Passou-se mais uma noite, e assim que Han Li se levantou ao amanhecer foi direto ao jardim de ervas medicinais, ansioso para ver se aquelas poucas plantas haviam sofrido alguma mudança.
Porém, antes mesmo de chegar aos canteiros, percebeu de repente o cheiro de vários aromas medicinais ricos e penetrantes.
Han Li se deteve por um instante e logo sua mente se agitou. «Será que…?»
Seu passo se acelerou por conta própria até ficar diante das ervas que exalavam um perfume tão intenso.
Seriam de verdade as mesmas plantas de ontem? Han Li não podia acreditar no que via. Deu várias palmadas no próprio rosto, com força suficiente para arder, antes de abandonar aquele pequeno ato de autotortura.
«As folhas desta Erva do Dragão Amarelo ficaram num tom levemente arroxeado; o Lótus Amargo abriu nada menos que nove pétalas; e a casca do Fruto do Esquecimento da Pena está completamente preta: haha, haha!» Han Li não conseguiu mais se conter. Mesmo alguém tão equânime quanto ele soltou uma gargalhada rumo ao céu.
«Enfim dei com um tesouro! No espaço de uma única noite, ervas que mal guardavam um ou dois anos de potência viraram plantas de uma década ou mais. Pela cor das folhas, o formato do fruto e a fragrância das pétalas, não há dúvida de que são ervas raras, maduradas há muitos anos.» Examina cada planta com máximo cuidado e confirmou que batiam em tudo com as descrições dos seus livros de medicina. Eram, sem sombra de dúvida, medicinas preciosas e muito envelhecidas.
«Se eu conseguir amadurecer ervas desse jeito, vou ter tantos remédios raros quanto jamais possa desejar! E o que eu mesmo não usar, poderei vender para os outros. Ora, recuperarei prata em qualquer quantidade!» Incapaz de conter a agitação, os pensamentos de Han Li começaram a desgovernar-se.
Quanto mais pensava, mais eufórico ficava, e mais longe voavam seus devaneios, até acreditar que tropeçara num autêntico tesouro. De repente se deixou cair ao chão e deu várias cambalhotas no lugar. Sua compostura habitual desaparecera por completo; comportava-se exatamente como qualquer garoto despreocupado de catorze ou quinze anos expressando sua alegria.
Só ao cabo de um bom tempo Han Li voltou a si. Sua mente recobrou a cautela de costume, e ele se pôs a considerar as dificuldades que acompanhavam engolir aquele bolo caído do céu.
Em primeiro lugar, embora as ervas parecessem estar em bom estado pelo lado de fora, seu verdadeiro poder ainda estava por provar. Afinal, elas se transformaram ao absorver aquele estranho líquido; quem poderia dizer se não carregavam dentro algum ingrediente mutado? Ontem ele vira com os próprios olhos o triste destino daqueles coelhos. O prudente era ser precavido.
Em segundo lugar, o líquido verde-esmeralda daquela misteriosa garrafinha se esgotara por completo. Não sabia se ela voltaria a produzir aquelas gotas, ou se era um objeto de uso único. Naquela noite iria conferir.
E se nenhum desses dois assuntos resultasse num problema, ele ainda precisaria dominar por completo os detalhes e os passos daquele método de amadurecer ervas, trazendo sob seu controle aquela técnica inacreditável.
Han Li refletiu com profundidade e chegou à lista de perguntas acima. Até resolver aqueles enigmas, aquele golpe de sorte não passava de uma flor vista entre a névoa ou da lua refletida na água.
Concluídas as deliberações, Han Li pôs mãos à obra.
Primeiro foi à grande cozinha, fora do vale, e comprou do responsável mais dois coelhos de pelo cinzento. Essa compra deixou o administrador ao mesmo tempo encantado e um tanto confuso: por que aquele jovem não parava de comprar coelhos vivos? Será que os criava para degolá-los ele mesmo e praticar suas habilidades culinárias?
