Talvez fosse a bênção da própria fortuna que o salvou. De repente, um relâmpago de súbita clareza atravessou o coração de Han Li.
Ele se lançou em direção à bolsinha que arremessara às trevas distantes, cobrindo a distância em dois ou três passos largos, inclinou-se, apanhou-a, e num abrir e fechar de olhos lhe abriu a boca e dela retirou o amuleto da paz que seu pai e sua mãe lhe haviam dado.
No instante em que o amuleto tocou sua palma, uma sensação de fresca clareza, que chegava ao tutano mesmo de corpo e alma, veio-lhe subindo pela mão. O alvoroço de seu coração se apaziguou de pronto; a pesadez e o mal-estar remexido desapareceram como se jamais tivessem existido; e cada estranho desarranjo de seu corpo se desvaneceu com a calma serena de quem volta à saúde. Tudo o que restava era um domínio de si, tranquilo e firme.
Agora Han Li não prestava mais atenção às mudanças que o percorriam. Segurou o amuleto numa das mãos e ergueu-o diante dos olhos, acariciando-o com a outra, devagar, com ternura, contemplando-o com todo o seu ser.
Passou-se um longo tempo antes de Han Li soltar um suspiro, deter os dedos que acariciavam e desviar o olhar do amuleto.
O que Han Li não sabia era que o perigo que tão perto estivera de lhe custar a vida não era um «desvio de qi», mas a «invasão de um demônio do coração» que aflige os cultivadores. De não ter tomado aviso a tempo e usado algum objeto externo para expulsar o demônio, em pouco tempo ele teria feito ninho em seu espírito primordial, se apossado de todos os seus movimentos, mergulhado-o num mundo falso de ilusões e levado-o a se contorcer como um louco até morrer. Tudo isso, é claro, só veio a compreender em anos posteriores, uma vez posto no caminho do cultivo.
Han Li exercitou sua arte e fez um exame a fundo de todo o seu corpo. Tudo estava bem em seu interior—e, para seu espanto e deleite, seu poder crescera consideravelmente. Ainda não atravessara a terceira camada para entrar na quarta, mas se achava no próprio cume da terceira, bem perto da quarta.
Um leve sorriso se desenhou no rosto de Han Li diante desse giro inesperado e bem-vindo. Mas logo ele se recompôs e refreou a excitação, temendo que o ímpeto da emoção o arrojasse a um desvio tão estarrecedor pela segunda vez, quando não poderia ter certeza de escapar com vida outra vez. Tomou a bolsinha que guardava o amuleto, com a intenção de devolver ao seu lugar o leal amuleto e guardá-lo com cuidado.
«Eh!» A exclamação lhe escapou por si só, pois ele tropeçara em algo na bolsinha que esquecera havia muito tempo—uma lembrança guardada desde anos atrás: a garrafa misteriosa.
A existência mesma daquele frasco se lhe apagara por completo da mente; de não ter agora pousado a vista nele por acaso, nunca mais teria se lembrado da coisa.
O Han Li de hoje era um homem muito distinto do menino de quatro anos atrás tanto em saber quanto em discernimento. Devorando toda sorte de livros das câmaras do Doutor Mo, tornara-se muito mais instruído, e a prática de sua fórmula lhe aguçara o engenho bem além de sua antiga lâmina. Podia dizer já, pelas múltiplas maravilhas que a garrafa lhe mostrara outrora, que era sem dúvida um tesouro singular, dos mais raros do mundo inteiro, com usos bem fora do comum.
Tudo o que lhe restava era desenterrar o verdadeiro valor daquela garrafa e ver se ela podia servir aos seus fins—e não deixar que jazesse em trevas eternas no fundo de uma bolsinha, desperdiçando sem proveito seu poder misterioso.
Han Li tirou a garrafa, mas não teve pressa de abri-la. Com os olhos que ganhara em quatro anos, tornou a examiná-la de cima a baixo, à caça de qualquer detalhe que tivesse passado em branco antes.
Mas para seu pesar, após virá-la e revirá-la e inspecioná-la com o máximo cuidado várias vezes, não encontrou nada de novo em absoluto.
Han Li não desperdiçou mais tempo com olhar estéril. Com cuidado, destampou a tampa. Dentro, a gota de líquido esmeralda continuava a repousar, quieta, no fundo da garrafa, sem diferença alguma em relação ao que era há quatro anos.
Han Li entendia muito bem que todos os segredos da garrafa muito provavelmente residiam naquela única gotinha de verde. Aquele líquido deveria encerrar sem dúvida alguma uma propriedade especial que ainda não descobrira. E para dar com o segredo daquele líquido, ele via, teria de achar alguma criatura viva pequena e praticar sobre ela um cruel experimento no corpo vivo.
