No caminho de volta, Han Li cruzou com pouca gente. Um ou dois irmãos maiores ergueram os olhos com certa surpresa ao vê-lo passar mancando, mas nenhum lhe dirigiu a palavra: ninguém, ao que parecia, prestava muita atenção em seu pequeno discípulo menor.
Quando enfim alcançou sua morada, a dor no pé tinha se tornado mais intensa. Han Li sentou-se de imediato na beira da cama, tirou com cuidado o sapato e a meia e examinou a ferida.
Estava inchadíssimo! O dedão de seu pé direito havia se abultado num inchaço alto e arredondado, e a pele sobre a região machucada estava tensa, avermelhada e reluzente: era igual a um grande pimentão vermelho.
Han Li alcançou com presteza a almofada de madeira na cabeceira da cama e sacou de debaixo dela uma garrafinha de remédio. Era o remédio para feridas cuidadosamente preparado pelo Doutor Mo, maravilhosamente eficaz contra hematomas, inchaços e até hemorragias. Han Li tivera de suplicar bastante para arrancá-lo do Doutor Mo, pensando em tê-lo em reserva para as feridas externas que Zhang Tie seguramente sofreria ao treinar a Arte da Armadura de Elefante. Jamais previra usá-lo sobre si mesmo em primeiro lugar.
Mal saiu a tampa, um aroma medicinal rico e penetrante encheu o cômodo inteiro. Despejou um pouco de pó com suavidade sobre o dedo inchado, e uma sensação fresca e refrescante se espalhou na hora pela carne. De fato, o ungüento secreto para feridas do Doutor Mo vivia à altura da fama: fazia efeito assim que tocava a pele. A habilidade médica do Doutor Mo era, certamente, incomparável.
Han Li encontrou um pano limpo, envolveu o dedo ferido num grande e volumoso embrulho e então se calçou de novo o sapato e a meia com cuidado.
Mm. Ao menos a dor tinha diminuído consideravelmente.
Deu uns passos curtos e lentos de um lado para outro, bastante satisfeito com a rapidez com que tratara a ferida.
Agora era a hora de cuidar daquela garrafa misteriosa, a culpada de tanto dano.
Han Li tirou a garrafa do peito, procurou um trapo e a poliu até que reluzisse; só então se revelou por inteiro sua verdadeira aparência.
A garrafa não era grande; ele podia fechar a mão inteira ao redor dela, e era inclusive um ponto menor que sua própria garrafinha de remédio. Todo o seu corpo era de um verde pálido e suave, carimbado com uns poucos padrões de verde-escuro em forma de folha: estampados de folhas que pareciam vivos, tão reais ao toque que se sentiam salientes, como se folhas verdadeiras tivessem ficado incrustadas na superfície.
Pesou-a na mão. Era pesada. E, no entanto, a todas as luzes não era feita de nenhum metal que Han Li conhecesse, nem tampouco de porcelana que reconhecesse. Pois, ao passar a mão sobre ela, faltava-lhe o toque frio do metal comum, e não tinha a textura lisa e escorregadia da cerâmica ordinária.
Han Li a examinou com atenção por um bom tempo antes de poder assegurar-se de que a garrafa fora forjada de algum material jamais visto por ele. Esse verde pálido parecia ser uma cor natural, algo próprio do material em si, não um tingimento aplicado depois.
Seu olhar pousou na tampa selada com firmeza, e Han Li resolveu satisfazer sua curiosidade na hora. Abriria a garrafa ali mesmo, para ver se havia algo dentro.
Uma vez mais pôs a mão sobre a tampa e a torceu com todas as suas forças.
Uma vez. Duas vezes. Três vezes... A tampa e o corpo valiam tanto quanto se tivessem sido fundidos juntos numa peça única: não se moviam nem um fio, e a tampa não dava o menor sinal de querer afrouxar.
Han Li ficou estupefato. Mesmo quando encontrara a garrafa pela primeira vez, não conseguira torcer a tampa. Mas naquela ocasião estava tão entregue à ferida que não tivera estômago para se esforçar de verdade, e deixara que o assunto lhe escapasse da cabeça. Supusera que agora, invocando a força completa de seu corpo, abri-la seria canja. Jamais teria esperado que continuasse recusando.
