expulsá-lo da vila."

O homem sorriu: "Na verdade, esta vila é uma 'terra sem lei', o que significa que nenhuma norma dinástica se aplica aqui. O superintendente sempre esteve numa posição incômoda, sem autoridade para intervir nos assuntos locais. Além disso, o costume aqui tem sido que se ninguém apresenta queixa, os funcionários não investigam. Seja uma grande família batendo uma serva até a morte, ou uma briga entre famílias modestas em que alguém sai ferido — ninguém vem a este recinto bater o tambor da justiça. Assim, Chen Ping'an, trouxeste a cabeça de porco ao templo errado e te ajoelhas antes do deus equivocado."

O homem manteve durante todo um tom amável, sem o menor traço de arrogância.

Chen Ping'an deixou três sacolas de moedas de cobre sobre um taburete alto ao lado da cadeira e disse ao imperturbável homem: "Mestre Song, sei que o senhor é muito poderoso. Quero saber se pode salvar Liu Xianyang — e se não pode salvá-lo, se pode ao menos dar-lhe justiça. Não pode permitir que um assassino saia da vila sem consequências como se nada tivesse acontecido."

O homem riu-se abertamente: "Que eu sou muito poderoso? A moça de negro contou-te isso, hein? Mm, isso demonstra que seu talento marcial é verdadeiramente excepcional — até superior ao de teu amigo Liu Xianyang. Vou dizer a verdade: eu só sei matar. Salvar gente não é algo que eu saiba fazer. E além disso, por que haveria eu de quebrar a grande regra que governou este lugar por mil anos, por um rapaz que vi apenas uma vez?"

O homem apontou para as três sacolas de moedas de cobre: "Sem a armadura ancestral nem a escritura de espada, a vida de Liu Xianyang não vale nem metade desse dinheiro. E se esperas comprar minha amabilidade, essas moedas estão muito longe de ser suficientes. O que, Gran Li romperia relações com a Montanha Zhengyang por três sacolas de moedas? Absolutamente impossível. Seria a zomba de todo o continente de Baoping. Chen Ping'an, talvez não entendas agora, mas se algum dia tiveres a oportunidade de viajar para além da vila, compreenderás que é pura verdade."

Chen Ping'an resmungou entre os dentes: "Mestre Song, pode dizer-me o que teria que fazer para que o senhor atue? Aunque pense que é algo que nem morto poderia lograr, que ao menos o diga."

O homem não acreditou ter deixado escapar a menor pista. No entanto, este vascallo cujo poder era imenso deixou escapar um lampejo de surpresa em seus olhos. Sorriu e disse: "Chen Ping'an, não te estou menosprezando nem colocando obstáculos. Pelo contrário — acho-te interessante, por isso estou disposto a dedicar meu tempo a falar contigo com calma e a negociar. Entendes?"

Chen Ping'an assentiu.

Song Jixin, com postura descuidada, cruzava as pernas sobre a cadeira e batia no joelho com o leque fechado.

*Observando o incêndio da outra margem, alheio ao que não lhe diz respeito.*

Song Changjing não se incomodou com as extravagâncias de Song Jixin. Nesta vila, o vascallo possuía mais inteligência que todos exceto Qi Jingchun. Ao fim disse o coração do assunto: "Chen Ping'an, não te carregues de culpa, imaginando que a morte de teu amigo seria tua culpa. Liu Xianyang já estava preso num beco sem saída. Enquanto aquele rapaz se recusar a entregar a escritura de espada, o nó será indesmontável — porque a Montanha Zhengyang querrá que morra. Nem Qi Jingchun nem o Mestre Ruan podem impedir isso. Não é que ninguém já tenha peleado contra aquele velho simio. O preço simplesmente é alto demais. Não vale a pena."

O homem tomou um gole de chá e continuou com calma: "Chen Ping'an, alguma vez te perguntaste por que tu, sendo o menos merecedor da bênção dos antepassados, recebeste uma folha de acácia, enquanto Liu Xianyang, com sua excelente constituição óssea, não recebeu nem uma? Pensaste nisso?"