Mas era noite, e o mundo exterior estava às escuras—não era boa hora para sair à caça de presas vivas. E depois de um duro dia e meia noite de fadigas e ansiedade, Han Li se encontrou bem exausto. Além disso, mesmo que achasse alguma besta, sob a tênue e vacilante luz da lâmpada noturna, se não pudesse discernir as mudanças exatas do ensaio, não teria ido todo o seu trabalho a nada?
Após pesar bem o assunto, Han Li resolveu dormir, e descansar bem durante uma noite. Quando tivesse recobrado as forças, praticaria o experimento no dia seguinte; haveria tempo de sobra. E quem sabe se uma grande maravilha não o estaria esperando quando a noite terminasse—assim ele esperava enquanto se dispunha a dormir.
Na manhã seguinte, depois de se levantar e se lavar, Han Li foi primeiro à grande cozinha, além do vale, e comeu um desjejum simples. Nos velhos tempos, quando o Doutor Mo ainda estava na seita, era costume do Doutor Mo mandar trazerem a comida diretamente ao Vale das Mãos Espirituais, e Han Li, banhando-se no reflexo da glória do Doutor Mo, tampouco precisava sair do vale para suas refeições, pois o cozinheiro trazia também sua porção. Mas agora que o Doutor Mo andava longe da Seita dos Sete Mistérios, os homens da cozinha, naturalmente, já não lhe levavam a comida à porta. Isso levou Han Li a refletir, não sem acidez, sobre quão servilmente bajuladores eram os mordomos da cozinha, e sobre como viera a conhecer o doce poder que o posto e o cargo podem comandar.
Quando terminou o desjejum, Han Li não saiu da cozinha de imediato. Em vez disso, procurou o mordomo, lhe pôs diante algumas moedinhas de prata bem talhadas e as trocou por dois coelhos monteses pequenos, de pelo cinzento e espesso, ambos vivos e esperneando, que levou de volta ao Vale das Mãos Espirituais.
De volta no vale, Han Li amarrou os coelhos com cordas num espaço largo e aberto do jardim de ervas, e os deixou assar sob o sol abrasador.
Somente quando os coelhos se houveram murchado com o calor e ressecado a garganta, foi ele buscar uma grande tijela de porcelana branca. Com cuidado, verteu o líquido verde da garrafa na tijela e o misturou com um pouco de água corrente.
Aquela gota de líquido, não maior que um feijão, se dissolveu de imediato na água e tornou toda a tijela de um verde-jade brilhante. Uma mirada àquele verde bastava para que um poço profundo de frio, sem que ninguém o chamasse, brotasse do coração de quem olhasse.
Han Li deixou a tijela de líquido diluído junto aos coelhos sedentos. Ressecados já pelo sol e presos de uma sede furiosa, se amontoaram ansiosos em volta da borda e sorveram a água a grandes goles. Não querendo que tomassem demais de uma vez, Han Li afastou outra vez a tijela assim que beberam a metade.
Então ficou a um lado, com a tijela de porcelana na mão, esperando com paciência para ver o que faziam os coelhos e se alguma mudança curiosa vinha sobre eles.
Passou-se o tempo, mas breve—o espaço de meia vareta de incenso, não mais—quando os coelhos começaram a saltar e se empinar com agitação, e depois a crescer mais e mais frenéticos, seus movimentos cada vez mais violentos a cada instante. Então sobreveio a transformação pasmosa: sob o pelo, inchaços do tamanho de ovos de galinha começaram a crescer, mais e mais, até cobrir o corpo inteiro, e em seguida se fundiram numa massa ininterrupta. Os corpos dos coelhos, inchados a ponto de aparentar uma circunferência a mais por inteira, descansavam sobre suas pequenas cabeças com um ar quase cômico.
Os corpos inchados mantiveram aquele tamanho apenas um momento, e então se inflaram outra vez, devagar a princípio e num ritmo cada vez mais rápido conforme passavam os instantes, como se algum gás invisível lhes fosse bombeado sem cessar, esticando-os maiores e mais redondos e cada vez mais tensos. Ao fim, seus corpos se abombaram como duas grandes melancias, redondos e rijos como um par de balões soprados.
Ao ver se tornarem monstruosos e estranhos os corpos dos coelhos diante de seus próprios olhos, e ao ouvir seus alaridos de agonia, um frio pavor se derramou sobre Han Li.
Tudo o que estava ocorrendo havia ultrapassado quanto ele tivesse imaginado. De ter resultado o líquido sem nome um veneno mortal, ou alguma droga milagrosa que magnificasse o poder de alguém, isso teria sido bom—ambas as coisas cabiam nos limites do que podia conjeturar. Mas que disso saísse uma visão tão eriçadora de cabelos, com os próprios corpos dos coelhos inflados como se os tivessem folesgado com um grande sopro, em formas tão horríveis e estranhas—isso ele jamais poderia haver previsto em mil conjeturas.