Pelo resto da aula de educação física, Wang Hai tratou Zhang Yu como se ele não existisse mais. Sem instrução. Sem correção. Sem reconhecimento. E seguindo o professor, os outros alunos o evitaram — uma quarentena silenciosa se formando ao redor de um garoto no chão de treino.
Zhang Yu ficou ali, recuperando o fôlego, e decidiu que preferia assim. Menos distração.
Zhou Tianyi o encontrou depois da aula. «Homem corajoso. Comprou seguro de acidente?»
Zhang Yu se levantou, sacudindo o uniforme. «Quando minhas notas dispararem, un montão de professores vão me proteger.»
Checou o Livro de Pena. **Força Física: Nível 0.84.** Subiu de 0.83. Sem injeções. Sem suplementos. Sem refeições aprimoradas. Só as 36 Formas de Forja Corporal e uma força sobrenatural ameaçando explodi-lo se parasse.
Zhou Tianyi o estudou. «Você parece... suspeitosamente confiante. Achou um novo fornecedor? Produto bom? Compartilha a riqueza, irmão.»
Zhang Yu estalou os nós dos dedos. «Treino natural. Puro e simples.»
Zhou Tianyi o encarou como se ele tivesse acabado de anunciar que respirava água.
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Na porta, Bai Zhenzhen esperava, corada pelo esforço, vapor subindo fracamente dos ombros. Bateu no batente. «Zhang Yu. Terminou de posar? Tô com fome. Anda.»
Os três se juntaram à corrida do almoço. Como alunos da turma de elite, passaram pela fila principal na entrada VIP — caminhando past os alunos regulares como se estivessem cruzando uma corda de veludo, cercados por olhares que iam de inveja a ressentimento a um tipo de cálculo faminto que dizia *eu posso pegar seu lugar.*
Lá dentro, Bai Zhenzhen anunciou: «Cultivação alimentar hoje. Vou lá pra cima.»
O refeitório do segundo andar. Refeições aprimoradas — ingredientes espirituais, ervas medicinais, preparação alquímica. Centenas de yuans por prato. Milhares para as opções premium. O Zhang Yu original, cheio de dinheiro de empréstimo, tinha se dado ao luxo ocasionalmente. O Zhang Yu atual não conseguia pagar nem o cardápio econômico do primeiro andar sem fazer conta.
Olhou Bai Zhenzhen subir as escadas e sentiu a verdade assentar nos ossos: o segundo andar e o primeiro andar eram dois mundos diferentes, igual a fila VIP e a fila regular, igual a turma de elite e as turmas padrão, igual os ricos e os pobres. Songyang High não era uma escola. Era uma pilha de tetos de vidro, cada um invisível até você bater nele.
*Você não tá quebrada?* se perguntou, vendo-a desaparecer. *Como você pode pagar o segundo andar?*
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Descobriu depois do almoço.
Uma intimação ao escritório do professor. Professor chefe Su Haifeng — um homem de meia-idade com óculos de armação de arame e a expressão paciente e cansada de alguém que tinha visto alunos demais falhar por motivos além do controle deles. Também era o diretor de ano do grupo do primeiro ano.
Sentado atrás da mesa, bebendo chá, Su Haifeng olhou Zhang Yu com algo que parecia preocupação genuína.
«O professor Wang me falou sobre o que aconteceu na aula de educação física.»
Zhang Yu se tensou.
«Você lembra o que me disse durante sua entrevista de admissão?»
A pergunta o pegou desprevenido. Revirou as memórias do corpo original, mas os detalhes estavam borrados. A entrevista não tinha ido bem. Isso ele sabia.
Su Haifeng suspirou. «Você disse que queria entrar numa universidade top. Uma escola famosa. Uma grande seita. Lembro porque disse com muita convicção.»
«Agora você tá pulando injeções. Deitado no chão durante a aula. Discutindo com seu instrutor. Essa é a atitude de alguém que quer uma universidade top?»