Chen Ping'an disse: "Incomodei o Mestre Mestre."

O rapaz de sandálias de palha recolheu as três sacolas de moedas de cobre e se despediu do superintendente.

Ainda que Song Changjing não o tivesse retido, se levantou e o acompanhou até a porta. Song Jixin estava a ponto de se levantar com relutância, quando viu seu tio negar levemente com a cabeça, assim que se sentou de volta com um suspiro confortável, recostando-se no encosto.

Ao chegar ao umbral, Song Changjing disse sem preâmbulo: "Há duas coisas que sou capaz de fazer, mas não consigo fazer sozinho. No entanto, se conseguires completar apenas uma delas, bem poderia considerar ensinar uma lição àquele velho simio."

O rapaz se deteve instantaneamente e se virou, rosto solene.

O homem disse com calma: "Uma é encontrar a oportunidade de sequestrar a menininha da Montanha Zhengyang que sempre acompanha o velho simio — para abalar sua mente e forçá-lo a permanecer na vila contra sua vontade. A outra é sair à noite e derrubar aquela velha acácia, depois arrancar a corrente de ferro do Poço do Ferrolho de Ferro. Podes fazer ambas as coisas, ou apenas uma. Se completares uma, eu agirei e ferirei o agressor em teu nome. Se completares as duas, matarei o velho simio da Montanha Zhengyang."

Song Changjing sorriu enquanto fazia sua promessa: "Minha palavra está dada, e não a retractarei!"

Depois o vascallo de Gran Li, cujo poder era enorme, disse algo enigmático: "Chen Ping'an, confio que és capaz de distinguir se uma palavra é verdadeira ou falsa."

O rapaz partiu em silencio.

Não viu o rapaz se dar golpes no peito com fanfarrices. Song Changjing, pelo contrário, o encontrou inteiramente normal. De pé no umbral, de costas para Song Jixin, perguntou: "Conheces-o melhor do que eu. Achas que o fará?"

Song Jixin negou com a cabeça: "Difícil dizer. Em circunstâncias normais, fazer com que faça algo contra seus princípios seria muito difícil. Mas por Liu Xianyang... talvez fosse outra história."

O homem permaneceu com as mãos atrás das costas, contemplando o céu. Perguntou: "Suponhamos que o rapaz produz uma surpresa inesperada, e eu aproveito a ocasião para intervir — já seja para estabelecer relações com a Montanha Zhengyang ou para formar uma aliança com o Jardim do Trovão do Vento — naturalmente só posso escolher uma, e a outra pode se tornar inimiga. Comparado com ficar de braços cruzados e deixar Gran Li manter relações mornas e distantes com ambas as facções, qual achas que seria melhor para meu Gran Li?"

Song Jixin se pôs de pé e passeou devagar, batendo uma mão com o leque fechado. Depois de refletir, disse: "Em tempos de paz, escolhe a segunda. Em tempos de turbulência, a primeira."

Depois o rapaz sorriu: "Seja o mundo além da vila uma era de paz ou uma época turbulenta, parece que pelo menos, tio, o senhor já tomou sua decisão."

Song Changjing bufou: "Que fazem os guerreiros do campo de batalha em tempos de paz? Ser um cão dócil guardando a casa dos eruditos?"

Song Changjing virou a cabeça para o jovem de semblante rígido: "Já vi que este rapaz — Chen Ping'an — é o verdadeiro nó em teu coração, um que não conseguirás desatar num curto prazo. Se partires desta vila carregando esse nó, não será bom para tua futura cultivação. Assim que podes ver com teus próprios olhos como um jovem de puro coração se transforma em um impregnado de ira e pó mundano. Quando chegar esse momento, parecerá bem inútil guardar-lhe rancor."

Song Jixin abriu a boca mas não disse nada, e caiu em profunda reflexão.

O homem voltou a sentar-se no trono e esvaziou a xícara de chá de um só gole: "O mais importante é que, quando brinco com esses tediosos joguinhos, mais além de encontrar uma desculpa esfarrapada para aguar as águas, quero ensinar-te uma verdade: no caminho da cultivação que te espera, qualquer um pode ser teu inimigo... incluindo teu próprio tio de sangre, eu, Song Changjing."