Han Li não se importava nem um pouco com o que os outros pudessem pensar. Desta vez não amarrou os coelhos no jardim de ervas, mas sim à porta de seus próprios aposentos, para poder observá-los a todo momento.
Depois foi aos canteiros de ervas, colheu com cuidado aquelas poucas plantas que haviam crescido de forma acelerada e as transformou em várias decocções de excelente medicina para fortalecer os tendões e nutrir os ossos. Misturou essas medicinas na comida de que os coelhos mais gostavam e lhes deu de comer três vezes ao dia, com o objetivo de testar se as ervas eram venenosas.
Feito tudo isso, Han Li esperou com impaciência a chegada da noite. O tempo se arrastava num passo agônico, mas enfim chegou a escuridão que ele tanto anelava.
Assim que caiu o crepúsculo, Han Li saiu disparado, tirou a garrafinha da bolsa e a colocou no chão. Depois ficou olhando para ela com concentração absoluta, aguardando alguma mudança.
Passou-se um quarto de hora. A garrafa não fez nada.
Passou-se meia hora. Continuou sem fazer nada.
Três quartos… e à medida que os instantes se deslizavam, o coração de Han Li afundava cada vez mais. Ficou observando até quase o amanhecer, e a garrafa não deu o menor sinal de vida.
Ficou completamente desolado. Será que a garrafa era, afinal, um objeto de uso único? Ou teria ele feito algo errado?
Obrigando-se a manter o ânimo, Han Li examinou o entorno.
«Não há nada de suspeito aqui, exceto que o céu está meio escuro», murmurou consigo mesmo.
De repente ficou paralisado. Ergueu a cabeça e olhou para cima: o céu se fechava negro e pesado, sem mostrar nada de nada. «O céu está meio escuro.» Aquelas palavras haviam feito saltar uma chispa em seu interior.
«Será porque é uma noite nublada, sem estrelas nem lua?» Han Li recordou que todas as ocasiões anteriores em que a garrafa mudara foram noites de tempo limpo, quando o céu estava aberto e se viam claramente as estrelas e a lua. Mas aquela noite o céu estava sombrio e nublado, coberto de nuvens densas de horizonte a horizonte.
Uma vez que a ideia criou raízes em sua mente, o ânimo de Han Li se elevou um pouco. Como notou que o céu começava a clarear, soube que naquela noite não aconteceria mais nada. Guardou a garrafa, decidido a tentar de novo quando o tempo melhorasse.
E, contra todas as suas expectativas, durante as duas semanas seguintes o céu não se limpou em nada. Ao contrário, começou a cair uma chuva fina e pertinaz, e esse tempo persistia até o dia de hoje.
Han Li olhava a garoa suave e tenaz, e o coração se enchia de frustração. Quanto mais esperava, ansioso, que o céu se abrisse, mais obstinada era a chuva em não terminar, sem dar o menor sinal de querer parar.
Voltou o olhar para os dois coelhos que se abrigavam no interior. Seus pulos cheios de vida só o entristeciam ainda mais. Desde que comiam a comida misturada com remédio, as criaturas não haviam sofrido nenhum efeito adverso; se algo, estavam ainda mais viçosos do que antes. Durante as últimas duas semanas Han Li os observara de perto todos os dias e confirmara que não apresentavam nenhum sintoma de envenenamento; ao contrário, nutridos pelas boas medicinas, tinham ficado mais fortes e robustos.
Porém, aquele bom resultado não alegrou Han Li nem um pouco. Ao contrário, deixou-o inquieto e indeciso, incapaz de sossegar a mente. Para ele, se a garrafa podia ou não produzir novo líquido verde-esmeralda tornara-se a chave de todos os problemas que o atormentavam — e aquele maldito tempo, que não acabava nunca, se recusava a deixar o mistério ser resolvido. Como não ficar mergulhado numa profunda aflição?