Zhang Yu abriu a boca. Nada saiu. Como podia explicar? *Sou pobre demais para injeções e estou danificado demais para sobreviver a elas. Despertei potencial sobrenatural então não preciso da aula de educação física. Um deus das trevas tá me forçando a treinar até meu corpo ceder.*
«Eu—»
«Zhang Yu.» A voz de Su Haifeng suavizou. «Seu desempenho nos últimos três meses tem sido sólido. Eu sei que você é um bom garoto. Tá acontecendo algo em casa?»
Zhang Yu o encarou. Preocupação genuína. Nesta escola. De um professor.
«Alguns problemas familiares», disse com cuidado. «Vou resolver. Minhas notas vão melhorar.»
Su Haifeng franziu a testa. «Não esconde coisas do seu professor. Tô aqui pra ajudar.» Se inclinou pra frente. «É dinheiro? As empresas de empréstimo ligaram pra escola.»
Zhang Yu ergueu a cabeça de repente. «Ligaram pra você?»
Su Haifeng assentiu com peso. «Como mais eu saberia quanto de dívida você tá carregando? Por que não me contou?»
«Eu não pensei...» Zhang Yu deixou a frase morrer. Não pensou que a escola fosse ajudar. Ainda não pensava. Mas a expressão de Su Haifeng era tão sincera. Tão paternal.
«Zhang Yu.» O professor suspirou, abrindo uma gaveta. «Eu sei que esta escola pode ser dura. Entendo por que você teria medo de aparecer. Mas nós somos seus professores. Nosso trabalho é ajudar.»
Deslizou um documento pela mesa.
«Solicitei isso especialmente. O Plano de Assistência a Alunos Pobres. Assine, e podemos começar a controlar sua situação.»
Zhang Yu pegou os papéis. A garganta apertou. «Professor... obrigado.»
*Talvez eu estivesse errado sobre este lugar*, pensou. *Talvez nem todo mundo aqui seja predador. Talvez alguns deles realmente—»
Olhou o documento.
O coração parou.
Su Haifeng sorriu com calidez. «Anda. Assina. Posso enviar antes do expediente acabar hoje.»
«Professor.» A voz de Zhang Yu foi plana. «Isso é um contrato de consolidação de dívidas. O senhor me deu o formulário errado.»
O sorriso não vacilou. «Alunos pobres são pobres porque estão endividados. Reestrutura a dívida, a pobreza se resolve. Esse é o plano.»
Zhang Yu escaneou os números. Seus empréstimos — todos, agrupados — mais um novo empréstimo da escola para pagar os anteriores. Depois de «taxas de processamento» e «cargos administrativos» e «custos de originação» e uma dúzia de itens que ele não conseguia decifrar, o total passava de um milhão de yuans.
*Reestruturação de dívida. É só pegar emprestado mais para pagar o que já estava emprestado. É a mesma armadilha, o mesmo ciclo — só com a escola como credora no lugar dos agiotas.*
«Professores são agiotas agora», murmurou. «Tudo é agiota. O sistema inteiro.»
Empurrou o documento de volta pela mesa. «Eu pago sozinho.»
«Zhang Yu—»
«Não. Obrigado. Eu cuido disso.»
Saiu do escritório numa velocidade pouco abaixo de correr.
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Atrás dele, Su Haifeng ergueu a xícara de chá. Soprou a superfície. Tomou um gole.
O celular vibrou. Atendeu.
«Ele recusou.»
Uma pausa.
«Vou tentar de novo. Não se preocupa.»
Outra pausa. Um sorriso fraco.
«Todos quebram no final. Os métodos dos cobradores de dívidas são... persuasivos. Os pobres sempre voltam para pedir emprestado.»
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Zhang Yu caminhou de volta para a aula, as mãos tremendo. Não de medo. Com a raiva específica e clarificadora de um homem que tinha acabado de entender as regras do jogo.
*Até os professores. Até o professor chefe.*
*Não há aliados nesta escola. Só senhorios.*