O jovem ficou atônito.

Song Changjing sorriu com frialdade: "Porque o nó do coração, se não se arranca com as próprias mãos, deixa para trás um mal infinito — como a erva daninha do páramo, que rebrota a cada vento da primavera."

Song Changjing prosseguiu com desdém: "Príncipe imperial de Gran Li, Song Jixin, estás fervendo de indignação? Mas o que podes fazer? Diz-me — em que te consideras melhor que Chen Ping'an, que está sendo manipulado como um marionete de fios?"

Song Jixin encarou fixamente o homem cujo rosto era sereno como uma nuvem leve. Os cinco dedos do jovem, agarrando o leque, deixaram ver tendões e osso.

O homem sentou-se erguido em sua cadeira, com olhar profundo e distante, contemplando o exterior como se falasse consigo mesmo: "Quanto mais gente vires no futuro, mais descobrirás uma coisa curiosa. Toda aquela conversa de que o bem e o mal recebem sua retribuição, da venganza rápida, de um homem comum que se enfurece e salpica sangre três pés, de eruditos e donzelas, de amantes que ao fim se unem... não é mais que a fantasia dos fracos e dos esquecidos. Assim que — teus próprios punhos devem ser duros. Confiar em mim? Confiar em teus pais biológicos? Aconselho-te a abandonar essa ideia de uma vez. Caso contrário, quando te tirar desta vila, será como levar teu cadáver a uma fossa comum. Na casa dos imperadores, cada um carrega com sua própria vida e morte."

O jovem coberto de suor desabou na cadeira, exausto.

Embora o jovem tivesse ocultado seu conhecimento de sua verdadeira identidade atrás de uma máscara de serenidade, e não houvesse mostrado nenhum sinal extraño em seus tratos no recinto, aos olhos do vascallo Song Changjing era transparente, como se o sustivessem diante de um espelho revelador de demônios — um espírito com forma humana, recém-transformado. Assim podia ser reduzido a cinzas entre sorrisos e conversas ociosas.

Song Changjing olhou para longe, sua vista parecendo alcançar a ponta sul do continente de Baoping, até a distante Cidade do Velho Dragão.

Por razões que o vascallo não acabava de compreender, um provérbio lhe cruzou a mente: "O coração humano é um espelho. Quanto mais limpo e sem mancha foi outrora, menos suporta o exame."

Song Changjing pensou que os eruditos da corte, com seu parloteo tedioso que desagrada a deuses e espíritos por igual, às vezes diziam verdades que os homens da espada — mesmo que vivessem mil anos — não podiam conceber nem articular.

Song Changjing reuniu seus pensamentos e apontou para o sul com o dedo, como se empunhasse uma lança: "Song Jixin, se achas que o que eu disse hoje está errado, podes — mas aguenta. Somente quando chegares à Cidade do Velho Dragão no futuro, e trocarmos de assentos, considerarei se vale a pena inclinar o ouvido para ouvir-te."

O jovem Príncipe de Gran Li, Song Jixin, havia recuperado sua compostura. Sorriu: "Veremos."

Na porta do recinto, o rapaz de sandálias de palha entregou ao porteiro a segunda moeda de cobre dourado, conforme prometido.

---

No Arco dos Doze Pilares, Chen Ping'an divisou a figura da moça de negro e correu até ela.

Ning Yao estava sob a placa que dizia "Espírito Ascendente que Atraviesa a Taça e o Touro". Perguntou: "Como foi?"

Chen Ping'an negou com a cabeça: "Procurei os três. Vi dois deles, mas não pude encontrar o Mestre Qi. Embora soubesse a resposta desde o início."

*O cavalheiro não salva.*

O Mestre Qi já havia dito isso antes, de fato.

Ning Yao franziu o ceño em silêncio.

Chen Ping'an então disse algumas palavras de cautela à moça e ecorreu.