Han Li tentou de novo, torcendo a tampa uma dúzia de vezes ou mais seguidas, até o braço se cansar e torcer de dor — e mesmo assim não houve sinal de sucesso. Então parou.
Sacudiu o braço e fez o punho trabalhar de um lado para o outro; tinha o forçado um pouco de tanto apertar.
Levou a garrafa bem diante dos olhos e a repassou mais uma vez, palmo a palmo. Que pena. Não conseguiu achar nenhum mecanismo oculto nem nenhum segredo na garrafa, de modo algum.
Agora Han Li estava de verdade atolado. Se não conseguisse tirar a tampa, como iria saber se havia algo dentro? E se houvesse, então uma garrafa tão rara quanto esta, selada com tanto hermetismo, teria de ser um objeto de valor e raridade imensos.
Han Li apertou a garrafa com força na mão e a estudou, absorto em pensamentos por um bom tempo. Por fim decidiu que faria Zhang Tie, que era com muito mais forte que ele, tentar ver se conseguia torcer a tampa. Porque a essas alturas Zhang Tie, com cada mão, podia levantar um par de baldes cheios d'água e correr montanha acima e abaixo veloz como o vento. Todos os dias era Zhang Tie quem mantinha cheios até a borda os grandes tonéis d'água do vale, pontualmente, sem falta.
Tomada sua decisão, Han Li foi ao quarto de Zhang Tie e acomodou-se para esperar, desejando em seu coração que Zhang Tie voltasse logo.
Esperar por uma pessoa era um assunto miserável, e Han Li sentia que o tempo se arrastava com uma lentidão insuportável. Pareceu-lhe que se passava uma eternidade antes de ouvir por fim o rangido de Zhang Tie empurrando a porta e entrando.
Assim que ergueu o olhar, Han Li viu Zhang Tie entrar com uma camisa fina de pano verde, saindo do corpo inteiro um leve e tênue vapor, encharcado de suor da cabeça aos pés. Han Li soube na hora que aquele era o estado normal das coisas depois de Zhang Tie terminar seu treino, e não lhe deu importância.
Zhang Tie, ao divisar Han Li em seu quarto, ficou perplexo. Mas antes de poder sequer abrir a boca, o impaciente Han Li, que esperara uma eternidade, plantou-lhe a garrafa bem diante do nariz.
"Irmão Zhang, me faça um favor. Você consegue abrir esta garrafa?"
"E de onde você a tirou? Que coisa bonita!" Zhang Tie ficou um instante em suspense, e então tomou a garrafa.
"As! As! As!"
"Hei! Esta coisa é dura de roer, um osso difícil de quebrar. De que diabos é feita?" Zhang Tie não desperdiçou palavras: pegou-a com as duas mãos e se esforçou com toda a sua força. Mas nem mesmo ele conseguiu tirar a tampa.
"Não tem jeito, não consigo torcê-la. Que tal ir procurar um dos outros irmãos maiores para tentar?" Zhang Tie balançou a cabeça em tom de desculpa para Han Li, devolveu-lhe a garrafa de um arremesso e lhe ofereceu mais uma sugestão.
"Você também não consegue?" Han Li começava a se angustiar, e não pôde evitar andar em círculos pela sala.
"Hei! O que aconteceu com seu pé?" Só então Zhang Tie notou que havia algo de errado no modo de andar de Han Li.
"Não é nada. Só chutei uma pedra enquanto caminhava." Han Li não sabia por quê, mas não queria contar a Zhang Tie a verdade sobre a garrafa. Talvez fosse puro instinto: ele havia se acostumado, em silêncio, a tratar o assunto da garrafa como seu pequeno segredo particular.
Desiludido até o fundo da alma, Han Li não tinha coração para conversa fiada com Zhang Tie. Fez-lhe um par de perguntas corteses sobre como iam seus treinos, e então se despediu do quarto, com a intenção de voltar e encontrar por conta própria algum jeito de resolver o enigma da garrafa.
De volta à sua pequena cabana, Han Li pôs a garrafa de pé sobre a mesa e então se deitou ao longo da beirada da mesa. Fixou os dois olhos na garrafa, completamente imóvel, enquanto sua mente girava num ritmo furioso, à procura de alguma boa ideia que pudesse abrir frestas naquele problema.