Qin Ming pôs o saco de couro no ombro e iniciou o caminho de volta.
A colheita foi boa: meio saco de nozes secas, um esquilo vermelho mutante. Suficiente para se alimentar por um tempo. A neve escondia buracos e pedras sob os pés, mas seu humor se mantinha firme.
Pensava na primavera. Quando o período de exaustão passasse, as fontes de fogo nas zonas perigosas jorrariam, a luz da terra subiria densa e quente, e a floresta morta lançaria novos brotos. Um mundo completamente diferente.
Mas isso estava a meses de distância.
Perto da orla da floresta, ele parou. Largou o saco. Agarrou a forquilha de caça com as duas mãos e virou em redondo.
Olhos vermelhos na escuridão. Dois, de um carmesim ardente, aproximando-se rápido.
Seu cabelo se eriçou. A coisa era grande — sentiu na vibração do chão, no cheiro rançoso que vinha com o vento frio. Enfiou a forquilha na neve e pegou o arco. Seus braços eram poderosos; puxou a corda pesada até uma lua crescente e soltou. A flecha de ferro cravou na escuridão com um estalo seco.
A forma que avançava tropeçou. Atingida.
Disparou de novo, e de novo — cada flecha encontrou seu alvo no escuro. Um rugido baixo e gutural. Os olhos vermelhos se apagaram. Galhos estalaram enquanto a besta desviava para trás de uma árvore.
Qin Ming não relaxou. Um animal ferido era mais perigoso que um faminto, e este tinha inteligência suficiente para se esconder e esperar.
Apanhou o saco e a forquilha e disparou para terreno aberto. Não pretendia ficar na mata escura com algo que caçava espreitando em vez de atacando.
Atrás dele, a neve explodiu — a besta o seguia, arrebentando a vegetação rasteira. Ele girou e puxou o arco. A flecha se cravou num tronco grosso, sacudindo a árvore com tanta força que a neve desabou como uma cachoeira. A forma recuou para as sombras.
Um predador normal teria fugido ou atacado. Este circulava. Esperava. Buscava uma abertura.
Qin Ming manteve a posição, o arco apontado para a linha das árvores. A forma negra apareceu mais duas vezes — grande, de olhos vermelhos, opressiva. Mas as flechas a mantiveram à distância. Por fim, um rosnado frustrado rolou entre as árvores, e os olhos desapareceram na floresta profunda.
Ele vira o suficiente. A coisa correra em pé. Algum tipo de criatura mutante, embora não soubesse qual.
Recuou devagar, vigilante, até estar a menos de uma milha do portão da aldeia. As velhas histórias demoravam a morrer na Aldeia das Duas Árvores — um homem fora morto ali uma vez, arrastado em silêncio por algo que o seguiu até em casa. Estivera a dez metros da segurança.
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Três figuras esperavam fora da aldeia, batendo os pés e soltando bafo branco. Tinham as sobrancelhas cobertas de gelo.
Agachavam-se no sulco de neve que Qin Ming tinha pisado ao sair, falando em voz baixa.
«Maldito frio. Vamos embora logo. Ele provavelmente está morto lá fora.»
«E se ele teve sorte como o Velho Li e achou uma carcaça congelada perto da orla?»
Os três eram vadios da aldeia: Hu Yong, Ma Yang e Wang Youping. Preguiçosos, covardes, mas ousados o bastante para pilhar os vizinhos por uma refeição grátis. Tinham ouvido que Qin Ming ia caçar e decidiram esperar.
«Qin Ming é rápido e forte. É melhor não estragarmos isso.»
«E daí? Ele acabou de se recuperar de uma doença. Vai estar fraco. Cobrimos a cabeça dele, pegamos o butim, e não batemos forte o bastante para matar.»
Não tinham estômago para assassinato. Só para roubo.
Qin Ming os viu de longe. Seus olhos eram aguçados. Agachou-se na neve — até o peito, ela o engoliu inteiro. Rastejou por suas próprias pegadas, silencioso, até poder ouvir as vozes com clareza.
Seu rosto endureceu. Sobrevivera a um abutre de rosto de morto. Sobrevivera a um espreitador mutante na mata. E aqueles três queriam roubar comida pela qual ele sangrara?
O trio cavou um buraco na neve como quebra-vento, encolhendo-se lá dentro. Tinham achado que ele iria fundo nas montanhas e calcularam mal a hora do retorno — senão nunca teriam falado com tanta liberdade.
«Fiquem quietos quando ele chegar», disse Ma Yang.
«Rápido e duro por trás», concordou Hu Yong.
Wang Youping resmungou. «Espero que ele apareça logo. Estou congelando.»
A parede de neve atrás deles explodiu para dentro.
Os três foram ao chão. Hu Yong saiu primeiro — uma bota o acertou em cheio no rosto. Uma forquilha de caça desabou sobre seu ombro, e ele desabou, com uma dor até o osso gritando pelo corpo.