Primeiro foi à loja da família Yang, e com uma única moeda de cobre dourado comprou de um anciano bem informado uma grande quantidade de medicinas — frascos, ungüentos e ervas — para tratar pancadas, quedas e ferimentos internos. O rapaz sabia bem como prepará-las e fervê-las. Trabalhar no forno de dragão era um ofício que dependia da montaña, e acidentes eram frequentes. Embora o velho Yao nunca tivesse simpatizado com o meio discípulo Chen Ping'an, tinha que admitir que o rapaz era ágil de pés e honesto de coração. Assim que muitos dos recados — comprar medicinas para os feridos do forno e prepará-las — recaíam em Chen Ping'an.

De volta ao Beco dos Vasos de Barro, em seu lar ancestral, o rapaz fechou a porta e começou a preparar uma decocção — uma receita para ferimentos internos. Enquanto esperava o fogo fazer seu trabalho, estendeu uma camisa sobre a mesa — desbotada pelas lavagens mas ainda limpa — e a rasgou em tiras. O rapaz de sandálias de palha, famoso por sua avareza, não sentiu o menor pesar. Amarrou ao pulso a espada de tinta que Ning Yao lhe havia emprestado, e enrolou camada após camada de finas faixas de algodão ao redor das panturrilhas e pulsos.

Chen Ping'an descolgou do muro o arco de madeira que havia fabricado, hesitou um instante, mas o deixou por enquanto. Em seu lugar, tomou uma funda e um saco de pedras do peitoril.

Por que persistir em tentar quando todos os sinais diziam que era inútil? Três recusas consecutivas, e ainda assim sem arrependimento — essa era a teimosia própria deste rapaz.

Se não tentasse, não poderia estar em paz. Era igual àquela última vez em que foi à ferraria, implorando ao velho dono que experimentasse mais uma vez.

Primeiro havia procurado a peculiar Zhigui, esperando encontrar um fio de esperança para Liu Xianyang. Depois havia procurado o Mestre Qi, agarrando-se à remota possibilidade de que pudesse impartir justiça. E finalmente, o suposto grande mestre da arte marcial que Ning Yao lhe havia mencionado — o Superintendente Song — onde havia colocado toda sua fortuna sobre a mesa num negócio desesperado.

O rapaz havia conhecido as probabilidades desde o início, e assim, embora sua decepção fosse profunda, não sentia como se lhe arrancassem o coração.

Na verdade, o Vascallo Song Changjing e seu vizinho Song Jixin não entendiam Chen Ping'an de forma alguma.

Há coisas que devem ser feitas mesmo que custem a vida. Mas há coisas que jamais devem ser feitas — nem mesmo para salvá-la.

O rapaz se acocolhou na esquina, esperando em silêncio a decocção ficar pronta. Esta poção era singular — não servia para nada mais além de aliviar a dor. Certa vez, no forno de dragão, um homem havia contraído uma doença estranha e permanecido de cama a maior parte do dia, meio morto. O pior não era estar entre a vida e a morte, mas que seu rosto e membros se retorciam de sofrimento. A loja da família Yang lhe havia dado então uma receita muito parecida com esta. O homem morreu pouco depois, mas sem dor. Teve inclusive forças para se sentar, ditando suas últimas palavras, e sob o apoio do velho Yao, ir contemplar o forno pela última vez.

Chen Ping'an pensou que também poderia necessitá-la.

O rapaz notou que ainda havia retalhos de tecido sobre a mesa. Tirou as gastadas sandálias de palha, produziu um par de sapatos novos que nunca se havia atrevido a usar, trouxe o vaso de barro e extraiu os fragmentos de porcelana que guardava dentro.

Cerca de meia hora depois, o jovem havia terminado tudo. Abriu a porta e saiu em silêncio do Beco dos Vasos de Barro.

Ao entardecer, a luz do sol já não era ofuscante. Capa sobre capa de nuvens ardentes se estendiam pelo horizonte, deslumbrantes de beleza.

O rapaz de sandálias de palha caminhou em direção à Rua Fulu.

Na rua empedrada, já não havia ninguém. O rapaz caminhava sozinho.

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