Ma Yang emergiu e levou um chute no nariz que partiu dor e água salgada pelo crânio. Gritou, lágrimas e ranho congelando no rosto, rolando pela neve.
Wang Youping afundou mais no monte de neve. Então os dentes de aço atravessaram seu casaco e sua pele — raso, mas ele sentiu o sangue. Guinchou.
«Não me mate! Por favor!»
Qin Ming o arrastou para fora com a forquilha e o chutou três metros até um banco de neve.
«Qin — Qin Ming—»
«Irmão Ming, somos da mesma aldeia! Tenha piedade! Nós erramos!»
Viram a forquilha de aço brilhando em sua mão e se renderam no mesmo instante. Carregavam facas e paus, mas a expressão em seu rosto — fria, afiada, vibrando com intenção de matar — matou qualquer pensamento de lutar. Os valentões sempre se quebravam contra alguém que batia mais duro.
Qin Ming não queria matá-los. Pô-los de joelhos com a forquilha e os espancou a fundo, descarregando a tensão acumulada da floresta.
No fim os três ficaram ensanguentados, inchados, uivando. Advertiu-os uma vez, depois os deixou mancar para longe.
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Na orla da floresta onde Qin Ming enfrentara a besta, um burro caminhava sobre a neve aberta. Movia-se com a soltura de uma criatura que conhecia a estrada, em direção às montanhas.
Em seu lombo ia uma doninha. Branca pura, nem um fio de pelo descolorido. Numa era em que o sol morrera e criaturas brancas eram raras, destacava-se como um osso sobre água negra.
Não se agitava como um animal selvagem. Sentava-se de pernas cruzadas sobre o lombo do burro — montando ao contrário, de frente para o caminho atrás. Seus olhos eram profundos, sem pressa, pacientes. Conduzia-se como um velho que vira tudo e achava a maior parte tedioso.
A besta mutante que Qin Ming afastara viu o burro e avançou. Então avistou a doninha branca. Parou morta. Virou. Enterrou-se sob a neve, tremendo.
O burro olhou para a besta escondida com leve desinteresse e seguiu andando para as montanhas, levando a doninha silenciosa.
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A fonte de fogo resplandecia. As duas árvores — uma negra, uma branca — balançavam com o vento frio.
Qin Ming alcançou o portão da aldeia e deixou os ombros caírem.
«Qin Ming voltou!» Um homem cortando lenha ergueu o olhar.
Portas se abriram ao longo da rua. Sua caçada solitária fora o assunto da aldeia — será que sobreviveria? Teria trazido algo?
As pedras-sol em cada porta lançavam luz rosada sobre a neve. As pessoas saíram e viram o esquilo vermelho pendurado em sua forquilha. Silêncio.
Não era o que esperavam.
Lu Ze veio a passos largos, visivelmente aliviado. Era homem de palavra direta. «Disseram que você foi atrás de um urso. E volta com... um esquilo?»
«Também roubei a casa dele», disse Qin Ming.
As pessoas notaram o saco de couro em suas costas e entenderam. A inveja cintilou em seus rostos.
Então alguém viu o pelo do esquilo — levemente luminoso, de um vermelho fogo profundo. Mutante. Valia dinheiro de verdade.
«Viagem segura e boa colheita, as duas coisas», disse o Velho Liu da guarita.
Os aldeões perguntaram se o exterior estava seguro agora. Qin Ming lhes contou a verdade — uma perigosa criatura mutante rondava a orla externa da floresta. Ele não enganaria seus vizinhos. Disso as pessoas podiam morrer.
Mencionou a emboscada dos três vadios. A aldeia se voltou contra eles no mesmo instante — desavergonhados, atacando um vizinho que arriscara a vida por comida. Lu Ze e os outros encontraram o trio mancando de volta e lhes deram outra surra no portão, para garantir.
Qin Ming distribuiu punhados de nozes a todas as crianças da rua. Então viu a Vovó Zhou — pálida, apoiada em seu portão — e lhe pôs uma bolsa de comida seca nas mãos sem dizer palavra.
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Na casa de Lu Ze, Wen Rui, de cinco anos, estava em êxtase.
«Tio, você é incrível! As nozes selvagens estão ótimas, e os pinhões—»
Wen Hui, de dois anos, estava sentado com uma tigela de tâmaras amassadas sem caroço, estalando os lábios. Beijou Qin Ming na bochecha com um beijo molhado.
Na forquilha de caça, o esquilo vermelho acordou. Seus olhos de gema negra se arregalaram enquanto observava as pessoas remexendo suas provisões de inverno. O desespero se assentou sobre seu pequeno rosto.
«Mais de trinta libras de comida», disse Liang Wanqing, impressionada. «Que criaturinha tão diligente.»
Os olhos do esquilo quase pegaram fogo.
Então o rosto de Lu Ze ficou sério. «Xiao Qin. Seu corpo quase se recuperou. É hora de pensar seriamente na Vida Nova.»